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5º Encontro: Idolatria (Sb 15,7-9)
5º Encontro: Idolatria (Sb 15,7-9)

Motivando a conversa de hoje:  No encontro anterior, aprendemos que o poder vem de Deus e ele quer que seja usado para a defesa e a promoção da vida. Um poder que oprime, manipula impede que o outro tenha vida digna é contrário ao projeto do Deus da vida.

 

No encontro de hoje  iremos ver que na sociedade atual, há muitos ídolos que geram a morte das pessoas. O mercado va­loriza quem produz lucro. Vivemos em uma sociedade que fabrica ídolos, para manter seus interesses de poder, manipular e oprimir o povo. Entre setembro de 2016 e setembro de 2017, 82% de toda a riqueza mundial estão nas mãos de 1% da população, enquanto a metade mais pobre, cerca de 3,7 bilhões de pessoas, não foi beneficiada com nenhum aumento. No Brasil, o número de bilionários também cresceu, passando de 31 para 43. Hoje, cinco bilionários brasileiros têm patrimônio equivalente ao da metade mais pobre da população do país. Ao mes­mo tempo, o mundo presencia que atualmente existem 815 milhões de pessoas subnutridas, o que significa que uma em cada seis pessoas não tem alimentação suficiente para ser saudável e manter uma vida ativa. E, a cada seis segundos, uma criança morre por causa da fome ou de doenças relacionadas.

 

 

No Egito, os governantes e os poderosos promoviam a religião oficial. Eles fabricavam ídolos e promoviam seus cultos para fins lucrativos, alienando, explorando e escravizando o povo. Por isso, o autor do livro da Sabedoria condena o culto aos ídolos, ou seja, a religião dos governantes. De que forma a nossa fé nos ajuda a rejeitar os ídolos que a sociedade de hoje nos impõe?

 

Situando o texto, Na Bíblia, há muitas críticas contra o uso da religião e de seus ídolos pelas auto­ridades dos Estados para promover e aumentar seus poderes e riquezas. Por exemplo, o profeta Oseias, que atuou entre os anos 750-724 a.C., denuncia a tirania do Estado: “Nomearam reis sem meu consentimento, escolheram príncipes sem eu ficar sabendo. Com sua prata e ouro fizeram ídolos para sua perdição” (Os 8,4). Em Alexandria, o povo judeu resiste ao uso da religião, para legitimar a opressão e os interesses do Estado. No livro da Sabedoria, nos capítulos 13-15, há um longo tratado sobre a idolatria. O autor afirma que a religião dos governantes, com seus ídolos, é o princípio da cor­rupção: "De fato, eles não existiam desde o início, nem existirão para sempre. Entraram no mundo pela vaidade dos seres humanos, e por isso está decretado o rápido fim deles” (14,13-14).

 

 

2- Abra a sua bíblia, leia Sb 15,7-19 e responda as seguintes perguntas..

Por que a vida do oleiro tem menos valor que o barro?

Qual a diferença entre o Deus da vida e os ídolos?

Quais as ideias que contaminaram a comunidade e que o autor está combatendo?

 

Situando o texto: Fabricantes de ídolos para fins lucrativos na história de Israel

O historiador deuteronomista descreve a obra do rei Josias: Josias eliminou também os que evocam os mortos, os adivinhos, os deuses domésticos, os ídolos e todas as abominações que se viam na terra de Judá e em Jerusalém, para cumprir as palavras da Lei escritas no livro que o sacerdote Helcias encontrou na Casa de Javé (2Rs 23,24; cf. 2Cr 34,7).

 

Por volta do ano 620 a.C., o rei Josias executou a reforma nacionalista e expansionista para fortalecer e aumentar a riqueza e o poder (2Rs 22-23). O principal programa era consolidar o templo de Jerusalém, esta­belecendo-o como único local de culto em todo o Israel, colocando Javé como a divindade oficial, oprimindo e destruindo os santuários do interior, centro religioso, so­cial e econômico dos camponeses e até matando pessoas. Para isso, combateu e condenou as outras divindades, seus cultos e suas imagens como “falsas”, ou seja, “ídolos”, até “os deuses domésticos”, muito difundidos e cultuados nas famílias e aldeias camponesas.

 

Intolerância, condenação e perseguição contra outras religiões e divindades também fazem parte da realidade experimentada em nossa sociedade. Basta re­cordar algumas notícias nos meios de comunicação, por exemplo: “Ataque reivindicado pelo El (Estado islâmico) mata padre em Igreja na França”; “Vítima de intolerância religiosa, menina de 11 anos é apedrejada na cabeça após festa de candomblé” etc. Até hoje, os fundamentalistas do cristianismo, do islamismo e de outros grupos condenam, como “idolatria", outras religiões, suas imagens, seus cultos e templos. E, no cristianismo, essa condenação é muitas vezes legitimada pela leitura fundamentalista da Bíblia, que contém textos referentes a imagens.

 

Porém, muitos desses textos não são condenações contra as imagens em si. Mas sim crítica contra a religião, seus cultos e imagens que são utilizados para legitimar e fortalecer o poder. Por exemplo, Ex 20,23 diz: “Não façam junto de mim deuses de prata, nem façam para vocês deuses de ouro”. Ou ainda: "Se você construir um altar de pedra para mim, não o faça com pedras lavra­das, pois assim você estaria profanando a pedra com a ferramenta” (Ex 20,25).

 

A proibição das imagens é uma crítica contra a reli­gião do Estado. No tempo da formação de Israel (1250- 1010 a.C.), os deuses de prata e de ouro, e os altares de pedras lavradas eram característicos na religião dos reis de Canaã e do faraó do Egito, que exploravam os cam­poneses. As imagens eram utilizadas para legitimar seus poderes.

 

 No tempo da monarquia, os profetas continuam as críticas contra o uso da religião pelas autoridades do Es­tado, para promover e aumentar seus poderes e riquezas. Por exemplo, o profeta Oseias, que atuou no Reino do Norte, entre os anos 750-724 a.C., denunciou: “Nomearam reis sem meu consentimento, escolheram príncipes sem eu ficar sabendo. Com sua prata e ouro fizeram ídolos para sua perdição” (Os 8,4).

 

 O tempo de Oseias coincidiu com a ascensão da As­síria, que provocou conflitos e intrigas na corte de Israel; um favorável e outro contrário à Assíria. Desde a morte de Jeroboão II (743 a.C.) até a queda de Samaria (722 a.C.), Israel teve seis reis, quatro deles assassinados. Com ganância, cada governante procurou seu poder e seus bens, provocando violência, corrupção e assassinatos: “Há juramento falso e mentira, assassínio e roubo, adul­tério e violência, e sangue derramado se ajunta a sangue derramado” (Os 4,2).

 

Conforme a crítica profética, as autoridades usaram da religião para legitimar a corrupção, a exploração e a tirania do Estado. Apropriaram-se até mesmo da religião popular das aldeias, transformando seus cultos e imagens num meio de alienação e exploração: "O vinho e o licor tiram a razão. Meu povo consulta um pedaço de madeira, e seu bastão lhe dá uma resposta, porque um espírito de prostituição os extravia e eles se prostituem, afastando- -se do seu Deus” (Os 4,11-12). “O pedaço de madeira” se tornou uma imagem da idolatria do Estado!

 

No tempo do exílio, quem acusa e critica as autori­dades da Babilônia pelo uso da religião para promover e legitimar o poder e a exploração é o grupo do Segundo Isaías (Is 40-55). A mensagem desse grupo se dirige às pessoas deportadas, exploradas e enfraquecidas da se­gunda deportação (587 a.C.): “Ele dá ânimo ao cansado e recupera as forças do enfraquecido” (Is 40,29).

 

 Estes deportados não tiveram a mesma sorte do primeiro grupo exilado na Babilônia, em 597 a.C.: foram tratados como escravos e despojos de guerra. A Babilônia “não teve compaixão para com ele: até sobre os velhos impôs o duro peso” (Is 47,6). “Os pobres e os indigentes buscam água, e nada! Sua língua está seca de sede” (Is 41,17). Os deportados levam uma vida de prisioneiros es­cravos na terra de Marduc, o Deus supremo da Babilônia.

 

 Na Babilônia, a religião é estruturada no panteão, lugar onde Marduc subjuga os deuses de diversas cidades com seus santuários, como no campo político, no qual a capital do reino, com seu imperador (filho de Marduc), subjuga e explora os povos das províncias, das cidades e dos campos, inclusive os deportados provindos dos países conquistados.

 

Assim explica-se, em parte, por que o Segundo Isaías critica as estátuas e imagens de Marduc e as de outras divindades, fabricadas pelos “homens”: Os fabricantes de estátuas são todos um nada e suas coisas preferidas não têm valor. Seus devotos nada veem nem conhecem, e por isso acabam sendo en­ganados. Quem formaria um deus ou fundiría uma imagem, senão para conseguir alguma vantagem? Vejam: seus devotos todos são enganados, porque os escultores não são mais que homens. Que eles todos se reúnam para comparecer: ficarão apavorados e envergonhados (Is 44,9-11).

 

 A profecia do Segundo Isaías situa-se nos últimos anos do exílio da Babilônia, por volta de 540 a.C. Já pas­saram mais de quatro décadas de exílio. Sofrimento e cansaço! À medida que perdura o exílio, cresce o número dos deportados que abandonam a religião de origem e assumem os costumes e a religião da Babilônia: Marduc, o panteão babilônico, seus cultos e suas imagens. E a “idolatria” que seduz, aliena e explora o povo. Essa deve ter sido a principal preocupação e crítica do Segundo Isaías: “Eles não sabem e não entendem, porque seus olhos estão grudados para não ver, e sua inteligência não pode mais compreender” (Is 44,18).

 

O livro de Daniel, escrito no segundo século a.C., também descreve e discute os ídolos e estátuas de deuses: O rei Nabucodonosor mandou fazer uma estátua de ouro com trinta metros de altura por três metros de diâmetro. E a colocou na planície de Dura, província da Babilônia. Quando ouvirem o som da trombeta, [...] todos devem cair de joelhos para adorar a estátua de ouro erguida pelo rei Nabucodonosor. Quem não o fizer, será jogado na mesma hora dentro da fornalha ardente (Dn 3,1.5-6).

 

 Historicamente, o texto se refere às imagens, estátu­as, sobretudo ao altar de Zeus (Júpiter) Olimpo, chamado pelos judeus piedosos de "abominação da desolação (1 Mc 1,54), colocado no templo de Jerusalém, com a política da helenização de Antíoco IV, imperador dos selêucidas. Ele invadiu, saqueou e conquistou Jerusalém, tentando transformar a cidade empólis grega (Cidadela), por volta de 170 a.C. A implantação da sua cultura e religião com seus ídolos” foi um meio para legitimar e fortalecer o domínio dos gregos (cf. 1Mc 1-2).

 

Com visões, sonhos e contos populares, o livro de Daniel descreve a resistência e a esperança do povo judeu, oprimido e perseguido pelo imperador Antíoco IV e seus generais selêucidas. A primeira parte do livro (Dn 1-6) contém uma crítica irônica contra a idolatria e mostra a resistência e a fidelidade dos justos (Daniel e seus compa­nheiros). A segunda parte (Dn 7-12) narra quatro visões apocalípticas, que mostram a vitória final de Deus sobre os perseguidores gregos, dando ânimo e coragem para o povo judeu fiel à Lei e à religião dos pais.

 

 A resistência do povo judeu à insensatez dos ídolos utilizados pelos governantes perseguidores também acontece na cidade de Alexandria, no Egito. No livro da Sabedoria, o autor, piedoso e fiel à educação religiosa recebida dos pais (2,12), critica a idolatria e a imora­lidade dos ímpios "gentios” que oprimem e perseguem os judeus justos. Sb 15,7-19, por exemplo, descreve a idolatria utilizada para fins lucrativos e políticos dos opressores.

 

Abusar da ingenuidade do povo e do seu sentimento religioso com fins lucrativos é dia­bólico. É perverso. É preciso resistir contra essa mani­pulação religiosa em nome de Deus. A religião, que não torna a pessoa humana mais sensível e mais solidária, é idolatria. Que possamos ter discernimento profético e sabedoria, para rejeitarmos toda e qualquer forma de religião que oprime.

 

Quais as consequências de usar o nome de Deus para manipular as pessoas?

Como podemos nos manter fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo?

Como vivenciamos o amor e a misericórdia do Deus da vida em nossa família, comunidade e sociedade?

 

Comentando o texto: Sb 15,7-19 - O ser humano tem a vida por empréstimo

O autor do livro da Sabedoria apresenta um longo tratado contra a idolatria, o texto bíblico mais extenso: Sb 13-15. Nele, o autor evidencia o objetivo da “invenção” dos ídolos: “O princípio da prostituição está na invenção de ídolos; a descoberta deles trouxe a corrupção da vida. De fato, eles não existiam desde o início, nem existirão para sempre. Entraram no mundo pela vaidade dos seres humanos, e por isso está decretado o rápido fim deles” (14,12-14).

 

 Para o autor, judeu alexandrino e fiel ao Deus único Javé, o ídolo, imagem em grego, é uma reprodução de alguma coisa ou pessoa, feita pela “vaidade” dos seres humanos, movidos pelo helenismo: a busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra. E o “princípio da pros­tituição”, ou seja, a infidelidade a Javé, produzindo a “corrupção da vida”: a injustiça, a exploração e a opressão do povo.

 

 No Egito, especialmente em Alexandria, os cultos idolátricos estavam em toda parte, incluindo a adoração dos próprios animais vivos. Os animais no Egito Antigo eram considerados a encarnação de deuses. Alguns deuses e deusas foram identificados com animais específicos. Por exemplo, o deus dos céus, chamado Hórus, foi mostrado com a cabeça de Falcão, e a deusa Sekmet, com a cabeça de uma leoa feroz por ser a deusa da guerra.

 

 E a deusa ísis, uma das principais divindades da mitologia egípcia, podia se transformar num falcão com asas que tinham poder de ressuscitar mortos. Seu culto transcendeu as fronteiras do Egito e se estendeu por todo o universo greco-romano. Hoje, a arqueologia comprova vestígios do culto de ísis em templos e monumentos piramidais em todas as partes de Roma.

 

Em Alexandria, não só o culto ao imperador (14,15-31), mas também o culto aos deuses e às deusas, representados por animais, alienavam e corrompiam as pessoas para fins lucrativos e políticos dos impera­dores gregos e romanos. Vivendo em meio aos egípcios de Alexandria, o autor conhecia bem a insensatez dos ídolos e o uso deles para praticar todo tipo de injustiça e perversidade. Em Sb 15,7-19, ele observa e analisa esse fenômeno social e religioso e reitera suas criticas aos fabricantes dos ídolos em paralelo à fabricação das imagens em madeira (13,10-19).

 

 Antes de tudo, o autor observa que o fabricante dos ídolos, chamado “oleiro”, amassa a argila e fabrica vasos úteis para vários fins, e também uma “divindade falsa”. Ele próprio, modelado por Deus Criador, agora modela divindades: “ele que há pouco tinha nascido da terra e em breve para ela há de voltar quando lhe for tirada a vida que recebeu por empréstimo” (15,8). A vida é criada pela gratuidade de Deus para o bem comum de todos. Mas o fabricante dos ídolos não reconhece seu Criador: “porque não reconhece Aquele que o modelou, que lhe infundiu uma alma ativa e lhe inspirou um sopro vital” (15,11; cf. Gn 2,7).

 

 Qual é a razão de não reconhecer o Deus Criador? A finalidade da fabricação dos ídolos não é guiada pelo sopro da gratuidade, mas sim pela ganância do lucro: “Ele considera que nossa existência é um jogo, e a vida seria algo lucrativo. Ele diz: ‘É preciso aproveitar-se de tudo, até o mal’. Realmente, mais do que todos os outros, ele sabe que está pecando, fabricando, de matéria terrena, tanto vasos frágeis como estátuas de ídolos” (15,12-13; cf. 14,2)

 

 Novamente, o autor retoma o pensamento do ím­pio em Sb 2: "Nossa vida é breve”; "Porque nascemos do acaso e depois seremos como se não tivéssemos existido”; “Nosso tempo é a passagem de uma sombra e não há retorno após nossa morte”; "Vamos então desfrutar dos bens existentes e usar das criaturas com ardor juvenil” (2,1.2.6). Para o ímpio, que não reconhece o Deus Criador e não tem a esperança numa vida futura, o único sentido da vida consiste em aproveitá-la ao máximo, até mesmo com extravagância, buscando unicamente seu “lucro” econômico, social e político.

 

No afã de satisfazer seus interesses, o ímpio pratica injustiças. É o mesmo que dizer que se deve aproveitar o máximo possível, inclusive explorando e oprimindo o pobre e a viúva (2,7-11). Na visão do autor, o ímpio é consciente de suas ações: "Realmente, mais do que todos os outros, ele sabe que está pecando, fabricando, de ma­téria terrena, tanto vasos frágeis como estátuas de ído­los” (15,13). Para fins lucrativos, o fabricante de ídolos não hesita em "pecar”, ou seja, praticar a manipulação, a opressão e a injustiça contra o povo: “Os inimigos, porém, que oprimiram teu povo, são todos insensatos e mais infelizes que a alma de uma criança” (15,14). Como crianças sem juízo (12,24-25), eles exploram a ingenuidade do povo. Manipulam a sua religiosidade. Oprimem os opositores em nome de deuses. Coisas de ontem e de hoje.

 

 A manipulação dos inimigos chega ao ponto extre­mo: "eles consideram deuses todos os ídolos das nações” (15,15), incluindo o culto aos mais odiosos animais: “pres­tam culto até aos mais repugnantes animais, aos que são mais brutos quando comparados a outros. Todos esses nada têm de beleza que os torne atraentes, se compara­dos com os outros animais, e ficaram sem a aprovação e bênção de Deus” (15,18-19).

 

 Repugnantes animais: o culto a serpentes ou dragões é prática bem conhecida no Egito (11,15; 12,24) e bem presente nos cultos do mundo greco-romano (Rm 1,23). Na história de Bel e o dragão, no livro de Daniel, o dragão é ridicularizado por ser o objeto do culto dos governos gregos. No livro do Apocalipse, o dragão é adorado por ter dado autoridade à Besta, imperador romano (Ap 13). Se­gundo Gn 1-2, os animais recebem a "aprovação e bênção” de Deus. Ao contrário, a serpente recebe maldição, por ter manipulado e enganado o ser humano (Gn 3,14; cf. Is 65,25). Em Alexandria, os governantes utilizam inclusive o culto a esses animais repugnantes e amaldiçoados para produzir a manipulação e a opressão.

 

Daí a crítica do autor aos ídolos chega ao ponto mais alto: "Os olhos desses ídolos não conseguem ver, o nariz deles não respira, os dedos de tais mãos não apalpam e os pés deles não são capazes de andar. Foi um ser humano que os fez" (15,15-16a). Os ídolos não passam de imagens que, na verdade, não têm olhos, ouvidos, boca, mãos, dedos nem pés. Nem são capazes de escutar e atender as orações dos fiéis no culto.

 

 A crítica semelhante está bem presente no Antigo Testamento: "O nosso Deus está nos céus, e ele fez tudo o que desejou. São de prata e ouro os ídolos deles, e foram feitos por mãos humanas: esses têm boca e não falam, têm olhos e não veem; têm ouvidos e não escutam, têm nariz e não cheiram; têm mãos e não apalpam, têm pés e não andam, nem sua garganta produz sussurro algum. Iguais a eles são aqueles que os fabricam, todos aqueles que neles confiam” (SI 115,3-8; cf. Sl 135,16-17). Ao con­trário da experiência do Deus do Êxodo.

 

No segundo século a.C., lemos na história de Bel e o dragão, em Daniel: "Um dia o rei lhe perguntou: 'Por que você não presta culto a Bel?’. Daniel respondeu: ‘Porque eu não adoro imagens fabricadas pelo homem, mas só ao Deus vivo que criou o céu e a terra, e é Senhor de todo ser vivo’. O rei disse: ‘E você acha que Bel não é um deus vivo? Não vê quanta coisa ele come e bebe todos os dias?’. Daniel sorriu e disse: ‘Não se deixe enganar, ó rei! Por dentro, Bel é de barro e por fora, é de bronze; ele jamais comeu e bebeu coisa alguma”’ (Dn 14,5-7).

 

Subjaz a esses textos o pensamento do autor: Deus Javé é o único Deus Criador e Salvador. Ele é fonte da vida. Criou o próprio ser humano que é mortal e não pode criar um deus: “Nenhum ser humano pode modelar um deus que lhe seja semelhante. Pois, sendo mortal, só é capaz de produzir, com as próprias mãos, um cadáver. De fato, ele é superior aos objetos que adora: pelo menos ele tem vida, os ídolos nunca a terão” (15,16-17).

 

 Uma fortíssima condenação aos ídolos: “cadáver” (13,10.18; 14,15; 15,5). O mesmo termo “cadáver”, nekrós em grego, é aplicado ao ímpio (4,19) e aos egíp­cios (18,12.23; 19,3). Para o autor, o Faraó, os egípcios e seus ídolos são “ímpios” e “cadáveres”, enquanto Javé é o “deus vivo” e o libertador dos oprimidos. Ele castiga os ídolos com seus autores, ímpios: “O ídolo feito por mãos humanas é amaldiçoado, e também aquele que o fez: este, porque o preparou; e a coisa corruptível, por­que lhe deram o nome de deus. Tanto o ímpio quanto a impiedade são da mesma forma desagradáveis a Deus. De fato, a obra será punida iuntamente com seu autor” (14,8-10).

 

Aprofundando: Devolvam a César o que é de Cés

O imperador Cláudio escreveu uma carta para os alexandrinos, em 41 d.C., na qual ele afirma: Em primeiro lugar, permito-te manter meu aniversário como dia sagrado, como o pediste, e permito-te erigir...uma estátua representando a mim e à minha família... (citado por Richard A. Horsley, 2004, p. 31).

 

O culto ao imperador se espalhou pela Grécia, pela Ásia Menor e por outras partes do Império Romano. Por meio de sacrifícios, rituais, jogos públicos e festas, eram celebrados “a supremacia do imperador e os benefícios da ordem imperial”. O imperador era honrado e adorado entre os grandes deuses, para efetuar o poder e a domi­nação em forma religiosa.

 

 Em todo o Império, por exemplo, as moedas, com imagens divinas de Augusto, Tibério, Caligula e Cláudio, eram cunhadas e utilizadas para favorecer e garantir o comércio, o lucro e um amplo aparato administrativo imperial. Em uma moeda descoberta na cidade de Salônica (nome atual de Tessalônica), Caligula aparece com véu de sacerdote, sacrificando um touro no templo do Divino Augusto, considerado a divindade da dinastia dos imperadores! E a sacralização da imagem do imperador César para dominação e fins lucrativos.

 

Na palestina do tempo de Jesus, o Império Romano, junto com os reis herodianos, promoveram a helenização, concretizada na construção da Decápolis (dez cidades) com uma boa infraestrutura, para favorecer a adminis­tração, o comércio e a segurança. Na helenização, não faltou a fabricação e o uso da moeda com a imagem e a inscrição do nome do imperador. O denário, denarius em latim, moeda romana, era utilizado nas transações comerciais na época de Jesus e era a única moeda válida para o pagamento de impostos.

 

 Uma das maiores causas do empobrecimento dos camponeses, que constituíam 90% ou mais da população da Palestina, era a exigência de pagamento de impostos. Os judeus eram obrigados a pagar para os romanos o imposto sobre 25 a 30% das colheitas, o pedágio para articulação de pessoas e mercadorias, e a dedicar um tem­po de trabalhos forçados para as tropas e para as obras públicas. Existiam também os impostos do Templo: vários dízimos, ofertas de sacrifício, imposto pessoal, estipula­do em um denário etc. Era comum presenciar famílias inteiras sendo vendidas como escravos devido às dívidas.

 

Nessa situação de exploração que oprime a vida e desfigura a pessoa humana, Jesus denuncia a imagem do imperador como idolatria, no episódio do pagamento do imposto a César: Jesus, porém, conhecendo a hipocrisia deles, disse--lhes: “Por que vocês me põem à prova? Tragam-me uma moeda, para que eu a veja". Eles a levaram, e Je­sus perguntou: “De quem é esta imagem e inscrição ? ”. Responderam-lhe: “De César”. Então Jesus lhes disse: “Deem a César o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus" (Mc 12,15-17).

 

 Jesus entra em controvérsia com os fariseus e herodianos. Estes eram responsáveis pela cobrança do impos­to civil e aqueles, pelo imposto religioso. Eles perguntam se era necessário pagar impostos (denários) a César. No tempo de Jesus, o denário trazia a imagem do imperador Tibério (14-37 d.C.) e a inscrição “César Augusto Tibério, filho do Divino Augusto". César era adorado como deus. Pagar o imposto seria reconhecer a divindade do impe­rador e a soberania romana sobre a terra.

 

 Diante da armadilha, Jesus parte para a ofensiva contra aqueles que se beneficiam com o Império Roma­no e sua idolatria. Primeiro, a pergunta “de quem é esta imagem e inscrição?”. Trata-se de um desconhecimento? Ou de uma desautorização de Jesus contra o poder de César? Sem dúvida, Jesus conhecia o denário, uma pe­quena moeda de prata bem utilizada no seu tempo. Por que Jesus faz questão de perguntar? Porque ele rejeita publicamente reconhecer a imagem e a inscrição do im­perador como deus.

 

Segundo, Jesus responde: “Dai a César o que é de Cesar”. Se o imperador Tibério manda cunhar o denário com a sua imagem, devolvam-lhe o que lhe pertence. Mas proclama: “a Deus, o que é de Deus”, dizendo que se devolva a Deus o que lhe foi tirado: a vida do povo. Em meio à realidade da vida massacrada e machucada do seu povo da Galileia, Jesus denuncia a idolatria - isto é, o uso do nome de Deus para poder e fins lucrativos do Império - em situações que exploram e oprimem o povo vocacionado a ser imagem e semelhança do Deus da vida.

 

 O tema da crítica à idolatria e aos ídolos continua presente nos escritos dos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré.

 

Paulo: “Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe agradeceram. Ao invés disso, tornaram-se vazios em seus pensamentos, e seu coração insensato ficou na escuridão. Vangloriando-se de ser sábios, tornaram-se tolos, e trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens de seres humanos corruptíveis, de aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1,21-23). Paulo analisa e critica a vida dos gentios de Roma, capital do Império: "Realmen­te, do alto do céu se manifesta a ira de Deus contra toda impiedade e injustiça daqueles que com a injustiça sufocam a verdade” (Rm 1,18). Esse é o problema maior da idolatria: a injustiça e a sacralização de objetos, animais, pessoas, colocando-os no lugar do Deus da vida, em busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra (Rm,24-27). A imagem do imperador Nero como o filho de Deus, por exemplo, justifica e susten­ta a perversidade da sociedade escravagista: a submissão e a desumanização dos escravos que representam quase 70% de um milhão de habitantes de Roma.

 

A comunidade joanina: “Nós sabemos que somos de Deus, mas o mundo inteiro está sob o poder do Maligno. Sabemos que o Filho de Deus veio e nos tem dado entendimento para conhecermos o Deus verdadeiro. E nós estamos no Verdadeiro, no Filho dele, Jesus Cristo. Este é o Deus verda­deiro e a vida eterna. Filhinhos, fiquem longe dos ídolos” (Uo 5,19-21). O autor da primeira carta denuncia o poder do Maligno (mal, diabo, Anticristo, mundo) que se apresenta como deus e controla o mundo inteiro pelo desejo desen­freado de possuir o poder e a riqueza. O falso deus se personifica nos ídolos, que produzem escravidão e morte no lugar de liberdade e vida que o Deus verdadeiro realiza em seu Filho, Jesus Cristo. Para a comunidade joanina, o principal maligno seria o Império Romano que, com seus ídolos, aliena e explora o povo e persegue seus opositores, como os cristãos (cf. lJo 2,12-17; Jo 15,18-21).

 

 

Apocalipse: “Ela (Bestinha) recebeu a permissão de infundir espírito na imagem da primeira Bes­ta, para que esta imagem pudesse falar. E ainda: podia fazer com que todos os que não adorassem a imagem da primeira Besta fossem mortos” (Ap 13,15). A Besta, a encarnação do mal (Dragão), é a imagem do poder tirano do Império Romano. As bestinhas, os governadores, profetas e sacerdotes do Império, eram encarregados de “infundir”, propagar e alienar todos os habitantes da terra, para que eles adorassem a Besta e aceitassem seu governo, como se este viesse de Deus. Quem não aceita a idolatria da Besta não tem participação plena na sociedade, nem para vender nem para comprar: “Assim, ninguém pode comprar nem vender, a não ser que tenha a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome (666)” (Ap 13,17). A idolatria é tão forte e absoluta, que as pessoas, como os cristãos, são perseguidas e mortas, por não aceitarem a Besta (Ap 13,9-10).

 

 

O movimento cristão combateu os ídolos do Império Romano como deuses falsos de exploração e opressão. Desmascarou e denuciou os poderes que se absolutizaram, tomando o lugar do Deus da vida, e escravizaram os homens. Na luta contra a idolatria, muitas vidas fo­ram ceifadas, como aconteceu com os justos do Antigo Testamento: “O justo perece e ninguém se incomoda, os homens piedosos são ceifados, sem que ninguém tome conhecimento. Sim, o justo foi ceifado, vítima da malda­de" (Is 57,1; cf. Ap 11,1-13).

 

As críticas persistentes dos autores da Bíblia contra a idolatria do seu tempo devem nos levar a desmascarar e denunciar a idolatria de hoje. O Deus da vida jamais justifica a opressão e a exploração de ninguém. Como se pode dizer que é cristã uma sociedade na qual os deten­tores ambiciosos da economia, da política e da religião fabricam ídolos que devoram o povo? Em que sentido é cristã uma ação evangelizadora que não denuncia a alienação e a exploração?

 

 Bênção final Peçamos ao Deus da Vida que derrame sobre nós a sua bênção. Que possamos compreender que recebemos o sopro vital por empréstimo e somos responsáveis por manter, de maneira digna, a nossa vida e a vida de nossos irmãos e irmãs. Deus Pai de ternura e de unidade nos abençoe hoje e sempre.