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5ª Lição: Gênesis 2,4b-24: O sopro da vida!
5ª Lição: Gênesis 2,4b-24: O sopro da vida!

1.Acolhida e motivando a aula de hoje. 

Já vimos na primeira lição, que os relatos sobre a criação do mundo e da humanidade não são exclusividades de Israel. Civilizações bem mais antigas, procurou responder, a seu modo, às questões existenciais do ser humano sobre a origem do universo, da vida e da morte, do bem e do mal. As respostas construídas ao longo de várias gerações nós chamamos mito.

 

Vejamos uma história da criação da humanidade segundo a cultura de Madagascar, um país da África.   

 

“O Criador fez dois homens e uma mulher; cada um dos quais perambulou pela terra sozinho, sem saber que os outros existiam. O primeiro homem sentia-se solitário, e esculpiu uma estátua de uma bela mulher em madeira. O segundo homem passou por ali e se apaixonou pela estátua. Contudo, chocado com sua nudez, cobriu-a com belas flores. Mais tarde, a mulher passou por ali, e também estava solitária. Ela levou a estátua para sua casa, e pediu ao Criador que a dotasse de vida. A estátua dormiu na cama com ela e, pela manhã, havia se transformado em uma garota viva.  

Os dois homens procuraram pela estátua, e, quando as três pessoas se encontraram pela primeira vez, discutiram. A mulher não queria entregar a garota para os dois homens. Então o Criador interveio. Ele ordenou que o primeiro homem, que havia feito a estátua, fosse o pai da garota. A mulher que a levou para casa tornou-se sua mãe. O homem que vestira a estátua e se apaixonara por ela seria doravante o marido da garota. Todos os seres humanos descendem desses dois casais”. 

 

Quais os seus sentimentos diante desse relato? O que te chama a atenção? Nossa primeira reação diante desse mito pode ser de riso, mas temos que pensar que, para muitas pessoas, essa história era o relato de um fato. Essa história apresenta um ponto essencial: ninguém vive sozinho. O Criador intervém, dá vida e estabelece a harmonia entre as pessoas. 

 

  1. Iluminando a vida.

Entre o ser humano e Javé Deus existe um relacionamento de proximidade. O ser humano é chamado a ser co-criador com Javé Deus. A missão de cultivar é cuidar da terra, e com o seu trabalho transformar o ambiente. O guardar está ligado ao cuidado com a vida. Temos como missão dar continuidade ao projeto da vida, que só se realiza no relacionamento com as outras pessoas, com os outros seres criados e com toda a natureza. 

 

1- Como estamos realizando a nossa missão de co-criadoras/es com Deus?  

 

2- "Não é bom que o homem esteja só". Como é o nosso relacionamento com outras pessoas, com Deus, com a natureza e com os outros seres criados?  

 

3- Como vivenciamos o relacionamento homem e mulher no dia-a-dia de nossa comunidade? 

 

  1. Situando o texto.

Na lição de hoje vamos ver como as pessoas nas aldeias de Israel refletiam sobre a criação do mundo. São histórias que nascem de camponesas/es que sofrem com as constantes guerras, a destruição da natureza, o trabalho escravo e a exploração da terra. Por meio desses relatos, através de uma linguagem simbólica, vamos ouvir seus sonhos e a principal causa de seus problemas. Entre outros elementos, o texto diz que o homem e os animais foram modelados a partir do barro, o que significa uma profunda relação com a terra. A mulher foi construída a partir da costela do homem. Conforme a crença da época, a costela é o lugar onde reside o amor. A expressão “osso dos meus ossos e carne de minha carne" indica parentesco profundo. A única proibição é não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. O conhecimento vem de Deus; que organiza os seres humanos e a natureza em harmonia. Comer o fruto dessa árvore é infringir a lei da vida e se colocar no lugar de Deus (Pr 2,6-9). Leia agora o texto de Gênesis 2,4b-24 e entenda melhor o sonho do povo. 

 

  1. Leitura do texto: Gn 2,4b-24. 

a)  Quais as expressões ou palavras-chave que aparecem no texto? 

 

b)  Qual a missão do ser humano segundo o relato bíblico? 

 

c) Como entender a expressão: "Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda"?

 

  1. d) Quais as imagens de Deus que aparecem no texto?

 

5-Situando o texto no contexto.

Ninguém consegue ser feliz sozinha/o. Viver a irmandade é uma necessidade e um anseio profundo que habita no coração de cada ser humano. Quem de nós já não experimentou o valor de ter uma irmã ou um irmão ao nosso lado? Poder compartilhar a vida com quem nos aceita como somos e nos quer bem é uma bênção. É fonte de crescimento e de felicidade.

 

O Salmo 133 afirma que a vida fraterna é como o orvalho do Hermon. Como entender essa comparação? O monte Hermon está localizado na fronteira norte do território de Israel. O ponto mais alto deste monte sempre está coberto de neve, por isso forma muito orvalho nas encostas da montanha. Pela manhã, a umidade do Hermon desce para a Judéia, provocando nuvens e chuvas, garantindo a fecundidade da terra. O termo Hermon significa sagrado. De acordo com a fé do povo daquele tempo, Javé mora no monte Hermon. Portanto, a água é gratuidade de Deus que garante a vida. É exatamente isso que afirma o Salmo 133: a vivência fraterna é fonte de vida para sempre. É bênção! 

 

O Salmo 133 nasce da realidade de camponesas/es da Palestina. É uma oração que mostra a importância de viver em comum, como irmãs e irmãos, em harmonia com a mãe-terra. O Salmo 133 alimenta o sonho de vivência fraterna entre o povo judeu, mas também com os povos vizinhos: Edom, Moab e Amon, povos considerados inimigos de Israel. É fundamental que as pessoas aprendam a conviver com seus semelhantes, dentro e fora de Israel, com todos os seres vivos e com toda a natureza. É na vivência fraterna que o Deus da vida se faz presente.  

 

A vida das/os camponesas/és depende da terra, considerada propriedade coletiva (Nm 26,52-56). Todas as pessoas trabalham na terra e produzem o necessário para a sobrevivência do grupo. O fruto do trabalho é partilhado ou trocado por outros bens necessários. A espiritualidade da partilha e da solidariedade está presente nas leis e nos sonhos que fazem parte das tradições camponesas.  

 

No livro do Deuteronômio lemos: "Quando entrares na vinha do teu próximo poderás comer à vontade, até ficar saciado, mas nada carregues em teu cesto. Quando entrares na plantação do teu próximo poderás colher as espigas com a mão, mas não passe a foice na plantação do seu próximo" (23,25-26). Todas as pessoas têm direito aos bens necessários à sua sobrevivência. Cabe a elas cuidar do fruto da terra para que haja vida.  

 

Na voz profética, o projeto de Deus é que todas as pessoas tenham direito à vida digna: "Já não haverá ali criancinhas que vivam apenas alguns dias... Os homens construirão casas e as habitarão, plantarão videiras e comerão os seus frutos. O lobo e o cordeiro pastarão juntos e o leão comerá feno como o boi" (Is 65,20-21.25a). Ter direito à terra e à moradia, poder usufruir o fruto do trabalho e ter uma vida longa é o projeto da nova sociedade. E ela será completa se houver harmonia entre as pessoas e com toda a natureza.

  

A espiritualidade da solidariedade e da igualdade alimenta a esperança de muitos grupos, principalmente de camponesas/es. Na busca de entender as suas origens, nas histórias transmitidas de geração em geração, na vivência da partilha e da solidariedade, nascem as tradições de Gênesis 2,4b-24.  

 

6. Comentando o texto: Gn 2,4b-24. O segundo relato da criação começa afirmando que Javé Deus fez a terra e o céu (2,4b). É interessante observar que, ao contrário do primeiro relato, neste texto a terra vem em primeiro lugar. Os dois relatos são diferentes: o primeiro é mais solene, poético, escrito por grupos sacerdotais; o segundo é uma história com linguagem mais simples, própria de pessoas que estão ligadas à terra. 

 

O cenário que o texto nos apresenta é o de uma terra deserta, como a de Judá: sem arbusto, sem erva, sem chuva, sem pessoas para cultivar o solo. Sem água não há possibilidade de vida. A fertilidade da terra depende da chuva. E a chuva é considerada dom de Deus: "Preparas a terra assim: regando-lhe os sulcos, aplanando seus terrões, amolecendo-a com chuviscos, abençoando-lhe os brotos" (Sl 65,10c-l1). Como os israelitas dependem de Deus mandar a chuva, a falta de chuva é vista como maldição. Sem chuva, não há alimento nem vida.  

 

Além da falta de água, não existe o 'adam, o ser humano, para "cultivar o solo" (2,5), por isso a terra não produz. O ser humano é responsável por manter a criação de Deus. O verbo hebraico 'abad’, cultivar, abrange a ideia de fazer e adorar. Não se trata de trabalhar somente para o sustento da vida, mas também para cultuar a Deus. Mais à frente, em Gênesis 2,15, o autor amplia a missão do ser humano: cultivar e guardar, shamar, que também pode ser traduzido por cuidar, preservar.  

 

A missão do ser humano é trabalhar e cuidar. É do seu trabalho que surge a cultura: ele tem a capacidade de transformar o ambiente natural em cultural. O ser humano é chamado a ser co-criador com Deus. Nos dias de hoje, diante dos desmatamentos abusivos e das constantes agressões ao meio ambiente, percebemos que muitas pessoas correm atrás do poder e do lucro, esquecendo-se de sua missão de cultivar e guardar a terra. Essa realidade vem de longe...’Por volta do ano 740 a.C; um profeta denuncia: "Eis que virão dias - oráculo do Senhor Javé - em que enviarei fome à terra, não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir a palavra de Javé" (Am 8,11).  

 

Javé Deus, como o oleiro, modelou o 'adam com o pó da terra, 'adamah’. (2,7; Jr 18,1-6). Entre o ser humano e a terra existe uma profunda comunhão. É a vida das camponesas e dos camponeses que trabalham com a terra e vivem cercados pela natureza. Eles vêm da terra, ao mesmo tempo, recebem a missão de cultivá-la e, no final, voltam para a terra: "Com o suor do teu rosto comerás teu pão até que retomes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás" (Gn 3,19). Entre outras vozes, esta crença é proclamada no grito do sábio: "Lembra-te de que me fizeste de barro, e agora me farás voltar ao pó?" (Já 10,9). É uma resposta a alguns questionamentos existenciais do ser humano: De onde viemos e para onde vamos?  

 

O 'adam’ recebe um hálito de vida. O espírito de Deus está na origem da vida: "Envias teu sopro e eles são criados, e assim renovas a face da terra" (Sl 104,30; Jó 7,7; Zc 12,1). O ser humano se torna vivente a partir da terra e de um sopro de vida. O trabalho de Deus é semelhante ao de um oleiro. Ele modela, constrói uma imagem e nela coloca o princípio da vida (Sb 15,7-11).  

 

Deus planta um jardim e nele coloca o 'adam. Na versão grega, a palavra jardim foi traduzida por paraíso. No hebraico, a palavra Éden significa delícias. O jardim é um local  onde há água em abundância (13,10). Assim fala o profeta: "Javé consolou Sião, consolou todas as suas ruínas; ele transformará seu deserto em um Éden e suas estepes em jardim de Javé. Nela se encontrarão gozo e alegria, cânticos de ações de graças e som de música" (Is 51,3). No jardim há fartura: "Toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer" (Gn 2,9). O imaginário de um jardim de Deus está presente em muitas tradições (cf. Ez 28,13; 31,8-18; 36,35; 47,12; J12,3; Ap 22,2).  

 

Na descrição do jardim aparecem grandes rios, dentre os mais conhecidos o Tigre e o Eufrates. Os versículos 10-14 foram acrescentados com a intenção de mostrar que os rios, que banham as quatro regiões do mundo, têm uma única fonte no jardim (Ez 47,1-12).  

 

No jardim existe a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal (2,9). A primeira árvore é uma resposta à angústia do ser humano quanto ao envelhecimento e à morte. Há muitas histórias que falam da busca da eterna juventude. O envelhecimento e a morte são o desfecho natural da vida humana, a não ser que a vida da pessoa seja interrompida. A árvore da vida é mencionada por profetas e sábios (cf, Jr 17,5-11; Pr 3,18; 11,30; 13,12).  

 

A segunda árvore é a do conhecimento do bem e do mal (v. 9.17). Não comer do fruto dessa árvore é a única proibição de Deus para 'adam'. Na cultura judaica, o conhecimento vem de Deus: "Pois é Javé quem dá a sabedoria; de sua boca procedem o conhecimento e o entendimento. Ele guarda para os retos a sensatez, é escudo para os que andam na integridade. Ele vigia as sendas do direito e guarda o caminho dos seus fiéis. Então entenderás a justiça e o direito, a retidão e todos os caminhos da felicidade" (Pr 2,6-9).  

 

O conhecimento é uma arte de viver e organizar as pessoas, os animais e as plantas na convivência harmoniosa. Comer desse fruto pode significar destruição e sofrimento, como acontece com os governantes que se colocam no lugar de Deus. Eles cometem abusos de poder, injustiça e exploração (Pr 25,2-3; Ez 28,13-19). Os grupos governantes devem saber "rejeitar o mal e escolher o bem". A sua missão é ser co-criador com Deus, cultivando e guardando o universo (Is 7,15; l Rs 3,9). O mandamento de Deus é não comer; se comer, terás que morrer. Ou seja, a ordem é viver!  

 

A missão do ser humano é cultivar e guardar (Gn 2,5.15). Cultivar a terra não é castigo de Deus para o ser humano, mas parte do seu plano para que a vida tenha continuidade. O ser humano é chamado a trabalhar em harmonia com os outros e com a natureza (Is 11,5-9; Os 2,20-22). É desse mundo criado por Deus que o ser humano tira o sustento para a sua vida.  

 

"Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda" (2,18). Permanecer só não está de acordo com a finalidade da criação. Os seres vivos se relacionam e se inter-relacionam mutuamente. A palavra hebraica neged tem o sentido de correspondência e indica co-relacionamento. Para o 'adam'  será feita uma auxiliar, 'ezer’, para que ele possa conviver.  A auxiliar é uma presença indispensável. Sem ela, não há vida. O termo 'ezer’ é colocado em paralelo com a salvação (Sl 37,39-40; 79,9). Para que o ser humano possa viver é necessário uma presença que seja capaz de fazê-lo  se relacionar com a totalidade do seu ser. O animal pode consolar o ser humano, mas não pode correlacionar-se com ele enquanto pessoa.  

 

O 'adam nomeia todos os seres vivos. Esse gesto indica relações próximas com toda a criação. Dar nome na cultura judaica corresponde a dar existência. Mas o homem ainda permanece só, para ele não há uma auxiliar: O texto afirma que Javé Deus pegou uma costela do homem e fez crescer carne em seu lugar (2,21). Vejamos o simbolismo presente neste gesto. Segundo a tradição, a costela é o local onde reside o amor. A carne indica parentesco profundo (Gn 29,14; Jz 9,2; 2Sm 5,1). Ou seja: mulher e homem possuem a mesma natureza e estão intimamente ligados: "carne de minha carne!" (2,23).  

 

O 'adam’ só é bom quando pode correlacionar-se com a pessoa amada. O homem exclama: "Ela será chamada 'mulher', porque foi tirada do homem!".  Podemos notar que a palavra hebraica para homem não é mais 'adam, mas 'ish’ e para mulher ‘ishah’. O 'adam’  só se define enquanto 'ish’, homem, a partir da criação da mulher: é nesse momento que ele se reconhece como ser humano.  

 

"O homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne" (Gn 2,24). Tornar-se uma só carne é uma expressão que denota vinculo familiar (Gn 37,27). O verbo unir, dabhaq, significa ação de segurar, ligar-se. A ligação é mais forte que os vínculos de sangue: "O amor é forte, é como a morte" (Ct 8,6).  

 

7 - Aprofundando: Dar continuidade à criação de Deus!  Os mitos nascem a partir das tradições orais e dos costumes de um povo. O mito, para a cultura que o produziu, não é apenas uma história que se conta, mas uma realidade vivida. Por meio dos mitos conhecemos os rituais, a conduta moral e os relacionamentos sociais de um povo. Como a terra é um elemento vital nas sociedades agrícolas, em muitos mitos da criação a terra ocupa papel fundamental. No relato de Gênesis 2, a humanidade foi modelada a partir da terra.

 

Assim narra um mito da criação de Madagascar; uma região da África:  

O Criador estava vendo sua filha, a Mãe Terra, fazer bonequinhos de argila, e ficou interessado. Ele falou com sua filha sobre eles e insuflou-lhes vida, criando seres humanos vivos. Com o passar do tempo, contudo, os seres humanos se multiplicaram e prosperaram. Eles davam graças à Mãe Terra, mas esqueceram tudo sobre o Criador. Ele disse à filha que estava errado que ela aceitasse todos os sacrifícios dos humanos sem compartilhá-las. Portanto, ele tomaria as almas da metade dos humanos como tributo e deixaria a outra metade viva. O motivo pelo qual a maioria das almas levadas por ele é velha é que ele é paciente. Como o Criador deu almas aos seres humanos, é só isso que ele pode levar; a Mãe Terra fez seus corpos, e essa é a parte dos humanos que vai para ela quando eles morrem.” 

 

Como esse mito não faz parte de nossa cultura, podemos simplesmente achar graça e até considerá-lo como história inventada. Porém, é importante observar que esse relato oferece uma resposta a algumas questões existenciais do ser humano quanto às suas origens e seu destino final. Em comum com o relato bíblico temos o fato de o ser humano ser criado da terra, receber do criador o hálito de vida e, no final, voltar para a terra.

 

Dizer que o ser humano surgiu da terra não é uma verdade científica, mas expressa uma verdade simbólica: a natureza humana é frágil, mas capaz de se deixar modelar. Vir da terra também significa que o ser humano não é superior a ela, por isso não pode agir como dono absoluto, destruindo-a. A terra é o espaço onde o ser humano vive. A sua missão é cultivar e guardar (2,15). A criação de Deus continua por meio da ação do ser humano. Dessa forma, somos chamadas/os a sermos co- criadoras/es com Deus.

  

Para assumir sua responsabilidade de dar continuidade à obra de Deus, alguns grupos de Israel elaboram leis de proteção à vida.

 

  • Pessoas. "A cada sete anos farás remissão. Eis o que significa esta remissão: todo credor que tinha emprestado alguma coisa a seu próximo remitirá o que havia emprestado; não explorarás seu próximo, nem seu irmão, porque terá sido proclamada a remissão em honra de Javé" (Dt 15,1-2). A lei do descanso da terra é relida e aplicada para proteger as pessoas em situação de escravidão: "Quando um dos teus irmãos, hebreu ou hebréia, for vendido a ti, ele te servirá por seis anos. No sétimo ano tu o deixarás ir em liberdade" (Dt 15,12).

 

  • Terra. "Durante seis anos semearás a tua terra e recolherás os seus frutos. No sétimo ano, porém, a deixarás descansar e não a cultivarás, para que os pobres do teu povo achem o que comer, comam os animais do campo e o que restar. Assim farás com a tua vinha e com o teu olival" (Ex 23, 10-l1). É o descanso que protege contra a exploração da terra e favorece os mais pobres.  

 

  • Respeitar o direito da terra e realizar a partilha. "Quando tiveres entrado na terra e tiverdes plantado alguma árvore frutífera, considerareis os seus frutos como se fossem o seu prepúcio. Durante três anos serão para vós como coisa incircuncisa e não comerá deles" (Lv 19,23). De acordo com algumas tradições mais antigas do povo judeu, as três primeiras colheitas pertenciam à terra. O respeito ao direito da terra a tornava mais fecunda.  

 

  • Proteção à natureza. O texto de Dt 20,19 proíbe cortar árvores frutíferas: "Quando tiveres que sitiar uma cidade durante muito tempo, antes de atacá-la e torná-la, não deves abater suas árvores a golpes de machado; alimentar-te-ás delas, sem cortá-las: uma árvore do campo é por acaso um homem, para que a trates como um sitiado?"  

 

.Animais domésticos e selvagens. De acordo com Dt 22,1-4 temos o dever de socorrer os animais domésticos - boi, ovelha, asno - bem como os objetos perdidos, de cuidar e de devolver ao dono (Nm 20,8; Ex 23,4-5). Em Dt 22,6-7, há uma lei que visa garantir a sobrevivência da espécie: se uma pessoa encontrar um ninho de passarinhos com a mãe e os filhotes, deve deixar a mãe em liberdade. 

 

No plano da criação, a pessoa tem a missão de continuar a obra de Deus, de cultivar e proteger toda a criação (2,15; Pr 12,11). Porém, a história de Israel testemunha o contrário. Os dirigentes não respeitam as leis em favor da vida (Am 5,10-12). E hoje? Até que ponto nós estamos assumindo a nossa missão?  

 

Eis alguns sinais de destruição:  

 

  • Poluição do ar e da terra. As atividades industriais provocam grande concentração de gás carbônico na atmosfera, gerando secas e inundações. O uso de agrotóxicos faz a terra produzir ao máximo, mas contamina nascentes e rios.  

 

. Aquecimento global. Os últimos anos registram o aquecimento do planeta, intensificado pelas indústrias e pelo desmatamento.  

 

. Água. De acordo com dados da ONU, 2 bilhões de pessoas enfrentam escassez de água. No dia-a-dia, assistimos ao desperdício de água. Há pessoas que varrem suas calçadas com a força da água. No campo, os agrotóxicos estão contaminando as fontes de água. Quantas matas ciliares estão sendo destruídas, prejudicando as nascentes.  

 

. A qualidade de vida piora dia a dia. Há cidades superpovoadas, sem infraestrutura adequada: faltam moradia e saneamento básico, há desemprego e subemprego. 

 

A situação da saúde pública é uma calamidade. E assim podemos continuar listando situações de desrespeito à vida; basta olhar nos arredores onde vivemos para perceber que os sinais de destruição que atingem o nosso planeta estão em toda parte.

  

Em de vez relações de amor e de solidariedade, implantou-se um regime utilitarista: o valor econômico é colocado acima da vida humana. A palavra do profeta pode ser aplicada aos nossos dias: "Não há fidelidade nem amor, nem conhecimento de Deus na terra. Mas perjúrio e mentira, assassinato e roubo, adultério e violência, e o sangue derramado soma-se ao sangue derramado. Por isso, a terra se lamentará, desfalecerão todos os seus habitantes e desaparecerão os animais dos campos, as aves dos céus e até os peixes do mar" (Os 4,1-3).  

 

A vida do planeta está em nossas mãos! É urgente que cada pessoa, grupo de reflexão, comunidade tome consciência de que a terra está morrendo. É preciso voltar ao projeto inicial: cultivar e cuidar da terra (2,15).