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55 - A Ultima Semana
55 - A Ultima Semana

A ÚLTIMA SEMANA

Um relato detalhado dos dias finais de Jesus

 

 

 

Introdução

A última semana de Jesus em Jerusalém foi muito tumultuada. Naquele tempo, o dia seguinte começava ao pôr do sol, por volta das 18hs, e ainda hoje algumas religiões leva isso em voga. Vejamos em poucas palavras o que aconteceu com Jesus durante os últimos dias em Jerusalém, tendo seu clímax na Sexta-Feira Santa e no Domingo de Páscoa. A “Semana Santa” é a época mais sagrada do ano, para nós cristãos por isso, o modo como essa história é contada importa muito. O meu objetivo é recontar a partir do Evangelho de Marcos um relato que todo mundo acha que conhece bem e a maioria parece não conhecer absolutamente.

 

Marcos, escrito por volta do ano setenta, cerca de quarenta anos após a morte e ressurreição de Jesus, é o relato mais antigo, o único dos evangelistas a se esforçar para relatar a última semana de Jesus dia a dia, ao passo que os outros evangelistas mantiveram algumas, mas não todas essas indicações de tempo. Eis o que diz Marcos (com acréscimo dos nossos atuais nomes dos dias): Domingo: “Quando se aproximaram de Jerusalém”(ll,l). Segunda-feira: No dia seguinte”(11,2). Terça-feira: “Pela manha” (11,20). Quarta-feira: “Dali a dois dias era a Páscoa” (14,1). Quinta-feira: “No primeiro dia dos pães ázimos” (14,12). Sexta- feira: “E logo ao amanhecer” (15,11). Sábado: “O sábado” (15,42; 16,1). Domingo: “De manhã cedo, no primeiro dia da semana” (16,2).

 

Além disso, apenas Marcos detalhou acontecimentos “da manhã” e “da tarde” em três desses dias: domingo (11,1-11), segunda-feira (11,12-19) e quinta-feira (14,12-17).

 

Por fim, somente ele narra os eventos da sexta-feira com cuidadosos intervalos de três horas (como os turnos de serviço dos militares romanos).

6hs: “E logo ao amanhecer” (15,1)

9hs “E era a hora terceira" (15,25);

Meio-dia: “É a hora sexta” (15,33);

15hs: “A hora nona” (15,34);

18hs: “Chegado à tarde (15,42)

 

Em outras palavras, apenas Marcos teve um cuidado considerável para contar sua história de modo que os ouvintes ou leitores do seu tempo, pudessem acompanhar os acontecimentos dia após dia e, eventualmente, hora a hora. É a história de Jesus “atualizada” para a época em que a comunidade de Marcos vivia. O que significou a última semana na vida de Jesus para nós?

 

DOMINGO

Era domingo quando Jesus entrara triunfante na cidade de Jerusalém montado num jumentinho. Ao entrar, toda a cidade se alvoroçou, então, alguns perguntaram: Quem é este? Alguém respondeu. "Este é Jesus, o Profeta de Nazaré da Galíléia". Aliás, o profeta Zacarias (há 520 a.C já profetizara que Ele - ia  entrar montado num burrinho: “Alegra-te muito, ó filha de Sião, exulta, o filha de Jerusalém, eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador, pobre e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta Zc 9,9; Mt 21,4-5). Durante esse episódio, as multidões, tanto as que iam adiante como as que 0 seguiam, diziam: “Hosana ao Filho de Davi’Bendito o que vem em nome do Senhor' Hosana nas alturas”! (Mt 21,9). Ao entrar em Jerusalém os fariseus O desprezaram e disseram: “... vedes que nada aproveitais? Eis o mundo inteiro vai após Ele” (Jo 12,19). A expressão “o mundo” significa "a ralé, a gentinha, os zés ninguém”, mas, Jesus nem ligou, só observou tudo ao redor, e como já era perto do anoitecer, saiu para Betânia com os doze (Mc 10,11). Esse foi o último domingo de Jesus.

 

SEGUNDA-FEIRA

Ao amanhecer da segunda-feira, retomou a Jerusalém, quando caminhava em sua direção encontrou uma figueira, e desejou se alimentar dos seus frutos, pois estava com fome, mas, só encontrou folhas, então disse: “Nunca mais coma alguém fruto de ti” (Mc 11,14), e prosseguiu rumo a Jerusalém. Ao entrar no templo, purifíca-o da iniquidade pela segunda vez. A primeira vez foi no início do seu ministério (Jo 2,13- 22; Mt 21,12,13). Nesses dois episódios, o SENHOR ficou indignado com aqueles que praticavam oomércio dentro da casa de oração. Terminado o dia, sendo já tarde, saiu da cidade e passou a noite no monte das oliveiras.

 

TERÇA-FEIRA

Voltando pelo mesmo caminho a Jerusalém, seus discípulos viram que a figueira se tinha secado desde as raízes e se espantaram, mas, Jesus lhes disse: “Tende fé em Deus; Porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito. Por isso vos digo que todas as coisas que pedirdes, orando, crede em receber, tê-las-eis. E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas. Mas, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos céus, vos não perdoara as vossas ofensas” (Mc 11,22-26). Entrando no templo, os principais sacerdotes, os escribas e os anciãos se aproximaram dEle e perguntaram com que autoridade fazia essas coisas. Em outra passagem vemos os tais dizerem que só creríam nEle, se o mesmo realizasse algum milagre. A mensagem de João Batista (precursor de Jesus) aos fariseus da sua época vale para os de hoje: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura”? (Mt 3,7). Esse foi um dia de grandes ensinamentos, Jesus calou a boca dos algozes e ninguém ousava perguntar-lhes mais nada, então Ele começou a censurar-lhes. São três capítulos (Mt 23-25) de grandes discursos e termina dizendo: “Irão estes (escribas e fariseus) para o tormento eterno, mas os justos, para a vida eterna” (Mt 25,46). Antes de terminar a terça-feira, Jesus disse aos seus discípulos: “Bem sabeis que, daqui a dois dias, é a Páscoa...” (Mt 26,1,2), ou seja, a Páscoa começava ao pôr do sol da quinta-feira que é o início da sexta-feira.

 

QUARTA-FEIRA

Esse foi o dia que Judas Iscariotes se dirigiu à "agência do diabo" e adquiriu seu passaporte (Lc 22,4). Antes, ele desfrutava de comunhão íntima com Jesus, porém depois O abandonou e O traiu. A traição a Jesus foi profetizada somente quanto à sua ocorrência, mas não quanto ao seu praticante. A pessoa especifica que trairía a Cristo não estava predestinada desde a eternidade. Podería ter sido qualquer um dos apóstolos. O afastamento e o desvio de Judas para ficar com os inimigos de Jesus e a consequente tragédia que se seguiu, deve servir de advertência a todo seguidor de Cristo.

 

QUINTA-FEIRA

Jesus celebra a última ceia (Mt 26,17-29). Pela manhã preparam tudo, e à tarde a ceia foi celebrada, conforme registra Marcos (14.16,17): “E, saindo os seus discípulos, foram à cidade, e acharam como lhes tinha dito, e prepararam a Páscoa. E, chegada à tarde, foi com os doze. E, quando estavam assentados a comer, disse Jesus: Em verdade vos digo que um de vós, que comigo come, há de trair-me”. A ceia ainda alcançou o dia seguinte, pois João (13,30) diz: “E, tendo Judas tomado o bocado, saiu logo. E era já noite”, ou seja, o início da sexta-feira. Foi no momento da ceia que o diabo se apossou de Judas (Jo 13,27) e o leva a estar com os tiranos. Logo em seguida, Jesus passa a confortar seus discípulos conforme João 14,1-16. Leia o capítulo 16 e veja quantas maravilhas Jesus promete. No versículo 33 Ele diz: “Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo”.

 

SEXTA-FEIRA

Antes de Jesus sair do cenáculo onde celebrou a ceia, cantou um hino, e, então, saiu com os onze ao monte das Oliveiras, e de lá foram ao lugar chamado Getsêmani, disse: “Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito” (Mt 26,36-37; Jo 17). Jesus suava gotas de sangue intercedendo por todos nós. Enquanto falava com seus discípulos, “surgiu uma multidão; e um dos doze, que se chamava Judas, ia adiante dela e chegou-se a Jesus para beijá-lo. Disse-lhe Jesus: Judas, com um beijo trais o Filho do homem”? (Lc 22,47-48). Então levaram Jesus à prisão sendo torturado pelos soldados até ao amanhecer. Todos os discípulos O abandonaram (Mc 14,50). Antes do sol nascer foi humilhado, torturado e interrogado pelos sacerdotes, e pela manhã, entregaram-no a Pilatos que mandou crucifica-lo. Ainda na sexta-feira antes das 18hs, Ele foi sepultado notúmulo de José, senador da república (Lc 23,50), natural de Arimatéia. O corpo de Jesus esteve presente no túmulo os três dias: algumas horas da sexta-feira, sábado o dia todo e algumas horas do domingo quando ressuscitou pela madrugada.

 

SÁBADO

Jesus permanece no túmulo e é vigiado. Os guardas que vigiavam é uma grande prova de que ninguém tirou o corpo de Jesus de lá. Isso foi muito bom para provar que Jesus ressuscitou. Veja só a tramóia: "E no dia seguinte, que é o dia depois da Preparação, reuniram-se os principais dos sacerdotes e os fariseus em casa de Pilatos, dizendo: Senhor, lembramo-nos de que aquele enganador, vivendo ainda, disse: Depois de três dias ressuscitarei. Manda, pois, que o sepulcro seja guardado com segurança até ao terceiro dia, não se dê o caso que os seus discípulos vão de noite, e o furtem, e digam ao povo: Ressuscitou dentre os mortos; e assim o último erro será pior do que o primeiro. E disse-lhes Pilatos: Tendes a guarda; ide, guardai-o como entenderdes. E, indo eles, seguraram o sepulcro com a guarda, selando a pedra" (Mt 27,62-66).

 

DOMINGO

Jesus sai triunfante da sepultura: “E eis que houvera um grande terremoto, porque um anjo do Senhor, descendo do céu, chegou, removendo a pedra da porta, e sentou-se sobre ela. E o seu aspecto era como um relâmpago, e as suas vestes brancas coma neve. E os guardas, com medo dele, ficaram muito assombrados, e como mortos. Mas o anjo respondendo, disse às mulheres: Não tenhais medo; pois eu sei que buscais a Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui, porque já ressuscitou, como havia dito. Vinde, vede o lugar onde o Senhor Jazia. Ide, pois, imediatamente, e dizei aos seus discípulos que já ressuscitou dentre os mortos. E eis que Ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali O vereis. Eis que eu vo-lo tenho dito. E, saindo elas pressurosamente do sepulcro, com temor e grande alegria, correram a anunciá-Lo aos seus discípulos (Mt 28.2-8). Se Jesus não tivesse ressuscitado, o mundo estaria pior, e punha as promessas da Bíblia por terra. Sua ressurreição nos garante a vitória sobre a morte, pois assim como venceu, venceremos também. Ôh glÓÓÓria!

Os que vigiavam o túmulo voltaram aos príncipes dos sacerdotes e relataram tudo o que havia acontecido: “Eis que alguns da guarda, chegando à cidade, anunciaram aos príncipes dos sacerdotes todas as coisas que haviam acontecido. "E, congregados eles com os anciãos, e tomando conselho entre si, deram muito dinheiro aos soldados, dizendo: Dizei: Vieram de noite os seus discípulos e, dormindo nós, o furtaram, É, se isto chegar a ser ouvido pelo presidente, nós o persuadiremos, e vos poremos em segurança. E eles, recebendo o dinheiro, fizeram como estavam instruídos. E foi divulgado este dito entre os judeus, até ao dia de hoje" (Mt 28,11-15).

 

Domingo: Jesus entrando em Jerusalém.

Domingo, primavera do ano 30. Início da semana da Páscoa, a mais sagrada do ano judaico. Duas procissões entraram em Jerusalém. Uma procissão de camponeses, a outra um desfile imperial. Do lado Leste, Jesus montando um jumento desceu o monte das Oliveiras, saudado por seus seguidores. Ele era da aldeia camponesa de Nazaré, sua mensagem era sobre o reino de Deus e seus seguidores eram formados pela classe camponesa. Tinham viajado da Galiléia para Jerusalém, cerca de 160 quilômetros ao norte. A narrativa de Marcos sobre Jesus e o reino do Céu mirava Jerusalém, apontava para Jerusalém. Agora havia chegado. Do lado oposto da cidade, vindo do Oeste, Pôncio Pilatos, o governador romano de Idumeia, de Judeia e de Samaria, entrou em Jerusalém na frente de uma fileira da cavalaria e de soldados imperiais.

O cortejo de Jesus proclamava o reino de Deus; o de Pilatos proclamava o poder do império. Os dois cortejos materializaram o conflito central da semana que levou a crucificação de Jesus.

O desfile militar de Pilatos era uma demonstração paralela do poder e da teologia imperial romanos. O cortejo imperial era bem conhecido na pátria judaica durante o século I. Era um habito dos governadores romanos da Judeia estar em Jerusalém durante as principais festividades judaicas. Faziam isso não tanto por reverencia pela devoção religiosa de seus súditos judeus, mas para estar na cidade caso houvesse problemas. Frequentemente havia, em especial na Páscoa, uma festa que comemorava a libertação do povo judeu de um império anterior.

A missão das tropas que acompanhavam Pilatos era reforçar a guarnição romana (Legiões) estacionada permanentemente na Fortaleza Antônia, voltada para o templo judeu e os seus pátios. Os soldados e Pilatos tinham vindo de Cesáreia Marítima, cerca de noventa quilômetros a oeste. Para as principais festividades judaicas, Pilatos, como seus predecessores e sucessores, ia a Jerusalém. Imagine a chegada do cortejo imperial a cidade. A extravagância visual do poder do império: cavalaria, infantaria, armaduras de couro, elmos, armas, estandartes, águias douradas sobre mastros, o estalar do couro, o tilintar dos arreios, as batidas dos tambores. Os redemoinhos de poeira. Os olhos dos espectadores silenciosos, alguns curiosos, alguns pasmos, alguns ressentidos.

Como já observado, o desfile de Pilatos personificava não apenas o poder imperial, mas também a teologia imperial romana - segundo a qual o imperador não era simplesmente o governante de Roma, mas o Filho de Deus. Isso começou com o maior dos imperadores, Augusto, que governou Roma de 31 a.C. até 14 d.C.

Seu pai era o deus Apoio, que o concebeu em sua mãe, Atia. Inscrições referem-se a ele como “filho de Deus”, “senhor” e “salvador”, aquele que trouxe “paz a Terra”.

Depois de sua morte, foi visto ascendendo ao céu para ocupar lugar permanente entre os deuses. Seus sucessores seguiram o costume de ostentar títulos divinos, inclusive Tibério, imperador entre 14 e 37 d.C., que, portanto, reinava durante a época da atividade pública de jesus. Para os súditos judeus, o destile de Pilatos personificava não somente uma ordem social rival, mas também uma teologia rival.

 

Voltemos a narrativa de Jesus entrando em Jerusalém. Ainda que seja familiar, ela tem surpresas. Marcos conta em 11, 1-11, Jesus manda dois discípulos irem ao próximo povoado para pegar um jumento que encontrariam ali, um que nunca fora montado, isto é, um jumento jovem.

Ao leitor atual, tudo isso pode parecer sem importância, mas está cheio de misteriosas alusões. Assim cada detalhe, está presente o tema da realeza com as suas promessas, ou seja: Jesus reivindica o direito régio da requisição de meios de transporte, um direito conhecido em toda a Antiguidade. O próprio fato de tratar-se de um animal que ninguém ainda montara aponta para um direito régio. Mas, sobretudo, há uma alusão as palavras do Antigo Testamento que conferem a todo o sucedido o seu significado mais profundo.

Segundo Zacarias 9, 9, um rei chegaria a Jerusalém (Sião) “humilde e montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de jumenta”, O resto da passagem de Zacarias detalha que tipo de rei ele será (9,10): Esse rei, montado em um jumento, banira a guerra da Terra, não haverá mais carruagens, cavalos ou arcos. Anunciando a paz as nações ele será um rei de paz. Ele não se apoia na violência (zelota), não começa uma insurreição militar contra Roma. O seu poder é de caráter diferente, é na pobreza de Deus, na paz de deus que ele individualiza o único poder salvador.

 

Voltemos ao desenrolar da nossa narração. Trazem o jumentinho a Jesus, e naquele momento acontece algo de inesperado: os discípulos colocam sobre o jumento as suas capas; enquanto Mateus (21,7) e Marco (11,7) ‘se limitam a referir: “E Jesus sentou-se em cima’, Lucas escreve: “fizeram com que Jesus montasse” (19, 35). Essa é a expressão usada no Primeiro Livro dos Reis, quando se narra a subida de Salomão ao trono de seu pai, Davi. Lê-se que o rei Davi ordena ao sacerdote Sadoc, ao profeta Nata e a Banaias: “Tomai convosco os servos do vosso rei, fazei montar na minha mula o meu Filho Salomão e fazei-o descer até Gion. La o sacerdote Sadoc e o profeta Nata o ungirão rei de Israel..." (1,33-34).

próprio fato de estender as capas está ligado a uma tradição na realeza de Israel (2 Rs 9, 13). A ação realizada pelos discípulos é um gesto de entronização na tradição da realeza dravídica e, consequentemente, na esperança messiânica, que se tinha desenvolvido a partir dessa tradição. Os peregrinos que vieram juntos com Jesus a Jerusalém deixam-se contagiar pelo entusiasmo dos discípulos; estendem agora as suas capas na estrada por onde Ele passa. Cortam ramos das arvores e gritam palavras do Salmo 118 - palavras de oração da liturgia dos peregrinos de Israel - que, nos seus lábios, se tomam uma proclamação messiânica: “Hosana! Bendito o que vem em nome Senhor! Bendito o reino que vem do nosso pai Davi! Hosana no mais alto dos céus! (Mc 11,9-10; SI 118,25-26).

Essa aclamação é transmitida pelos quatro evangelistas, embora com variantes especificas de cada um. De tais diferenças, porém, não irrelevantes para a história da transmissão e a visão teológica de cada evangelista, não devemos ocupar-nos neste ponto. Procuremos apenas compreender as linhas essenciais de fundo, até porque a liturgia crista acolheu essa saudação reinterpretando-a a partir da fé pascal da igreja.

 

Vejamos primeiro a exclamação “Hosana! É uma expressão de suplica, como: ‘Ai de nós, ajudai-nos!’ No tempo de Jesus, a palavra assumiu um significado messiânico: a esperança de que chegou a hora do Messias e, ao mesmo tempo, uma suplica para que se realizasse de novo o reino de Davi e, com ele, o reino de Deus sobre Israel. A particular referência a Davi, que só aparece no texto de Marcos, reproduz para nós, talvez na sua forma mais original, a expectativa dos peregrinos de então.

Entrando em Jerusalém, a cidade inteira agitou-se e dizia: ‘Quem é este? A isso as multidões respondiam: ‘Este é o profeta Jesus, o de Nazaré da Galileia”’ (21, 10-11). Do profeta vindo de Nazaré, tinham ouvido falar qualquer coisa, mas parecia não ter relevância para Jerusalém, não era conhecido. A multidão que, na periferia da cidade, prestava homenagem a Jesus não é a mesma que depois havería de pedir a sua crucifixão. Marcos narra que, depois desse acolhimento, Jesus foi ao templo, observou tudo em redor e, como já era tarde, dirigiu-se para Betânia, onde ficaria hospedado durante aquela semana.

 

  1. SEGUNDA-FEIRA: A PURIFICAÇÃO DO TEMPLO (Mc 11,12-19)

Marcos começa a Segunda-feira da última semana de Jesus dizendo que no dia seguinte, no caminho para o tempo, estando com fome, Jesus vê uma figueira e, após não encontrar nenhum figo, lança uma maldição de que ela jamais produzira figos de Povo. Em seguida 11,15-19, vem o incidente que é citado como a “limpeza do templo” ou como a “fúria de Jesus no templo”. Por fim, na terça-feira, Marcos conclui em 20-21 que “Pela manhã, ao passarem junto da figueira, viram que ela secara até a raiz.

 

O que seria esta maldição de Jesus a figueira. Tudo fica mais fácil se interpretarmos a figueira como o sistema do Templo de Jerusalém, que não respondia mais as propostas divinas, com seus sacrifícios, prescrições, festas anuais, e separação de pessoas entre puros e impuros. Esta maldição de Jesus que faz a figueira secar, esta profetizando que Jerusalém será castigada o castigo atingirá toda a nação escolhida por Deus.

Marcos compara o sistema do Templo a figueira com exuberante folhagem verde, mas que não produzia mais frutos era estéril. O Judaísmo da época de Jesus, com o esplendor de Templo, de seus Cultos, com práticas religiosas feitas na perfeição, desejando ardentemente a chegada do Messias está prevendo uma safra superabundante de frutos, que seria o amor a Deus, o fazer sua vontade e abertos a salvação do Messias. Mas o que Jesus encontrou, foi a oposição dura de seus chefes, negando sua doutrina, culminando mais adiante com sua morte. A maldição da figueira feita por Jesus nos fala em uma grande ameaça: Deus não suporta está situação, Ele vai ferir o povo eleito, com uma punição severa, pois seu povo não correspondia mais a seus desígnios, estava estéril.

 

Jesus ao chegar ao Templo de Jerusalém encontrou uma grande quantidade de vendedores de bois carneiros e pombos junto com os cambistas que ali comercializavam estas mercadorias trocavam as moedas estrangeiras pelo shekel (moeda hebreia) permitida para pagar o dízimo. A narrativa fala que Jesus tomou um chicote e expulsou os comerciantes daquele local considerado como sagrado. Este episódio evidência a atitude de Jesus, pela sua agressividade, “demonstrava o zelo pela casa do Senhor"- Este texto menciona a narrativa profética das Sagradas Escrituras antevendo o Messias, dizendo “o zelo por tua casa me consumirá” (Jo 2, 17).

Situação do templo de Jerusalém: O Templo de Jerusalém tinha deixado de ser casa de oração e culto sagrado para se tomar um lugar de comércio, venda de animais e de exploração na troca das moedas. As práticas religiosas realizadas no Templo, os sacrifícios diários, pelos pecados tinham perdido seu caráter místico para se tomarem fonte de peso, de exploração e de descriminação entre ricos e pobres. Nesta situação surgiu um comércio explorador e imoral. A atitude de Jesus sem dúvidas vem resgatar o verdadeiro sentido do espaço que o Templo tinha para a oração e o encontro com Deus junto com os sacrifícios pelo perdão das culpas e pecados.

Atualizando: O episódio de Jesus com os vendilhões do templo nos convida a não nos transformar em fontes exploradoras dos nossos irmãos, excluindo-os de nosso convívio por serem diferentes de nós. O texto nos convida a transformar nossos corações no Templo sagrado, o santuário, o local por excelência do encontro verdadeiro com o Deus vivo e transformador de nossa vida.

O episódio nos interpela a zelar pelas casas do Senhor: uma que está em nosso interior que é o coração humano, centro dos bons sentimentos; a outra, a comunitária, espaço de encontro com o outro e com o sagrado, para que seja templo vivo do Espírito merecedor de respeito e consideração.

Em outras palavras, Marcos quer que os ouvintes e leitores considerem esses dois acontecimentos juntos, de modo que o que aconteceu com a figueira e no templo fossem interpretados mutuamente. Marcos enfatiza dois pontos um tanto contraditórios em relação a figueira. Por um lado, era a semana da Páscoa, o mês era Nissan, ou marco-abril para nós, e jamais poderia haver figos naquela planta. Qualquer pessoa saberia disso. Nas palavras de Marcos “não era época de figos”. Por outro lado, segundo Marcos, Jesus estava com fome, esperava encontrar figos e, por não conseguir, amaldiçoou a arvore com esterilidade permanente.

Marcos nos que dizer que o fracasso da figueira é uma metáfora do fracasso do templo. A moldura da figueira nos alerta que o templo emoldurado não estava sendo limpo, e sim simbolicamente destruído. Que, nos dois casos, o problema era a falta do “fruto” que Jesus esperava ver presente. Mas o que, exatamente, estava errado com o templo?

 

O templo, situado em Jerusalém, era o centro religioso e político de Israel. O que Jesus conheceu era o que Herodes começou a reconstruir no ano 20 a.C., cujas obras duraram mais ou menos até 64 d.C. O esplendor do templo de Herodes era extraordinário. Os portões se achavam recobertos de ouro e prata, exceto a porta de Nicanor, que era de bronze de Corinto e superava em valor as outras portas. Eram também de ouro as pontas de agulha que havia sobre o templo. A fachada do santuário, que media 27 5 m2 era toda recoberta de placas de ouro, assim como a parede e a porta entre o vestíbulo e a primeira câmara do santuário (0 Santo) as placas tinham a espessura de uma moeda Das vigas do vestíbulo pendiam correntes do mesmo metal. Sobre a entrada que levava do vestíbulo a primeira câmara, estendia-se uma vinha de ouro que aumentava continuamente com as doações de sarmentos de duro que os sacerdotes se encarregavam de pendurar. Sobre esta entrada, além de outras oferendas muito valiosas, pendia um espelho de ouro, que refletia os raios do sol nascente doado pela rainha Helena de Adiabene. Na primeira câmara que continha singulares obras de arte, estava o candelabro de sete braços de ouro maciço, de cerca de setenta quilos, e a mesa dos pães da proposição, também de ouro e de maior peso ainda. A segunda Câmara (0 Santíssimo)

era igualmente recoberta de ouro. No templo celebrava-se culto diário, que consistia de dois sacrifícios de animais, o da manhã e o da tarde. Mas os momentos de esplendor do culto eram as grandes festas religiosas judaicas, especialmente as da Páscoa, Pentecostes e Tendas de que todos os judeus, a partir dos treze anos tinham que participar em peregrinação. Nessas ocasiões, Jerusalém, que tinha naquela época de 25 a 30 mil habitantes, via imensamente multiplicada a sua população (A população judaica da Palestina era de cerca de meio milhão de pessoas).

O templo se sustentava graças as contribuições dos judeus de todo o mundo. Todos os maiores de vinte anos, inclusive os que moravam no estrangeiro, que eram muitos, tinham que pagar o imposto anual para o templo equivalente a dois dias de trabalho (Mt 17 ,24). Na Palestina e no estrangeiro, um mês antes da Páscoa, colocavam-se por todo o pais as mesas dos cobradores e, dez dias depois, se instalavam as mesas no templo. Em cada localidade havia pessoas designadas para cobrar o imposto do distrito, embora se pudesse manda-lo diretamente ao templo. Se não se pudesse paga-lo em moeda legitima (sem efígie do imperador), devia ser paga uma taxa adicional de dois por cento para os cambistas.

Para facilitar o transporte do estrangeiro para Jerusalém, permitiam-se trocar as quantias do imposto em moedas de ouro. A entrega se realizava em três ocasiões no ano. O imposto procedente da Palestina, quinze dias antes da festa da Páscoa, Para as comarcas vizinhas, o prazo terminava quinze dias antes da festa de Pentecostes. O imposto das regiões distantes devia ser entregue quinze dias antes da festa das Tendas, que se celebrava em setembro. Para esta última festa acorria a Jerusalém maior número de estrangeiros e, sob sua proteção, podia-se transportar o dinheiro com maior segurança.

O dinheiro do imposto era depositado no templo, nas câmaras do tesouro. Para emprega-lo no culto, era retirado antes de cada uma das três grandes festas. O tesouro recebia, outrossim, a prata do resgate dos primogênitos e dos votos ou promessas, para os quais existia tarifa ou taxa precisa. Para a manutenção dos clérigos havia necessidade de pagar ao tesouro dez por cento dos frutos da terra (Mt 23,23). Além disso, o templo recebia donativos (Mc 7,11) e abundantes esmolas, sobretudo das pessoas ricas (Mc 12,41), e outros dons voluntários, que eram aceitos até quando provenientes de não-judeus. Outros recursos procediam do comércio organizado de animais destinados aos sacrifícios e da troca de moeda estrangeira, considerada impura por trazer a imagem do imperador - pela moeda cunhada no templo (Mc 11,15).

Na reconstrução do templo levada a termo por Herodes, este havia situado a sala do Tesouro junto do chamado pátio das mulheres. Na fachada exterior deste pátio havia treze mealheiros, em forma de funil, onde os fiéis colocavam suas esmolas obrigatórias ou voluntárias. Sete destes mealheiros, onde se lançavam as esmolas obrigatórias, possuíam letreiros em aramaico indicando sua finalidade. Os seis mealheiros restantes traziam a inscrição “A vontade”, especificando a intenção. O dinheiro dos sete primeiros mealheiros era empregado pelos sacerdotes, que ofereciam sacrifícios segundo a quantia arrecadada. O dos seis restantes destinava-se a outros sacrifícios. Outra parte dos fundos custeava diferentes trabalhos de reparação e conservação do templo e da cidade.

Compravam-se também vinho, azeite e farinha, que se vendiam com lucro para o templo, aos particulares que desejassem fazer oferendas. O tesouro do templo funcionava como banco. Nele se depositavam bens de particulares, principalmente da aristocracia de Jerusalém, em especial das altas famílias sacerdotais. Os fundos do templo, unidos a suas propriedades em terrenos e sítios, faziam dele a maior instituição bancaria da época.' Era, por conseguinte, grande empresa econômica, administrada pelos sumos sacerdotes, que não só detinham o poder político e econômico, mas eram ao mesmo tempo potência financeira importante.

A cidade de Jerusalém vivia praticamente do templo, que conseguia grandes lucros, principalmente nas épocas de peregrinação, três vezes ao ano, quando acorriam, além dos judeus da Palestina (Jo 7 ,9-10), peregrinos do estrangeiro (Jo 12,20). Deve ter sido tão grande a riqueza do templo, junto com a das famílias sacerdotais de Jerusalém, que, depois da conquista e da destruição da cidade no ano 70 d.C., o preço do ouro baixou para a metade em toda a província romana da Síria.

 

TERCA-FEIRA

Terça-feira é um dia movimentado, um dia cheio. A narrativa de Marcos sobre os acontecimentos do dia cobre quase três capítulos, 11:27-13:37, una total de 115 versículos. Os outros dias mais longos foram quinta-feira (sessenta versículos) e sexta-feira (47 versículos). Assim terça-feira foi o dia mais longo da história da última semana de jesus contada por Marcos.

Cerca de dois terços da terça-feira consistem em conflito com autoridades do templo e pessoas ligadas a elas. O terço restante (capitulo 13) alerta sobre a destruição de Jerusalém e do templo e fala sobre a vinda do Filho do Homem, tudo isso num futuro próximo.

O dia começa com Jesus e seus seguidores voltando de Betânia, onde haviam passado a noite, para Jerusalém, veem a figueira “seca até a raiz”. Ao chegarem a Jerusalém entram no “templo” - não no santuário em si (que era bastante pequeno), e sim nos grandes pátios e pórticos ao ar livre que ficavam na plataforma do templo. Essa área costumava ser local de ensinamentos e ficava apinhada de peregrinos durante a semana da Páscoa. Todo o trecho de Marcos 11,25 a 12,44 acontece nesse cenário publico.

As autoridades e as pessoas ligadas a elas questionam Jesus com uma série de perguntas destinadas a colocá-lo numa armadilha e desacredita-lo na presença da multidão. Jesus responde de modo igualmente desafiador, algumas vezes voltando as perguntas contra eles, outras acusando-os diretamente. Para usar uma linguagem técnica, essas são histórias de “desafio e resposta”.

 

Questionamento da autoridade de Jesus. Enquanto Jesus andava pelo templo, os sumos sacerdotes, os escribas e os anciãos o questionam imediatamente sobre sua autoridade em 11,27-33. Marcos cita os interrogadores como “os sumos sacerdotes, os anciãos e os escribas” Os dois primeiros grupos estavam no topo do sistema local de colaboração e dominação, e os escribas eram uma classe letrada empregada por eles.

'Perguntam a jesus: “Com que direito fazeis essas coisas?”. A pergunta se refere ao ato profético de jesus no templo na segunda-feira, e o uso do plural “coisas” sugere que a entrada provocativa do domingo na cidade também pode ser incluída. O propósito da pergunta era levar jesus a fazer uma afirmação que pudesse incriminá-lo.

Jesus se livra da pergunta com a proposta de responder se eles primeiro respondessem a sua. Então, fez uma pergunta sobre seu mentor, João Batista. Pergunta se a autoridade para o batismo dele “veio do céu” Isto é, se vinha de Deus ou era “dos homens”. A pergunta coloca as autoridades na defensiva. Elas conferenciam entre si. Qualquer resposta iria desacredita-las. A primeira iria abri-las para a acusação de hipocrisia. A segunda arriscaria colocar o povo contra elas. De fato, como disse Marcos, “eles temiam o povo”. Por não gostarem de nenhuma das duas opções, as autoridades dizem: “Não sabemos”. Na melhor das hipóteses foi uma resposta canhestra

Podemos imaginar a humilhação e os dentes trincados. Então, mantendo sua parte na barganha, Jesus se recusa a responder a pergunta deles. Não somente escapou da armadilha mas fez com que parecessem estúpidos. Foi brilhante.

 

Jesus condena as autoridades contando-lhes a parábola dos vinhateiros homicidas Mc 12,1-12. A alegoria usada por Jesus só se percebe se tivermos em conta o «cântico da vinha», ao lemos Is. 5, e o seu contexto histórico, isto é, a recusa da salvação pelos chefes de Israel, os «agricultores», que matam os profetas. Deus é o dono da vinha e o construtor do edifício, que é Israel. Surpreendentemente, aparece como «estrangeiro» no meio do povo de Israel. Deus não está vinculado às vicissitudes de um povo. Confiou uma tarefa aos responsáveis pela vinha israelita e foi-se embora, porque está noutro lado... Os servos são os numerosos profetas e homens de Deus enviados ao longo da história do povo escolhido. O filho recusado e morto, mas depois tomado pedra angular, é Jesus. A alegoria faz tocar os extremos: o amor de Deus Pai, que envia o seu Filho, e a recusa dos chefes de Israel, que O matam. A volta de Jesus, e do mistério da sua morte e ressurreição, hoje, como no passado, decide-se, para cada um de nós, o acolhimento ou a recusa da salvação. Não há direitos de progenitura, ou de eleição preferencial, que nos valham. O pretenso monopólio dos israelitas sobre a salvação está votado ao fracasso: «O dono regressará e exterminara os vinhateiros e entregará a vinha a outros» (v. 9). O importante é que, no confronto com Jesus e com o seu mistério pascal, nos abramos a Ele, livre e responsavelmente, para sermos salvos. E Deus premiará a nossa coragem.

O confronto seguinte, em 12,13-17, chega ao clímax, com o versículo que talvez seja o mais conhecido da história da terça-feira contada por Marcos: “ Daí, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Alguns fariseus e partidários de Herodes, que se consideravam nacionalistas, mas colaboravam com os romanos, fingindo sinceridade, fazem a Jesus uma pergunta armadilhada. Queriam embaraçá-lo, tomando-o malvisto pelas autoridades romanas ou pela multidão. Jesus evita a armadilha, e aproveita a ocasião para oferecer um importante critério para a vida cristã: «Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (v. 17). Deus e César não se opõem, nem se colocam ao mesmo nível. O primado de Deus não retira ao Estado os seus direitos. O cristão deve obedecer a Deus, mas também aos homens. Em qualquer caso, obedece por causa de Deus e não por causa dos homens, porque toda a autoridade humana tem as suas raízes no Eterno. Este princípio está na origem da liberdade de consciência, afasta da idolatria do poder, leva a acolher a soberania da Igreja, mas também a do Estado.

Esta mensagem de liberdade surpreende os adversários de Jesus: «Ficaram admirados com Ele» (v. 17b). A opção a fazer não é entre Deus e César, mas entre Deus e todo o movimento humano, ainda que chamado libertador, ainda que seja o dos zelotas. Os movimentos libertadores, mais tarde ou mais cedo, pretendem tomar-se absolutos. É por isso que o profeta mantém a devida distância, em relação a eles.

Mas o que é de Deus e o que é de César? Para Jesus e seus contemporâneos, tudo pertence a Deus. Isso era confirmado pelas escrituras sagradas. A terra de Israel pertence a Deus - lembre-se de Levítico 25,23, que diz que todos os arrendatários ou moradores estrangeiros a terra que pertence a Deus. Para usar a linguagem da terça-feira, a vinha pertence a Deus, e aos colaboradores locais, não a Roma. De fato, toda a terra pertence a Deus: “Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém. ” (Salmos 2411) O que pertence a César? A implicação é: nada.

Deus dos mortos ou dos vivos? Mc 12,18-27. O ambiente é tenso. Algum tempo antes, Jesus expulsara os vendilhões do Templo (cf. Mc 11,15-18), acusando os líderes judaicos de terem feito da "casa de Deus um covil de ladrões"; logo em seguida, contara a parábola dos vinhateiros homicidas (cf. Mc 12,1-12), acusando os dirigentes de se oporem, de forma continuada, à realização do plano salvador de Deus e os líderes judaicos, convencidos de que Jesus era irrecuperável, tinham tomado decisões drásticas: Ele devia ser preso, julgado, condenado e eliminado. Fariseus, Herodianos (cf. Mc 12,13) e até saduceus (cf. Mc 12,18), procuram estender armadilhas a Jesus, a fim de o surpreender em afirmações pouco ortodoxas, que pudessem ser usadas em tribunal para conseguir uma condenação. As controvérsias sobre o tributo a César (cf. Mc 12,13-17) e sobre a ressurreição dos mortos (cf. Mc 12,18-27) devem ser situadas e compreendidas neste contexto.

Neste ambiente, aparece um escriba a perguntar a Jesus qual era o maior mandamento da Lei. Ao contrário de Mateus (cf. Mt 22,34-40), Marcos não considera, contudo, que a questão seja posta a Jesus para o embaraçar ou pôr à prova. O escriba que coloca a questão parece ser um homem sincero e bem- intencionado, genuinamente preocupado em estabelecer a hierarquia correta dos mandamentos da Lei. De facto, a questão do maior mandamento da Lei não era uma questão pacífica e tomou-se, no tempo de íesus, objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. A preocupação em atualizar a rei, de forma a que ela respondesse a todas as questões que a vida do dia a dia punha, tinha levado os doutores da Lei a deduzir um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 ações a pôr :m prática. Esta "multiplicação" dos preceitos legais lançava, evidentemente, a questão das prioridades: o dos os preceitos têm a mesma importância, ou há algum que é mais importante do que os outros? É esta a questão que é posta a Jesus.

morte e ressurreição, hoje, como no passado, decide-se, para cada um de nós, o acolhimento ou a recusa da salvação. Não há direitos de progenitura, ou de eleição preferencial, que nos valham. O pretenso monopólio dos israelitas sobre a salvação está votado ao fracasso: «O dono regressará e exterminará os vinhateiros e entregará a vinha a outros» (v. 9). O importante é que, no confronto com Jesus e com o seu mistério pascal, nos abramos a Ele, livre e responsavelmente, para sermos salvos. E Deus premiará a nossa coragem.

O confronto seguinte, em 12,13-17, chega ao clímax, com o versículo que talvez seja o mais conhecido da história da terça-feira contada por Marcos: “ Daí, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Alguns fariseus e partidários de Herodes, que se consideravam nacionalistas, mas colaboravam com os romanos, fingindo sinceridade, fazem a Jesus uma pergunta armadilhada. Queriam embaraçá-lo, tomando-o malvisto pelas autoridades romanas ou pela multidão. Jesus evita a armadilha, e aproveita a ocasião para oferecer um importante critério para a vida cristã: «Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (v. 17). Deus e César não se opõem, nem se colocam ao mesmo nível. O primado de Deus não retira ao Estado os seus direitos. O cristão deve obedecer a Deus, mas também aos homens. Em qualquer caso, obedece por causa de Deus e não por causa dos homens, porque toda a autoridade humana tem as suas raízes no Eterno. Este princípio está na origem da liberdade de consciência, afasta da idolatria do poder, leva a acolher a soberania da Igreja, mas também a do Estado.

Esta mensagem de liberdade surpreende os adversários de Jesus: «Ficaram admirados com Ele» (v. 17b). A opção a fazer não é entre Deus e César, mas entre Deus e todo o movimento humano, ainda que chamado libertador, ainda que seja o dos zelotas. Os movimentos libertadores, mais tarde ou mais cedo, pretendem tomar-se absolutos. É por isso que o profeta mantém a devida distância, em relação a eles.

Mas o que é de Deus e o que é de César? Para Jesus e seus contemporâneos, tudo pertence a Deus. Isso era confirmado pelas escrituras sagradas. A terra de Israel pertence a Deus - lembre-se de Levítico 25,23, que diz que todos os arrendatários ou moradores estrangeiros a terra que pertence a Deus. Para usar a linguagem da terça-feira, a vinha pertence a Deus, e aos colaboradores locais, não a Roma. De fato, toda a terra pertence a Deus: “Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém. ” (Salmos 2411) O que pertence a César? A implicação é: nada.

Deus dos mortos ou dos vivos? Mc 12,18-27. O ambiente é tenso. Algum tempo antes, Jesus expulsara os vendilhões do Templo (cf. Mc 11,15-18), acusando os líderes judaicos de terem feito da "casa de Deus um covil de ladrões"; logo em seguida, contara a parábola dos vinhateiros homicidas (cf. Mc 12,1-12), acusando os dirigentes de se oporem, de forma continuada, à realização do plano salvador de Deus e os líderes judaicos, convencidos de que Jesus era irrecuperável, tinham tomado decisões drásticas: Ele devia ser preso, julgado, condenado e eliminado. Fariseus, Herodianos (cf. Mc 12,13) e até saduceus (cf. Mc 12,18), procuram estender armadilhas a Jesus, a fim de o surpreender em afirmações pouco ortodoxas, que pudessem ser usadas em tribunal para conseguir uma condenação. As controvérsias sobre o tributo a César (cf. Mc 12,13-17) e sobre a ressurreição dos mortos (cf. Mc 12,18-27) devem ser situadas e compreendidas neste contexto.

Neste ambiente, aparece um escriba a perguntar a Jesus qual era o maior mandamento da Lei. Ao contrário de Mateus (cf. Mt 22,34-40), Marcos não considera, contudo, que a questão seja posta a Jesus para o embaraçar ou pôr à prova. O escriba que coloca a questão parece ser um homem sincero e bem- intencionado, genuinamente preocupado em estabelecer a hierarquia correta dos mandamentos da Lei. De facto, a questão do maior mandamento da Lei não era uma questão pacífica e tomou-se, no tempo de Jesus, objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. A preocupação em atualizar a Lei, de forma a que ela respondesse a todas as questões que a vida do dia a dia punha, tinha levado os doutores da Lei a deduzir um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 ações a pôr em prática. Esta "multiplicação" dos preceitos legais lançava, evidentemente, a questão das prioridades: todos os preceitos têm a mesma importância, ou há algum que é mais importante do que os outros? É esta a questão que é posta a Jesus.

0 tema do conflito é retomado nesses versículos. Até aqui os interrogadores de Jesus o questionaram sobre sua autoridade, sobre impostos a Cesar, ressurreição e o maior dos mandamentos. A partir daí ele toma a iniciativa. Ainda no templo ele questiona os ensinamentos dos escribas. Pergunta: “Como dizem os escribas que o Messias é filho de Davi?” Então, citando a tradição Judaica de que o rei Davi escreveu os salmos, cita o salmo 110,1 “O mesmo Davi, inspirado pelo Espírito Santo declarou: ‘Disse o Senhor ao meu Senhor: Sentai-vos a minha direita até que eu ponha os vossos inimigos sob os vossos pés o próprio Davi o chama Senhor; portanto como pode ser filho dele?”. No cenário original do livro dos Salmos, o primeiro uso da palavra “Senhor” se refere a Deus e o segundo ao rei de Israel. Deus diz ao rei. “Sentai-vos a minha direita até que eu ponha os vossos inimigos sob os vossos pês. Durante a monarquia o salmo era usado na coroação ou na entronização de um rei. Ele prometia a ajuda Deus para o rei derrotar seus inimigos.

Mas no século T esse salmo era compreendido como um salmo messiânico, de modo que o segundo uso da palavra “Senhor” passou a ser entendido como referência ao Messias. Daí o comentário de conclusão e a pergunta: “O próprio Davi o chama de Senhor; portanto, como pode ser filho dele?” A pergunta questiona o ensinamento dos escribas sobre o Messias ser o filho de Davi. Mas que isso significa? O que “filho de Davi” significa aqui?

Uma possibilidade é que se trate de ancestralidade biológica. Nesse caso, isso parece negar que o Messias descenda de Davi, assim implicando que Jesus (que, claro, é o Messias, segundo Marcos) não é descendente de Davi. Mas isso parece improvável. Ainda que Marcos não nos conte sobre a ascendência de Jesus, a tradição de que Jesus descendia de Davi é antiga. Paulo se refere a ela (Romanos 1,3), assim como as histórias do nascimento de Jesus e as genealogias em Mateus e Lucas que são independentes uma da outra. Outra possibilidade é que “filho de Davi” seja aqui uma categoria messiânica, e não biológica. Alguns com temporâneos de Jesus esperavam que o Messias fosse “filho de Davi”, que fosse um rei como Davi - um guerreiro que governou Israel na época de seu maior poder e gloria. Isso parece mais provável. A mensagem aqui, então, é que o Messias não será um rei como Davi, não “filho de Davi” nesse sentido. E sim que o Messias será o rei do tipo simbolizado pela entrada de Jesus em Jerusalém no início de sua última semana. No entanto “filho de Davi” não é uma categoria totalmente negativa em Marcos. Ela é usada sem repudio em duas histórias anteriores. Em Jerico, enquanto Jesus se aproxima de Jerusalém, o mendigo cego Bartimeu o chama duas vezes: “Jesus, filho de Davi, tenha compaixão de mim” (10,47). Na história da entrada de Jesus em Jerusalém, os que dão as boas-vindas a Jesus gritam: “Bendito o reino do nosso ancestral Davi!” (11,10). Em nenhuma das duas histórias Marcos indica que essa linguagem seja inadequada. E mesmo antes, em Marcos, Jesus se refere a um ato de Davi para Justificar o comportamento de seus discípulos (2:23-26). Assim parece que a expressão “filho de Davi” não é tanto errada quanto inadequada. O ponto, na verdade, é que o Messias é o Senhor de Davi- isto é, maior do que Davi, mais do que Davi, diferente de Davi. De modo que também o reino do qual jesus fala é maior do que o de Davi, mais do que o de Davi, diferente do de Davi.

Nenhum escriba respondeu à pergunta, em forma de charada, feita por Jesus. Mas o povo adorou: “E a multidão o ouvia maravilhada. ” Então Jesus condena a pratica presunçosa dos escribas: eles gostavam de usar mantos compridos, esperavam o reconhecimento de seu status em locais públicos e faziam longas orações só para manter a aparência. E, no entanto, “eles devoram os bens das viúvas” (12:40). Durante toda a Bíblia hebraica, as viúvas (junto com os órfãos) são objetos especiais da compaixão de Deus, já que, sem um homem para lhes prover, eram as pessoas mais vulneráveis. O modo como eram tratadas servia como medida da justiça ou da injustiça de uma sociedade.

Como os escribas devoravam os bens das Viúvas? Provavelmente é uma referência a atividade dos escribas, uma classe letrada que trabalhava para os ricos; eles administravam os contratos de empréstimos e depois tomavam as propriedades das viúvas impossibilitadas de pagar as dívidas. A condenação aos escribas pelo modo como tratavam as viúvas é seguida imediatamente pela história de uma pobre viúva que coloca no cofre de esmolas do templo “tudo que tinha” (duas pequenas moedas de cobre) jesus compara a doação dela a dos ricos. Mesmo que eles pusessem grandes quantias de dinheiro, fariam isso “a partir de sua abundância” A viúva, devido a pobreza, “pôs tudo que tinha, tudo que tinha para seu sustento” (12:44). Essa passagem geralmente é compreendida como um contraste entre a profunda devoção da pobre viúva e a demonstração publica de generosidade dos ricos. Como tal, ela (e não os ricos) é uma imagem positiva do que e ser discípulo, ela deu tudo que tinha. Uma interpretação alternativa considera a passagem como uma condenação ao modo como os pobres são manipulados a dar tudo que tem para sustentar o templo. Ela não condena a viúva, e sim o sistema que a leva a agir desse modo. Em qualquer das duas interpretações, a passagem critica os ricos.

A destruição do templo e a volta de Jesus Mc 13,1-4 Jesus e seus discípulos saem do templo, em 13:1. Fora da plataforma eles podiam ver as enormes pedras usadas na construção dos muros. Um dos discípulos exclama, falando sobre o tamanho gigantesco: “Mestre, olha que pedras grandes e que construções”. A exclamação é digna de crédito. Escavações arqueológicas confirmaram que as pedras usadas na construção dos muros do templo eram gigantescas. A maior encontrada até hoje tem doze metros de comprimento, três de altura e 4,3 metros de largura, com um peso estimado de quinhentas toneladas. Podemos imaginar que o templo era realmente indestrutível.

Mas jesus responde: “Vês este edifício? ” E diz: “não se deixara pedra sobre pedra, tudo será derrubado” (13:2). A exemplo do profeta Jeremias cerca de seis séculos antes, Jesus fala da destruição do templo. A destruição também incluiría Jerusalém, claro. Num sentido importante, essa passagem é o clímax da série de conflitos entre Jesus e o sistema de dominação e de colaboração centrado no templo. O julgamento contra o que o templo havia se tomado, pronunciado pelo ato profético de jesus no templo na segunda-feira, é articulado neste trecho explicitamente. E é importante nos lembrarmos que o julgamento contra o templo não é contra o judaísmo ou contra o ritual, e sim contra o lugar como “um covil de ladrões”

Os dois versículos seguintes, 13,3-4, são uma transição para o resto do capitulo (1325-37). O cenário muda do templo para o monte das Oliveiras. Presumivelmente, Jesus e seus discípulos estão a caminho de Betânia, a leste de Jerusalém, onde passarão a noite (14:3). No entanto, o templo continua a vista. Do monte das Oliveiras há uma visão panorâmica de Jerusalém com o monte do templo no primeiro plano. Ali alguns discípulos perguntam a Jesus “Quando hão de suceder essas coisas? E por que se saberá que tudo isso vai se realizar?” O uso do singular na primeira metade da pergunta: “Quando hão de suceder” refere-se a destruição do templo, e o uso do plural na segunda metade “essas coisas” - refere-se antecipadamente ao resto do capitulo.

O pequeno apocalipse Mc 135-37. Estes versículos são comumente chamado de “pequeno apocalipse". O “grande apocalipse” palavra esta que significa “revelação” ou “desvelamento” - é uma espécie de literatura judaica e cristã que revela ou desvela o futuro em linguagem carregada de imagens e símbolos. A literatura apocalíptica fala de um tempo de grande sofrimento seguido pela libertação divina.

O pequeno apocalipse assume a forma de um longo discurso feito por Jesus, na verdade o mais longo do Evangelho de Marcos. Dentre os acontecimentos que ele prevê estão: Falsos messias e falsos profetas; Guerras e rumores de guerras; Terremotos e fome; Perseguição por parte das autoridades: conselhos, sinagogas, governadores e reis; Um “sacrilégio desolador” onde não deveria haver; Um tempo de sofrimento maior do que jamais houve; Desordem cósmica o sol escuro, a lua sem luz, astros caindo do céu; O Filho do Homem vindo em nuvens com grande poder e gloria; e seus anjos reunindo os eleitos dos quatro cantos da Terra. Dentre os alertas específicos estão: Cuidado para ninguém os desencaminhar; fujam para as montanhas.; fiquem alertas; vigiem; mantenham-se acordados.

No centro do pequeno apocalipse está um acontecimento descrito como “o sacrilégio desolador onde não deve estar”, seguido por uma observação ao leitor, a única observação desse tipo em Marcos: “O leitor, entenda” (13 :14). A descrição se utiliza da linguagem de um apocalipse judaico anterior, a segunda metade do livro de Daniel, na qual e abordada a tomada e a profanação do templo pelo imperador gentio Antíoco Epifane, dois séculos antes.

O capitulo 13 usa essa linguagem para falar de um acontecimento contemporâneo a Marcos, ou seja: a conquista e a destruição de Jerusalém e do templo por Roma no ano 70 d.C. No clímax de sua conquista, as tropas romanas ofereceram um sacrifício ao imperador romano no templo. Daí segue-se os alertas no capitulo -guerras e rumores de guerra, nação erguendo-se contra nação e reino contra reino, falsos messias e falsos profetas, perseguição e sofrimento estão associados a guerra que levou a destruição de Jerusalém e do templo. A guerra começou no ano 66 d.C., quando irrompeu a maior revolta judaica contra o domínio romano.

Os que lutavam pela liberdade dos Judeus tiveram sucesso por um tempo. Jerusalém, o centro da colaboração local, tinha se tomado centro de violenta resistência a Roma. Roma demorou quatro anos para reconquistar Jerusalém, e mais três ou quatro para eliminar o que sobrava da resistência judaica em Massada. Todo o período foi um tempo de grande sofrimento para os judeus, inclusive para os cristãos judeus. Em áreas da pátria judaica e em países próximos cuja população judaica era significativa, os gentios perseguiam e algumas vezes massacravam judeus. As lutas entre as facções rebeldes judaicas aumentavam a carnificina. Um grande número de judeus foi morto pelos romanos durante a reconquista da terra, talvez uma percentagem tão grande quanto a que pereceu sob o domínio de Hitler.

Essas correlações entre Marcos 13 e a grande guerra são o principal motivo para datar Marcos por Volta do ano 70 d.C., seja pouco antes da destruição do templo ou pouco depois. As chamas da grande guerra lançam sombras sobre Marcos ao mesmo tempo que o iluminam.

Marcos se dirige a sua comunidade nessas circunstâncias. Claro, ele está se dirigindo a comunidade através de seu evangelho, mas especialmente no capitulo 13. Ainda que sua comunidade estivesse geograficamente a alguma distância de Jerusalém, mais provavelmente ao norte da Galileia, ela foi muito afetada pela guerra. A parte norte da pátria dos judeus foi reconquistada pelos romanos no início da guerra. No entanto, as perseguições e os massacres de judeus pelos gentios em áreas locais continuou.

Além disso, o compromisso central da comunidade de Marcos intensificava a dificuldade. Como seguidores de Jesus, eles faziam parte de um movimento anti-imperial e ao mesmo tempo estavam comprometidos com a não violência. A mensagem central de jesus era o “reino de Deus”, que os colocava em oposição ao sistema de dominação imperial. E, no entanto, ao seguir Jesus, eles também estavam comprometidos com a não violência, o que os separava do movimento de resistência.

Os judeus (inclusive os cristãos judeus) estavam sofrendo pressão para se juntar a guerra contra Roma. Pessoas consideradas colaboradores eram mortas pelos rebeldes, e as consideradas rebeldes eram assassinadas pelos romanos não pertencer a uma “classe” nem outra tomava a pessoa suspeita nos dois campos. E assim Marcos 13 alerta os seguidores de jesus para a perseguição.

O alerta do “sacrilégio desolador onde não deveria estar” é seguido por uma série de imperativos: Os que estiverem na Judeia devem fugir para as montanhas. Quem estiver em cima de casa não deve descer nem entrar na casa para pegar nada. Quem estiver no campo não deve voltar para pegar um agasalho. Nesse cenário, o conselho era fugir rapidamente da invasão. O objetivo era não se tomar parte da violência, não participar da batalha por Jerusalém. Os imperativos são coerentes com a não violência de Jesus e dos primeiros cristãos. Importante: essa não era uma não violência como afastamento passivo do mundo, não era a da não violência como resistência ao mal. Aqueles oprimem os cristãos eram anti-imperiais e não violentos.

Mas o sacrilégio desolador - a devastação do templo não é a última palavra nesse capitulo. Pois Jesus também falou da “vinda do Filho do Homem A passagem começa com um indicador de tempo: “Mas naqueles dias, depois desse sofrimento”, isto e, depois da grande guerra: “O sol escurecera e a lua não dara sua luz, os astros cairão do céu, e os poderes do céu serão abalados. Então eles verão ‘o Filho do Homem’ chegar em nuvens com grande poder e gloria. Ele enviara os anjos e recolhera seus eleitos dos quatro ventos, desde os confins da terra até os confins do céu”. (13,24-27) De novo, é usada a linguagem da parte apocalíptica de Daniel: “O Filho do Homem vinha com as nuvens do céu” (7‘ 13). Ali a linguagem se refere a uma figura parecida com um ser humano que vai a Deus e a quem Deus dá um reino eterno. Mas em Marcos 13, “Filho do Homem” se refere a um indivíduo (“ele”) que chega “com as nuvens” vindo de Deus. É quase certo que Marcos queira dizer que Jesus é “o Filho do Homem, que vira “com as nuvens, com grande poder e glória”. Para usar uma linguagem crista posterior, isso parece ser um “Segundo advento” citado por jesus.

Marcos esperava isso para breve. Depois da passagem sobre a vinda do Filho do Homem, informa que jesus disse: “Quando virdes essas coisas acontecendo, sabeis que ele [presumivelmente o Filho do Homem] está perto, junto aos portões. Em verdade vos digo: está geração não passara sem que tudo isso aconteça” (13,29- 30).

Como alguns outros primeiros cristãos, inclusive Paulo e os autores de Mateus e da Revelação, Marcos esperava a segunda vinda de Cristo para breve. “Tudo isso”, ecoando a pergunta dos discípulos logo antes do pequeno apocalipse (1324), acontecera antes que “esta geração” tenha passado.

Assim, o evangelho de Marcos tem uma escatologia apocalíptica, uma expressão técnica que se refere a expectativa de uma intervenção divina dramatica e decisiva num futuro próximo, uma intervenção tão publica que até os não crentes terão de concordar que ela aconteceu. Saber se esse tipo de escatologia remonta ao próprio Jesus é uma questão separada não achamos que remonte. Nós a vemos mais provavelmente como uma criação pôs-Pascoa do movimento cristão inicial.

Segundo nossa avaliação, o evangelho de Marcos expressa uma intensificação da expectativa apocalíptica provocada pela grande guerra. Mas, de novo, nosso foco neste livro é o modo como Marcos conta a história de Jesus, e não a reconstrução histórica de Jesus.

Segundo o ponto de vista da história, a expectativa de Marcos quanto a vinda iminente do Filho do Homem o retomo de jesus _ estava errada. Para dizer o obvio, ela não aconteceu. Mas por trás do Calendário de Marcos podemos perceber um sindicado mais profundo em sua convicção apocalíptica. Ou seja, o que começou em Jesus ira triunfar, a despeito do tumulto e da resistência deste mundo.

Segundo esse ponto de vista _ de confiança e esperança duradoura _ quem pode dizer que a convicção de Marcos estava errada? A luta continua. Muitos de nós não têm a mesma confiança na intervenção divina. Mas podemos compartilhar a mesma paixão e esperança.

A terça-feira foi o dia mais longo. Agora é noite no monte das Oliveiras. A escuridão está chegando, uma escuridão que irá se aprofundar à medida que a semana for se desenrolando. E enquanto a escuridão baixa, Marcos recomenda: “Ficai alertas! Vigai!”

 

Quarta-feira Mc 14,1-11

Depois de uma terça-feira movimentada Jesus escolheu passar a quarta-feira descansando, de modo que ele e os demais discípulos permanecem na casa de Lazaro. Faz cinco dias que os discípulos chegaram a Betânia e três desde que Jesus entrou em Jerusalém montado no jumento. Mas ele ainda não anunciou publicamente que é o Cristo nem fez nada que pudesse levar a uma insurreição contra Roma Entretanto enfureceu os líderes religiosos, o que colocou um alvo tanto em suas costas quanto na dos seus discípulos. “Eles os entregarão para serem perseguidos e condenados a morte, e vocês serão odiados por todas as nações por minha causa”, previu Jesus no dia anterior, quando estavam todos sentados juntos no topo do Monte das Oliveiras. Se simplesmente Jesus admitisse ser o Cristo, ele triunfaria sobre os romanos. As autoridades religiosas estariam dispostas a se aliar a ele se isso acontecesse. Não havería mais motivo para falar de morte e execução.

A noite Jesus e os discípulos estavam jantando na casa de um homem conhecido como Simão, o leproso. O grupo repousava nas almofadas ao redor da mesa de jantar, apanhando bocados de comida dos pratospequenos com a mão direita. Como já havia ocorrido tantas vezes, uma mulher se aproximou de Jesus para ungi-lo com óleo perfumado. Era Maria, irmã de Lazaro, que partiu o gargalo grosso do frasco e derramou o unguento de nardo, um perfume exótico importado da índia, sobre a cabeça de Jesus como se estivesse ungindo um rei. Cristo significa “rei ungido” por isso a mulher entendeu que esta fosse a forma adequada para prestar louvor ao Senhor.

Marcos registra que faltavam dois dias para a Páscoa, ou seja, Jesus estava prestes a ser preso e crucificado. Sabemos que em face de no sábado não se poder realizar sepultamentos, o corpo de Jesus foi sepultado sem a unção que se costumava fazer. Por isso as mulheres foram no domingo bem cedo ao local do túmulo na esperança de ungir o corpo de Jesus (cf. Mc 16.1). Jesus recebeu a unção com nardo puro como legítima e como a preparação para o seu sepultamento (Mc 14.8).

Maria não foi compreendida por diversas pessoas que estavam presentes. Judas expressou sua indignação diante de tamanho desperdício de dinheiro. Ele podería ser vendido por mais de trezentos denários, e o dinheiro podería ser dado aos pobres. Na Páscoa em especial é uma época em que é costume dar dinheiro aos pobres. Dessa vez, ele não estava sozinho: outros discípulos concordaram com ele, até Jesus colocar um ponto final na discussão. - Por que vocês estão perturbando essa mulher? - retruca Jesus. - Ela praticou uma boa ação para comigo. Pois os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim vocês nem sempre terrão. Quando derramou este perfume sobre o meu corpo, ela o fez a fim de me preparar para o sepultamento. Novamente, as palavras de Jesus são desconcertantes. Ele se permitiu ser ungido como o Cristo e ao mesmo tempo previu sua morte e com isso faz uma crítica implacável aos Doze.

Apenas ela, dentre todos que tinham ouvido os três relatos da paixão de Jesus (Mc 8,34; 9,30; 10,32), acreditou nele e tirou uma conclusão óbvia: Como ele ia morrer e ressuscitar; devo ungi-lo antes, porque nunca terei a chance de fazer isso depois”. Para Marcos ela foi a primeira crente. Ela representa as pessoas que reconhecem a Jesus como o Rei Ungido, o Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19.16). Para nos ela foi a primeira Crista. E ela acreditou na palavra de Jesus antes da descoberta de qualquer tumba vazia.

A motivação de judas. Marcos não fomece absolutamente qualquer sugestão do motivo de judas trair Jesus. Simplesmente registra, junto com a seguinte reação dos sumos sacerdotes: “Quando eles ouviram, ficaram muito satisfeitos e prometeram lhe dar dinheiro” (14,11) Marcos, não diz que judas fez isso por dinheiro, simplesmente relata que eles tinham prometido lhe dar.

Mas a ênfase de Marcos não estava na motivação de judas, qualquer que tenha sido ela, e sim no fato de judas ter feito parte dos Doze. Note como ele usa isso quase como um título a cada menção ajudas depois de 3,19; (14,10,43). Ele sempre diz “judas, um dos Doze” só para o caso de termos nos esquecidos. A identidade de judas entre os Doze, e não o motivo para judas trair jesus, é a ênfase em Marcos. Sua traição foi simplesmente o pior exemplo de como os mais próximos a Jesus fracassaram lamentavelmente em Jerusalém. O traidor entrou em acordo com os que colaboravam com o domínio imperial. Assim terminou a quarta-feira e a trama foi posta em movimento.

 

Quinta-feira 14,12-25. A Quinta-feira Santa é repleta de acontecimentos dramáticos. A noite Jesus tem uma última ceia com seus seguidores e reza em Getsemani para ser poupado; e traído por Judas, negado por Pedro e abandonado pelo resto dos discípulos. Preso na escuridão, é interrogado e condenado a morte pelo sumo sacerdote e seu conselho que colaboram com a autoridade imperial. Tudo isso acontece antes do amanhecer da sexta-feira. E como estamos seguindo os indicadores temporais da narrativa de Marcos, nosso tratamento da sexta-feira no próximo capitulo começará “ao amanhecer”, quando Jesus é transferido da custodia das autoridades do templo para o governador imperial.

A abertura da quinta-feira em Marcos é a preparação para a ceia da páscoa que ocorrería a noite (14,12-16). Jesus enviou dois de seus discípulos a cidade onde serão encontrados por um “homem carregando um jarro d’agua” Eles devem questiona-lo e segui-lo até uma sala onde o “Mestre” pudesse comer a ceia de Páscoacom seus discípulos. Os discípulos seguem as instruções de Jesus, encontram a sala e fazem ali os preparativos para a Pascoa.

Os detalhes dessa passagem lembram os preparativos para a entrada de Jesus na cidade no Domingo de Ramos. Nos dois casos Jesus manda dois discípulos, diz o que devem procurar e os instrui quanto ao que dizer. No primeiro caso, o pre-planejamento era para uma manifestação pública, uma entrada anti-imperial afirmando a não violência que se contrapunha a entrada triunfal do poder imperial baseado na violência, ou seja, de Pilatos, para o controle da multidão na Pascoa.

No segundo caso o pre-planejamento tem de ser feito em segredo. A abertura da quinta-feira segue o versículo que anuncia que judas “começou a procurar uma oportunidade de entrega-lo” (14,11). Ao informar que jesus mandou dois discípulos fazerem os arranjos clandestinos para a ceia de Pascoa, Marcos faz jesus esconder de judas sua localização exata, de modo que Judas não possa contar as autoridades onde encontra-lo durante a ceia. Essa ceia - que chamaremos de Nova Pascoa - é importante, e Judas não deve ter tido permissão de interferir nela.

Pelo modo como Marcos conta a história, Jesus sabe o que acontecera. Não precisamos atribuir isso a um conhecimento sobrenatural jesus devia saber que o laço estava se apertando, que a cruz estava se aproximando. Ele não podia deixar de notar o tom hostil das autoridades, e pode ter considerado sua prisão e execução como inevitáveis -- não por causa de uma necessidade divina, e sim pelo que via acontecer ao redor.

A última ceia: uma teia de significados Mc 14,17-25. No fim da tarde, Jesus e todos os doze discípulos, inclusive judas, vão ao salão do segundo andar onde os arranjos tinham sido feitos. Ha três elementos principais na história da Ultima Ceia contada por Marcos: eles comem juntos a refeição de Pascoa; Jesus fala de sua traição iminente; então ele emprega significados associados à sua morte iminente ao pão e ao vinho.

Começamos com o elemento do meio: a revelação de Jesus de que sabia que seria traído. Enquanto estão comendo, Jesus diz: “Em verdade vos digo, um de vos me traireis, um que está comendo comigo (...) um dos doze (...) pois o Filho do Homem vai, como está escrito, mas aí daquele por quem o Filho do Homem é traído! Melhor seria que não tivesse nascido” (14,18-21). De fato, antes que a noite termine, Jesus não somente será traído por Judas, mas negado por Pedro e abandonado pelos outros. O tema do fracasso dos discípulos continua no centro; mais da metade da narrativa de Marcos sobre o fim da tarde e à noite é dedicada a ele (33 dos versículos: 14,18-21,27-45,50-52,66-72).

No decorrer da ceia de Pascoa, Jesus compartilha um pão e um cálice de vinho com seus discípulos e fala as palavras frequentemente chamadas de “palavras de instituição”, que se tomaram o cerne da Eucaristia Crista: “Ele pegou um pedaço de pão, e depois de abençoa-lo partiu-o e deu a eles, e disse: ‘Tomai, este é o meu corpo. Em seguida, pegou um cálice e, depois de dar graças, entrega-o a eles e disse: ‘Este o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos”. Esta última refeição que Jesus compartilha com os discípulos tem múltiplas ressonâncias de significado. Vamos enfatizar quatro de seus ricos significados.

Ia- Uma continuação da prática de refeições de Jesus. Segundo os evangelhos, inclusive o de Marcos, compartilhar as refeições era uma das características mais distintas da atividade pública de Jesus. Ele costumava ensinar durante as refeições, banquetes eram assuntos de suas parábolas, e sua pratica de refeições costumava ser criticada pelos opositores. Escribas e fariseus perguntam agressivamente: “Por que ele come com coletores de impostos e pecadores? ” (Marcos, 2,16; ver também Mateus, 11,19; Lucas 7,34; 15,1-2) A questão é que Jesus come com “indesejáveis”, marginalizados e parias, em uma sociedade em que as pessoas com quem se compartilhava uma refeição eram tremendamente significativas. A pratica de refeições adotada por Jesus tinha a ver com a inclusão em uma sociedade que possuía nítidas fronteirassociais. Isso tinha significado político e religioso: religioso porque era feito em nome do reino de Deus; político porque afirmava uma visão muito diferente da sociedade.

Mas as refeições não estão relacionadas apenas a inclusão. Também tem a ver, e de modo crucial, com comida. As refeições de jesus não eram refeições rituais em que a comida possuía apenas significado simbólico. Eram refeições de verdade, não uma mordidinha e um gole como em nossa observação da Eucaristia. Para jesus, a comida de verdade o pão tinha importância. Em seus ensinamentos, o “pão” simbolizava a base material da existência, como na Oração do Senhor ou “Pai Nosso” Imediatamente depois do pedido “Venha a nós o vosso reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na terra Como no céu” vem “O pão nosso de cada dia nos daí hoje” Para a platéia camponesa de jesus, o pão comida suficiente para o dia _ era uma das duas questões centrais de sobrevivência (a outra era a dívida). A Última Ceia continua e culmina com a ênfase de Jesus nas refeições e na comida como justiça de Deus.

Um eco da alimentação dos cinco mil

Marcos quando narra o que Jesus fez na Última Ceia, usa quatro verbos: pegou, abençoou, partiu e deu. Essas quatro palavras-chave nos remetem a uma cena anterior que continha comida, em Marcos, quando Jesus alimenta cinco mil pessoas com alguns pães e peixes. “Pegando os Cinco pães e os dois peixes, Jesus olhou para o céu, abençoou e partiu os pães, e os deu aos discípulos para colocar diante do povo; e dividiu os dois peixes entre todos eles” (6,41). Por que essa referência cruzada com a Última Ceia e a refeição de pães e peixes?

A história de Marcos sobre a multiplicação dos pães e peixes começa estabelecendo duas soluções divergentes para uma situação de fome. Pessoas (cinco mil, segundo Marcos) ouviram Jesus durante todo o dia em um local deserto. Agora é tarde, elas estão com fome. A solução dada pelos discípulos é bastante razoável. “Mande-as embora para que possam ir ao campo e aos povoados ao redor, comprar algo para comerem” (6,36). A solução alternativa de Jesus parece impossível “Dai-vos algo de comer” (6,37), ao que os discípulos respondem: “Nós devemos sair e comprar duzentos denários de pão para lhes dar de comer?" Essa diferença entre jesus e seus discípulos é estabelecida. No entanto, a medida que a história prossegue, Jesus os obriga a participar, passo a passo, como intermediários de todo o processo. Jesus manda que descubram que comida está disponível (6,38), que façam as pessoas se sentarem em grupos (6,39), distribuam a comida (6,38) e depois recolham o que resta (6,43). Em outras palavras, eles são obrigados aceitar e participar da solução de jesus (dar-lhes comida) e não da solução deles (mandai-vos embora).

Note que Jesus não traz mana do céu nem transforma pedras em comida. Ele pega o que já existe, os cinco pães e os dois peixes, e, quando a comida passa pelas Suas mãos, há mais do que o suficiente, muito mais do que o suficiente para todos. O ponto principal dessa história não é a multiplicação, mas a distribuição. A comida que já está ali é suficiente para todos quando passa pelas mãos de Jesus como encarnação da justiça divina. Os discípulos, pense neles como a comunidade do reino, já presente em microcosmo, ou como lideres dessa comunidade - não veem isso como sua responsabilidade e são obrigados por Jesus a aceita-la. Por trás disso, claro, está toda uma teologia de criação na qual Deus, dono do mundo, exige que todos recebam uma parcela justa de seus bens e nomeia os humanos como guardiões para estabelecer a justiça Dele na Terra.

No incidente dos pães e peixes, a ênfase de Marcos na distribuição justa do que não nos pertence se relaciona, portanto, ao realce no “pão” e no “cálice de vinho” compartilhados entre todos os presentes a ceia da Nova Pascoa. De novo jesus distribui comida já existente a “todos” que estão ali. Uma refeição compartilhada do que já existe ali com todos os presentes tomou-se tanto o grande símbolo sacramental quanto o principal programa pratico do movimento do reino.

Por fim, Jesus não fala meramente de pão e vinho como símbolos de eu corpo e sangue. Não, ele manda todos os seus discípulos, inclusive Judas, partilharem a comida e a bebida. E como se fosse uma última tentativa de juntar todos a ele através da execução até a ressurreição, por meio da morte até uma vida nova.

 

Sexta-feira, Sábado, Domingo.

Quando a ceia termina, Jesus e os discípulos partem e vão ao monte das Oliveiras. Essa saída recorda de perto a noite em que foram mortos os primogênitos do Egito e Israel foi salvo graças ao sangue do cordeiro (Ex 12). Jesus sai de noite, noite em que Ele deve assumir sobre si o destino do cordeiro.

Supõe-se que Jesus, na perspectiva da Páscoa que Ele acabava de celebrar a seu modo, tenha cantado alguns Salmos do hallél (113, 118 e 136), nos quais se agradece a Deus pela libertação de Israel do Egito; mas neles se fala também da pedra rejeitada pelos construtores, que agora prodigiosamente se tomou pedra angular. Nesses Salmos, a história passada toma-se sempre de novo realidade presente. O agradecimento pela libertação é simultaneamente uma imploração de ajuda no meio de tribulação e ameaças sempre novas; e, na afirmação acerca da pedra rejeitada, tomam-se presentes conjuntamente a escuridão e a promessa daquela noite

Interrogatório e condenação Mc 14,53-65

A história do julgamento de Jesus pelas autoridades do templo, contada por Marcos, tem três estágios: um primeiro com testemunhos contra Jesus em 14,55-59, um segundo com o testemunho dele em 14,60-62 e o ultimo com o veredicto e os abusos em 14,63-65.

Marcos, como sempre, escreve para os cristãos que passaram por uma perseguição mortal na pátria judaica durante a grande rebelião de 66 a 74 d.C. Marcos faz Jesus alerta-los sobre traições dentro da família e negações durante aqueles anos terríveis: “Irmão entregara irmão a morte, o pai entregara o filho e os filhos se erguerão contra os pais e os farão morrer” (13,12).

Jesus pregou a pratica da justiça e da solidariedade com as pessoas empobrecidas e enfraquecidas pelo império romano e seus colaboradores. Consequentemente, ele foi perseguido e morto pelos seus opositores. Olhando de perto o tecido do texto da paixão e morte de Jesus, redigido pela comunidade de Marcos, por volta do ano 70 d.C., descobre-se que ele foi morto como contestador e subversivo pelas autoridades de seu tempo.

  1. Os membros do Sinédrio prenderam Jesus, interrogaram-no e entregaram seu caso a Pilatos (14,43- 15,1): não há dúvida de que eles estão na lista dos culpados pela morte de Jesus. Por trás das acusações levantadas contra Jesus, aparecem suas palavras sobre a estrutura religiosa vigente: a Lei do puro e do impuro, o Tempo e o messianismo dravídico triunfalista que regulavam a vida povo judeu. “Jesus projetou uma nova sociedade, na qual o Iegalismo será substituído pela justiça e misericórdia, e o Templo, pela casa de oração da partilha. Por isso, foi visto como uma ameaça ao poder religioso.
  • Os discípulos abandonaram Jesus, e Pedro negou seu Mestre (14,50; 14,66-72). se esses atos não fossem de fato históricos, dificilmente as primeiras comunidades os atribuiríam a Pedro e aos discípulos. O fato de os discípulos fugirem transparece que eles não compreenderam Jesus como o Messias Servo no tempo pré-pascal. Os discípulos esperavam Jesus como um messias poderoso, um novo Davi, conforme era ensinado e esperado por muitas das autoridades religiosas da época.
  1. Pilatos condenou Jesus a morte de cruz como "rei dos judeus” (15,1-15): é importante acentuar antes de tudo, que Jesus foi condenado a uma pena que só um tribunal romano podia dar. Isso é fundamental, porque nos leva a confirmar a responsabilidade de Pilatos e dos romanos pela morte de Jesus. O título “rei dos judeus", que foi fixado, no alto da cruz como a causa da sentença, é

mencionado em todos os evangelhos, reforça a responsabilidade dos romanos. Pilatos condenou Jesus a morte como pretendente ao trono judeu e, portanto, como rebelde contra a ordem e a tranquilidade da pax romana.

4- Jesus é açoitado depois de condenado até morte (15,15): os historiadores atestam a frequência da flagelação como pena acessória ao condenado a morte. Essa pena, que parece ter sido reservada aos não cidadãos entre os romanos, servia de exemplo para demonstrar seu domínio e poder sobre ossúditos nas províncias. E é certo que a flagelação e o sofrimento no caminho para o Calvário enfraqueceram Jesus e apressaram a sua morte.

5- Jesus morreu na cruz (15,37): na literatura romana, a crucifíxão tem sua origem na Pérsia e era aplicada aos oficiais. No período greco-romano é que passou a ser usada para os escravos. Ela é descrita como “crudelíssimo e horribilíssimo suplício, e é uma penalidade infligida aos escravos e aos habitantes das províncias por faltas maiores, como furto grave e rebelião" Por sua crueldade, o suplício da cruz foi visto, pelos judeus, como “escândalo" e “maldição de Deus” “Se um homem, culpado de um crime que merece a pena de morte, é morto e suspenso a uma arvore, seu cadáver não poderá permanecer na arvore a noite; tu o sepultaras no mesmo dia, pois o que for suspenso é um maldito de Deus" (Dt 21,22-23).

Os textos bíblicos da Paixão e morte de Jesus nos informam que ele morreu como criminoso e subversivo. Sua morte foi consequência de uma vida a serviço da justiça levada ao seu extremo: “Jesus dizia. ‘Abba [Pai]! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que tu queres"’ (14,36). A cruz de Jesus é o resultado da sua fidelidade a missão do Pai e compromisso com seus irmãos até o fim. E o resultado do que ele pregou e do que ele fez. E é exatamente por Jesus ter sido fiel ao amor de Deus, e por ter testemunhado esse amor até o fim, até a cruz, que a comunidade de seus seguidores e seguidores vera na cruz a exaltação de Jesus como servo de Javé, (F1 2,6-9).

Um hino cristão antigo, citado por Paulo, repete o mesmo esquema “humilhação/exaltação" conhecido na tradição judaica, por exemplo: “Deus ergue o fraco da poeira e tira o indigente do lixão" (SI 113,7- 8; SI 22). O indigente, condenado como impuro, é salvo pelo amor e pela gratuidade de Deus. A salvacao não está no cumprimento da lei do puro e do impuro, mas na pratica da solidariedade, por meio da qual o Deus da vida se manifesta. Por isso, para os cristãos, Deus Pai nunca abandona Jesus de Nazaré, que serve ao povo com amor. Ele exalta Jesus crucificado, um impuro, cujo nome é Jesus Cristo, Filho de Deus (1,1).        <>

Com essa convicção pos-pascal, a comunidade de Marcos descreve a manifestação gloriosa do Filho do Homem: (13,24-27). Com a tradição apocalíptica judaica (Dn 7,9-27), a comunidade de Marcos manifesta a sua fé na ressurreição de Jesus Cristo e na chegada de um mundo novo por ele prometido. Porém, a mesma comunidade adverte que essa espera pela manifestação plena do reino de Deus não deve ser passiva, mas ativa (13,28-36). Os seguidores e as seguidoras de Jesus Cristo não podem se descuidar de suas responsabilidades no seguimento de Jesus no dia a dia. “O que vos digo, digo a todos: vigiai!" (13,37).

“Cumpriu-se o tempo, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho", escreve a comunidade de Marcos (1,15). O reino de Deus pregado e semeado por Jesus deve continuar Sendo construído pela pratica da solidariedade e da comunhão com os mais sofridos e explorados devido a uma realidade excludente, que vive a busca desenfreada do lucro, poder e privilégio. Os seguidores e seguidoras de Jesus Cristo devem continuar a missão do seu mestre, que exerceu seu ministério a partir da periferia, da Galileia. Somente assim, Jesus ressuscitado estará presente no meio deles.

Um jovem vestido com uma túnica branca anuncia para as mulheres diante do tumulo vazio: “Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos procede na Galileia. La o vereis, como vos tinha dito" (16,7).

Comentando o texto: Mc 16,1-8 - “Ressuscitou, não está aqui"

Os evangelhos são unanimes em afirmar o testemunho de mulheres que vão ao tumulo de Jesus. Marcos cita Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé (v.l). Mateus menciona apenas duas mulheres: Maria Madalena e a outra Maria (Mt 28,1). Na lista de Lucas, vemos Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, e outras mulheres (Lc 24,10). Em Joao, apenas Maria Madalena (Jo 20,1). Madalena é citada em todos, o que indica que ela era uma referência importante para as primeiras ’comunidades cristas, principalmente para a teologia da ressurreição empara a continuidade do movimento de Jesus. E mais: a morte de Jesus foi assunto de muita conversa e reflexão na Igreja dos primórdios.

No evangelho de Marcos, a lista com nomes de mulheres é citada pela terceira vez. Em 15,40, no momento da crucifíxão, “estavam ali algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de Joset, e Salomé". Em seguida, a narrativa afirma. “Maria de Magdalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde ele fora posto" (15,47). O que pode indicar essa lista, uma vez que o testemunho de mulheres nem sempre era considerado? Os discípulos fugiram, mas algumas mulheres permaneceram até o fim.

Após a prisão e a execução de Jesus na cruz, as mulheres não o abandonaram, mas continuaram a segui-lo. Segundo o evangelho de Marcos, desde o início da narrativa, elas também serviam (diakonein) a Jesus (1,31) e até após a sua morte. Ainda que o seguimento dos homens (como Pedro, Tiago e Joao) a Jesus desaparecesse, as mulheres continuam sendo “diaconisas", prestando solidariedade e estando em comunhão com os mais necessitados. Elas como o cego Bartimeu (10,46-52). São o símbolo do ser desprezado, sem poder. São as pessoas marginalizadas, que estão dependentes e vazias de si mesmas, prontas para seguir o caminho de Jesus, o servo sofredor que se esvaziou para servir aos outros até a cruz.

A descrição do evangelho de Marcos permite concluir que o sepultamento de Jesus foi apressado, pois já era tarde e véspera do sábado, sem o tempo suficiente para os rituais fúnebres. Por isso, algumas mulheres, após o sábado, ou seja, após o pôr do sol, vão ao lugar onde sepultaram Jesus para ungir o corpo dele (16,1).

Era costume dos judeus ungir o corpo com uma mistura de mirra e aloés (cf. Jo 19,39). A unção deveria ser feita antes do sepultamento. Na realidade, não seria possível abrir o tumulo depois de um dia e meio de sepultamento.

Mal amanheceu o primeiro dia e as mulheres foram ao tumulo. No coração, angustia e preocupação: “Quem rolara a pedra da entrada do túmulo para nós?" (16,3). No entanto, “viram que a pedra já fora removida" De acordo com a mentalidade bíblica, tumulo é símbolo de morte. Mas a entrada está aberta. Há uma esperança As mulheres “viram um jovem sentado a direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram cheias de espanto” (16,5). A palavra grega ekthambeo só é utilizada nesse evangelho e pode ser traduzida por pavor ou espanto. Ela também é utilizada no contexto da oração de Jesus no Getsémani para descrever o seu estado de ânimo: ele “começou a apavorar-se” (14,33).

No tumulo, o jovem encontra-se a direita, a tradição acreditava que essa era a posição do próprio Cristo: “vereis o Filho do Homem sentado a direita do Poderoso e vindo com as nuvens do céu" (14,62, cf. 12,36). A descrição do encontro entre o jovem e as mulheres tem características de relato de anuncio: o jovem é identificado com um anjo (cf. 2Mc 3,26), as vestes brancas indicam o mundo divino, sua posição simboliza dignidade palavras de encorajamento as mulheres diante do medo e a promessa.

As palavras anjo contém a afirmação de fé das primeiras comunidades cristas: “Procurais a Jesus de Nazaré, o Crucificado. Ele ressuscitou, não está aqui" (16,6; cf. At 2,23-24; 3,15; 4,10; 5,30; 10,40; 13,28-30). No grego, esta na voz passiva, “ele foi levantado (egerthé, traduzido por ressuscitado). O mesmo verbo é utilizado nos relatos de milagre, nos quais Jesus levanta os marginalizados, libertando-os para participarem da vida, social (1,31,2,9, etc). A ressureição é a vida.

O tumulo vazio é um sinal da ação de Deus. Um mistério que permanece até hoje. Não é o túmulo vazio que prova a ressureição de Jesus, sim, um encontro pessoal com o ressuscitado. As palavras finais do Anjo são de encorajamento: “Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galileia" (16,7). A ordem é ir para a Galileia.-Voltar ao começo, refazer o caminho.

A palavra do anjo inclui os discípulos e Pedro. Na hora do aperto, os discípulos fugiram e Pedro negou Jesus. Apesar das falhas, a comunidade está aberta para todas as pessoas que estão dispostas a seguir Jesus. É preciso sempre voltar a Galileia, que no evangelho de Marcos tem um destaque especial. E em Cafamaum Jesus escolheu "seus primeiros discípulos e estabeleceu o local de sua residência. Ele atuou no Norte da Galileia e na Decápolis ao passo que Jerusalém é o lugar do sagrado vinculado a Lei, a hierarquia, ao puro e impuro, é o lugar da exclusão, de tudo o que significa a rejeição ao projeto de Jesus. É preciso distanciar se de Jerusalém e reencontrar Jesus na Galileia, no meio dos gentios.

Provavelmente, é a mesma razão que levou o evangelho de Marcos a ser o único que utiliza o título “Jesus de Nazaré” no relato da ressurreição (16,6). A comunidade, que se situava na Galileia e estava enfrentando conflitos, por volta do ano 70 d.C., deu ênfase ao local do ministério de Jesus. Ele era um nazareno, viveu, testemunhou e implantou seu projeto de amor e de solidariedade na sua terra. Chamar “Jesus de Nazaré" e Voltar para “Galileia” são apelos fortes para retomar a missão de Jesus, o servo sofredor.

Qual foi a resposta das mulheres? "Saíram e frigiram do túmulo (.) E nada contaram a ninguém, pois tinham medo" (16,8). Assim terminava o evangelho de Marcos. Uma história cujo fim fica para a imaginação de quem está lendo o evangelho. Diante das curas e milagres, a ordem é silenciar e as pessoas falam (1,44), agora acontece o contrário: a ordem é falar e as mulheres silenciam.

A história se repete: como os discípulos, as mulheres também fugiram (14,50). Porém, seu silêncio, medo e fuga são diferentes. São os sentimentos e as reações diante do seguimento de Jesus: “Voltar para a Galileia - a pratica de Jesus". Seguir Jesus de Nazaré implica assumir o seu projeto, que provoca conflitos, perseguições e até a morte. Implica deixar a segurança! Mas a esperança esta ai na ressurreição. Jesus ressuscitado continua presente entre aqueles e aquelas que prosseguem o seu caminho (16,6-7).

Aprofundando o texto

O verbo traduzido para o português como ressuscitou, no grego, é egerthé, que significa “foi levantado". A comunidade das seguidoras e seguidores de Jesus usa o mesmo verbo tanto para falar da ressurreição de Jesus, de como ele foi levantado dentre os mortos, quanto para falar da ação de Jesus entre as pessoas que com ele conviviam. Principalmente entre aquelas que estavam recaídas nas camas, paralíticas, atrofiadas, sem vontade de viver atormentadas por espíritos impuros e cegas, daqueles e daquelas que estavam como que “mortos" para a vida. A ação de Jesus junto a essas pessoas foi de levanta-las, ou de fazer com que se levantassem para a vida de novo, que novamente participassem da vida, que recomeçassem a viver. Eis aqui alguns exemplos: 1,29-31; 2,5-11; 5,38-42; 10,48-52;

Segundo os evangelhos, havia muitas pessoas a serem levantadas para a vida. Por que isso acontecia? Aqui devemos ter presente o contexto em que Jesus e as primeiras comunidades viveram e atuaram. O elemento principal desse contexto é a dominação pelo império romano. Isso implicava uma pesada carga de tributos e impostos sobre todas as pessoas. Grande parte da produção e dos frutos dos trabalhos do povo dominado ia parar nas mãos das autoridades romanas e de seus aliados judeus. A carga representada pelo domínio imperial romano somava-se a carga dos impostos, tributos, sacrifícios e oferendas que os judeus deviam fazer ao Templo de Jerusalém e as autoridades da religião oficial da Judeia. Juntos, esses tributos retiravam mais de 60% dos produtos do trabalho do povo da Judeia e da Galileia. Assim, a maioria da populaçao vivia em estado de pobreza e muitos, sem acesso a terra, endividados e sem trabalho fixo, viviam na miséria.

A situação social de exploração e de pobreza generalizada era agravada pela teologia oficial dominante, que acrescentava aos sofrimentos dos pobres a culpa por sua pobreza. A teologia da retribuição dizia que a pobreza e a riqueza eram dadas por Deus. Segundo essa teologia, a riqueza era vista como uma bênção que Deus dava para os justos, como recompensa por sua justiça, e a pobreza, a doença, os sofrimentos eram vistos como una maldição de Deus, destinada aos pecadores e impuros. Isso sobrecarregava as pessoas pobres, doentes e excluídas, pois, além das dores advindas de sua situação social, ainda sofriam com o peso da vergonha e da culpa por serem vistas como pecadoras.

Uma das consequências fortes dessa compreensão de Deus é que causa e estimula a insensibilidade diante das pessoas pobres, injustiçadas e sofredoras: elas São vistas como causadoras dos seus próprios sofrimentos, como quem está pagando por seus próprios pecados e erros. O Deus da lei do puro e impuro,

o templo e da teologia da retribuição, em vez de incentivar a solidariedade, estimula a culpabihzacão e a exclusão. E um Deus insensível aos gritos das pessoas pobres, das pessoas que sofrem injustiças e violências, Jo 24,9-12. O Deus da teologia da retribuição não ouve, não vê, não conhece, e nada faz para diminuir as dores dos oprimidos. É nesse contexto que devemos compreender a pratica de Jesus e também das comunidades de Marcos, de Paulo e dos outros evangelhos. Inclusive em muitos casos, quando os evangelhos descrevem Jesus realizando determinados atos e atitudes, na verdade estão legitimando praticas realizadas pelas comunidades em nome de Jesus.

Mas as práticas das comunidades certamente enraizam-se na pratica e nas atitudes de Jesus. No contexto dominado pela teologia da retribuição, Jesus certamente mostra outro rosto de Deus: “Assim que ele desembarcou, viu uma grande multidão e ficou tomado de compaixão por eles, pois estavam como ovelhas sem pastor" (6,34).

Jesus vê com os olhos do Deus do Êxodo, que vê, ouve, conhece e desce para libertar (Ex 3,7). Jesus e a comunidade de seus seguidores e seguidoras não enxergam as pessoas com os óculos da teologia da retribuição. Esses óculos impedem de vê-las como pessoas, mas, sim, como pecadoras e culpadas por seus próprios sofrimentos, por isso elas não devem ser acolhidas e, sim, penalizadas e excluídas. De acordo com essa mentalidade, as pessoas consideradas pecadoras são as causadoras de suas próprias desgraças, que podem recair sobre quem delas se aproximar1 “Que? Ele come com os pecadores e publicanos?” (2,16). Essas pessoas estão como mortas para Deus... E precisam ser ajudadas a se levantarem novamente, precisam ser levantadas par a dignidade, para a vida... E era isso o que Jesus fazia. Ao fazer isso, também resgatava e revelava o verdadeiro rosto de Deus.

No ambiente agitado dos anos próximos da guerra judaica, visões triunfalistas do messias dravídico talvez tenham feito alguns discípulos, que esqueceram da solidariedade com os empobrecidos e começaram a adorar Jesus como um rei poderoso, o que está implícito na forma como o evangelho descreve suas reações frente aos anúncios da paixão (cf. 8,31-33; 9,30-34; 10;32-37). Havia grupos que estavam olhando mais para o Jesus todo-poderoso do que para as pessoas ao seu redor. Os pequeninos estavam sendo esquecidos e ignorados.

Mas as comunidades que estão por trás do Evangelho de Marcos, ao apontar para Jesus como o servo de Javé, e ao mostrar Jesus recriminando essas atitudes (8,34-35; 9,35-37; 10,41-45), também nos recriminam severamente. Jesus não quer ser adorado como um rei ou um Deus poderoso. Ao fixarmos demasiadamente nossos olhos e nossos corações em de Jesus e de Deus, corremos o risco de não ver nem ouvir os gemidos e as dores dos pobres e injustiçados ao nosso lado... E com isso Jesus ressuscitado não mais se manifesta entre nos. Olhando para essas partes do evangelho de Marcos, podemos nos dar conta de que estamos preocupados em demasia em cultuar a Jesus no altar ou no trono, esquecendo-nos de que 0 testemunho de sua ressurreição não esta no culto, mas no serviço, no serviço que liberta, que resgata a dignidade das pessoas, que transmite vida, que levanta as pessoas injustiçadas e oprimidas.