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26.8 - LUCAS 10,38-42
26.8 - LUCAS 10,38-42

REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 10,38-42 (ANO C)

 

O Evangelho deste décimo sexto domingo do tempo comum continua a nos situar no longo caminho de Jesus para Jerusalém. Como temos afirmado nos últimos domingos, o caminho que Lucas apresenta é, mais do que um percurso físico, um itinerário teológico e catequético, no qual Jesus revela sua identidade messiânica e forma o seu discipulado, ao mesmo tempo em que antecipa a natureza missionária da comunidade cristã. O texto proposto para hoje é exclusivo de Lucas (Lc 10,38-42). Trata-se do relato da visita de Jesus às irmãs Marta e Maria. Embora simples do ponto de vista narrativo, esse texto é altamente rico e revolucionário, no qual diversos paradigmas são quebrados. Como já estamos bastante familiarizados com o contexto do caminho, ao invés de contextualizar o texto, recordaremos inicialmente alguns aspectos relacionados à sua interpretação ao longo da história.

Por muito tempo, esse texto foi usado simplesmente para fundamentar a distinção entre duas formas de vida caras ao cristianismo: a vida ativa e a contemplativa, com uma clara superioridade da vida contemplativa, reservada a pessoas criteriosamente escolhidas por Deus para viver separadas do mundo, preservadas em mosteiros e conventos. Nessa linha, a personagem Marta representa a vida ativa, enquanto Maria é o ícone da vida contemplativa. Manter o texto nesta perspectiva é aprisioná-lo e deixar de perceber a sua riqueza ímpar no conjunto da obra de Lucas, o autor do Novo Testamento que mais valoriza a participação das mulheres na vida de Jesus e das comunidades cristãs. Por sinal, uma outra recomendação importante para uma compreensão adequada deste relato é mantê-lo separado da passagem do Evangelho segundo João (cf. Jo 11,1-43) em que Jesus também aparece em relação com as mesmas irmãs Marta e Maria, por ocasião da morte e reanimação de Lázaro, também irmão das duas. Há uma tendência quase automática de relacionar os dois relatos, o que prejudica a compreensão da perspectiva de Lucas que, para evidenciar a importância do encontro de Jesus com as duas mulheres, faz de conta que Lázaro não existe. É nessa linha que devemos fazer a leitura.

Olhemos, portanto, atentamente para o texto, para perceber as novidades que Lucas apresenta nele: “Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa” (v. 38). Naquele contexto, a mulher não tinha autonomia para receber um homem em casa. Esse era papel do homem. Enquanto o homem dava atenção ao hóspede, as mulheres da casa permaneciam na cozinha, preparando o alimento e não ousavam, sequer, saudar o hóspede. Por isso, trata-se de algo novo. A atitude de Marta foi revolucionária. Ao acolher Jesus, ela rompeu barreiras. Revolucionária também foi a atitude de Jesus: no seu tempo, não era conveniente para um homem aceitar a acolhida de mulheres. Temos logo no primeiro versículo, portanto, uma dupla transgressão: de Marta e de Jesus; ambos fizeram o que era proibido. Com isso, o evangelista ensina que homem e mulher possuem a mesma dignidade e, consequentemente, os mesmos direitos. Por onde Jesus passa, Ele quebra barreiras, rompe condicionamentos e promove libertação.

Na sequência, o evangelista introduz mais uma personagem, e com uma atitude ainda mais revolucionária que a de Marta: “Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra” (v. 39). A posição de Maria é muito importante e significativa, pois é a posição do discípulo, de acordo com o método rabínico de ensinamento. O gesto de sentar aos pés não quer dizer adoração nem devoção, como muitas interpretações afirmavam. Sentar aos pés para escutar quer dizer ser discípulo ou discípula; é aceitar o outro como mestre, como recordou Paulo em relação a Gamaliel, o seu mestre, ao defender-se dos judeus de Jerusalém: “Eu sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade. Fui educado aos pés de Gamaliel” (At 22,3). Portanto, Maria se torna discípula com essa atitude. Assim, também ela rompe muitas barreiras. Esse papel não era permitido às mulheres. Temos aqui, novamente, uma dupla transgressão: a de Maria, que exerce um papel inconcebível para uma mulher da sua época, e a de Jesus que, ao aceitar mulheres no seu discipulado, põe cada vez mais em xeque a sua condição de mestre. Inclusive, na época circulava o seguinte ditado: “é melhor queimar a Torá do que colocá-la nas mãos de uma mulher”. Com isso, Jesus rompe com todos os padrões de mestre da sua época. Rabino algum do seu tempo aceitava mulheres no discipulado.

Apesar de ter recebido um homem em casa, atitude revolucionária para uma mulher da sua época, Marta ainda estava condicionada, pelo menos em partes, aos padrões e normas do seu tempo, imaginando que a mulher não poderia fazer outra além dos cuidados do lar: “Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres. Ela aproximou-se e disse: ‘Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!” (v. 40). Temos aqui a descrição de uma situação normal para uma dona de casa, principalmente tendo que preparar refeição para uma visita importante. É a imagem da dona de casa disciplinada que não perde tempo para manter a casa em ordem e servir da melhor maneira possível aos hóspedes. Por isso, ela pede que Jesus intervenha, pois, fazendo tudo sozinha, talvez, não conseguisse preparar a refeição a tempo. Embora normal para uma dona de casa, o pedido de Marta é absurdo para Jesus: tirar Maria dos seus pés seria fazê-la renunciar à condição de discípula e privá-la de um direito conquistado, um ato de emancipação feminina.

Com serenidade, Jesus responde à solicitação de Marta, sem, no entanto, atender ao seu pleito, ou seja, sem tirar Maria dos seus pés: “O Senhor, porém, lhe respondeu: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas” (v. 41). Antes de tudo, é necessário recordar que Jesus não está repreendendo Marta, como tem sido interpretado esse versículo. De fato, ver essa passagem como uma repreensão é um dos maiores equívocos das interpretações tradicionais. É inegável que Jesus vê o ativismo desenfreado, no qual Marta estava envolvida, como um empecilho à escuta da sua Palavra. Diante disso Ele não repreende, mas dá uma oportunidade, faz um convite ao discipulado. Na linguagem bíblica, a dupla invocação de um nome por Deus ou por um mensageiro seu, como aqui –  “Marta, Marta!” – é sinal de um chamado vocacional; recordemos alguns casos: “E Deus o chamou do meio da sarça, dizendo: ‘Moisés, Moisés!’ Este respondeu: ‘Eis-me aqui!” (Ex 3,4); “Veio o Senhor e chamou como das outras vezes: ‘Samuel, Samuel!’ e Samuel respondeu: “Fala, pois teu servo te escuta” (1Sm 3,10); “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (At 9,4b). Como Maria já tinha abraçado o discipulado, o que foi demonstrado pelo gesto de sentar-se aos seus pés, Jesus chama também Marta a essa condição, ao invés de repreendê-la pelas suas preocupações. Esse chamado pode ser visto também como uma maneira de equilibrar a comunidade, pois já havia duas duplas de irmãos entre os discípulos: Simão e André, João e Tiago (cf. Lc 5,1-11; 6,14); é chegado também o momento de ter uma dupla de irmãs: Marta e Maria.

Assim como os discípulos pescadores foram chamados a deixar as redes para segui-lo, Marta é chamada a deixar certas preocupações e, assim como sua irmã, optar pela “parte boa”: “Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (v. 42). Embora a tradução litúrgica use a expressão “a melhor parte”, o correto é “a parte boa” (em grego: τήν άγαθήν μερίδα), pois é a única que realmente importa, e é incomparável. Essa “parte boa” é o Evangelho, o conjunto do ensinamento de Jesus e a sua própria pessoa. É escolhendo a “parte boa” que o ser humano encontra vida em plenitude e, por isso, se torna uma pessoa livre.

Ser discípulo ou discípula de Jesus é optar pela liberdade, abrir mão de todas as formas de prisão existentes. Esse chamado é aberto a todos e todas. Foi compreendido por Maria e Jesus o estende também à sua irmã. A própria Marta já tinha dado um grande passo de emancipação ao atrever-se a acolher um homem em sua casa. Faltava mais um, sentar-se aos pés do mestre para ouvi-lo. Fazendo isso, ela estaria escolhendo a “parte boa” e, logo, conquistando a liberdade plena. Esse chamado é dirigido a todas as pessoas, de todos os tempos e lugares.

 

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN