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3ª Aula: Assumir os risco (Sb 1,16-2,20)
3ª Aula: Assumir os risco (Sb 1,16-2,20)

1-Motivando aula de hoje:  Como pessoas cristãs, temos o compro­misso de assumir e defender a vida ameaçada. Que Deus Pai nos dê a graça de assumir o nosso seguimento de Jesus e nos comprometer com o seu projeto de vida plena para todas as pessoas.

 

Na aula anterior, refletimos sobre a Sabedoria e a presença do Espírito de Deus no universo. Com a comunidade de Alexandria, entendemos que Deus não compactua com a injustiça e o pecado. No encontro de hoje, vamos refletir sobre as consequências de viver a justiça em uma sociedade injusta. O tema de hoje é: Assumir os riscos de uma vida segundo a justiça.

 

As pessoas que reivindicam seus direitos continuam sendo ameaçadas e eliminadas. Con­forme os dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra), Colniza, no Mato Grosso, em abril de 2017, nove posseiros e agricultores foram executados. Em Pau D’Arco, no Pará, em maio do mesmo ano, dez trabalhadores rurais foram assassinados. Em Vilhena, Rondônia, três trabalhadores rurais foram mortos. No dia 24 de janeiro de 2018, um líder do MST foi assassinado em Iramaia, na Chapada Diamantina, interior da Bahia. Foram mortos por lutar pela reforma agrária.

 

Em 2017, 65 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo. Basta! Chega de mortes e vio­lências no campo e na cidade. O projeto de Deus é vida plena para todas as pessoas. Em pequenos grupos, vamos conversar sobre a nossa vida e como somos solidárias com as pessoas que sofrem por lutar por seus direitos.

 

2- Ler o texto. Abra a sua biblia, leia Sb 1,16-2-20 e responda as seguintes perguntas.

1)  Destaque algumas frases que retratam o pensa­mento dos ímpios.

2) Por que os justos são perseguidos pelos ímpios?

3) Por que o ímpio não acredita na imortalidade?

 

2.1 - Situando o texto: O ímpio, o justo e o pobre

Na literatura sapiencial, o termo ímpio ocorre com mais frequência e aparece em oposição ao justo e ao pobre:

 

  1. “O ímpio faz intriga contra o justo, e contra ele range os dentes. [...] Os ímpios desembainham a espada, preparam o arco para fazer cair o pobre e o indigente, para assassinar o homem reto em seu caminho" (Sl 37,12-13);

 

  1. “Os ímpios diziam a Deus: 'Afasta-te de nós. O que poderia fazer-nos Shadai?’ Mas Deus tinha enchido a casa deles de bens. Que o conselho dos ímpios se afaste de mim. Os justos verão e se ale­grarão, o inocente zombará deles (Jó 22,17-19);

 

  1. “O caminho dos justos brilha como a aurora, e sua luz vai ficando mais forte até o nascer do dia. O caminho dos ímpios é escuro. Eles não sabem no que irão tropeçar” (Pr 4,18-19).

 

Nesses provérbios, o ímpio está em oposição ao justo e ao pobre, e os explora e oprime. Ele pratica o mal e está longe de Deus: “O orgulho do ímpio se acende contra o humilhado. Mas que sejam apanhados nas intrigas que planejaram. Por que o ímpio se orgulha da ambição de sua alma, e o homem ambicioso blasfema contra Javé? O ímpio é arrogante de rosto e incapaz de refletir: Deus não existe! Tudo não passa de devaneios” (Sl 10,2-4).

 

Na realidade, apesar de viver longe de Deus, o proje­to do ímpio vai bem e ele vive melhor do que os outros. Ele mesmo declara: "Jamais vacilarei. De geração em geração, nunca sofrerei calamidade” (Sl 10,6). Pratica tranquilamente a falsidade e a perversidade contra o justo e o pobre: “Eis que sua boca está cheia de enganos e fraudes, sua língua esconde maldade e opressão. Ele fica de tocaia no curral, em lugares secretos, para matar o inocente” (Sl 10,7-8).

 

Diante dessa realidade, o justo e o pobre têm até inveja: “Quanto a mim, por pouco meus pés tropeçavam, quase dei um passo em falso, porque senti inveja dos arrogantes, vendo a prosperidade dos ímpios. Pois para eles não existem sofrimentos, até ao morrer seus corpos são robustos e sadios. A fadiga dos mortais não os atinge, nem conhecem a aflição dos outros homens. Por isso seu colar é o orgulho, e se cobrem com as vestes da violência” (Sl 73,2-6; cf. Jó 21,1-13).

 

Há um fato, porém: “O salário do justo conduz para a vida, mas o ganho do ímpio leva ao pecado” (Pr 10,16); “É boa a riqueza em que não há pecado; mas, na opinião do ímpio, a pobreza é má” (Eclo 13,24). A injustiça social, a violência e o ganho ilícito da riqueza, praticados pelos ímpios, tanto no campo como na cidade, são testemu­nhados pelos livros proféticos e sapienciais.

 

No livro de Jó, por exemplo, lemos: “Os ímpios mudam os marcos das divisas, roubam os rebanhos e os levam a pastar. Levam embora o jumento que pertence ao órfão, e penhoram o boi que é da viúva. Eles desviam os indigentes para fora do caminho, e todos os pobres da terra têm de se esconder. Como asnos selvagens no deserto, eles saem para o trabalho; desde o amanhecer vão em busca de alimento, e a estepe dá pão para seus filhos. Fazem a colheita no campo, e recolhem as sobras na vinha do ímpio" (Jó 24,2-6). Uma realidade de injustiça social e violência no campo e na cidade!

 

É dentro desse contexto que se entende a insistência da literatura sapiencial: Deus premia o justo e julga e castiga o ímpio! Essa forma de pensar está em continui­dade com a tradição profética do “dia de Javé” (Am 5,18):

 

- "Veja: Deus é poderoso e não despreza o poder do coração. Ele não deixa o ímpio viver, e faz justiça aos pobres. Ele não tira seus olhos dos justos, mas os faz sentar para sempre no trono dos reis, e são exaltados” (Jó 36,5-7);

 

- “Tesouros injustos não trazem proveito, mas a justiça livra da morte. Javé não deixa o justo passar fome, mas reprime a ambição dos ímpios” (Pr 10,2-3);

 

- "Vi o ímpio triunfante espalhar-se como árvore nativa e frondosa. Mas passou, e eis que já não existe; procurei-o, e não mais o encontrei. Obser­ve o íntegro, veja o homem direito, porque existe uma descendência para o homem pacífico. Quan­to aos culpados, serão destruídos todos juntos, e a descendência dos ímpios será cortada” (Sl 37,35-38);

 

- "Humilhe-se profundamente, porque o castigo do ímpio é fogo e vermes”; "Não se alegre com a felicidade dos ímpios. Lembre-se de que eles não ficarão impunes antes de chegarem à morada dos mortos”; “O próprio Altíssimo detesta os pecado­res, e inflige aos ímpios o castigo merecido” (Eclo 7,17; 9,12; 12,6).

 

Tudo isso está muito presente no livro da Sabedoria, escrito em Alexandria, no Egito, um centro importante do judaísmo helenístico. O tema do ímpio (injusto) contra o justo e o pobre já aparece no primeiro discurso dos ímpios (1,16-2,20): “Vamos oprimir o pobre e o justo, e não poupar as viúvas ou respeitar os cabelos brancos do ancião. Nossa força seja a lei da justiça, pois o fraco é inútil, não há dúvida” (2,10-11).

 

A opressão e a perseguição do ímpio contra o justo são tão grandes que provocam a morte prematura do justo: “O justo, porém, ainda que morra cedo, terá des­canso” (4,7). Porém, o autor do livro afirma que a morte prematura do justo não é desejada por Deus (4,10-11), mas, sim, causada pela perseguição, tortura e violência aplicadas pelos ímpios (2,10-20).

 

E a morte prematura do justo toma-se até julga­mento condenatório dos injustos: “O justo que morre condena os ímpios que vivem, e a juventude que logo se aperfeiçoou condena a velhice do injusto. Os injustos verão o fim do sábio e não entenderão o que o Senhor queria dele, nem por que o deixou na segurança. Verão e desprezarão, mas o Senhor rirá deles. E depois disso, se­rão para sempre cadáveres desonrados e infâmia entre os mortos, porque Deus os derrubará de cabeça para baixo, sem que possam dizer palavra alguma, e serão arrancados de seus alicerces” (4,16-19). O dito sapiencial se repete: Deus premia o justo e julga e castiga o ímpio (4,20-5,23).

 

Agora, quem são os ímpios do livro da Sabedoria? O autor não fornece informação concreta para identificar esses ímpios. Eles podem ser os governantes gregos? Os romanos? Os egípcios? Os judeus apóstatas? Todavia, há uma afirmação: eles oprimem e perseguem os justos pela implantação da cultura grega.

 

Relendo os livros escritos no tempo grego, sobretudo no período mais próximo ao livro da Sabedoria, podemos perceber o uso do termo ímpio para aquele que promove a implantação da cultura grega (helenismo):

 

a) Primeiro livro dos Macabeus: O livro, compilado pelos asmoneus -descendentes dos Macabeus, entre os anos 100 e 63 a.C., utiliza o termo ímpio para os gregos (lMc 3,8.16) e os judeus heleniza- dos: “Alguns homens iníquos e ímpios do povo de Israel” (lMc 7,5). O autor descreve os atos “profanos" dos gregos, como o rei Antíoco Epífanes, e acusa os judeus helenizados de forçarem os judeus fiéis a Javé a adotar os costumes e a cultura dos gregos (cf. lMc 1-3);

 

b) Segundo livro dos Macabeus: Livro composto pouco antes de 124 a.C. pelos piedosos contra os asmoneus; nele, também aparece o termo ímpio: "Era o auge do helenismo, a exaltação do modo de viver dos estrangeiros. Tudo por causa da corrupção do ímpio e falso sumo sacerdote Jasão” (2Mc 4,13); “Suplicamos ao Senhor que olhasse para o povo, pisoteado por todos, e tivesse compaixão do Templo, profanado pelos ímpios” (2Mc 8,2; cf. 2Mc 10,10).

 

Apesar das diferenças em termos de autoria, datação, objetivo, o Primeiro e o Segundo Macabeus aplicam o termo ímpio ao grupo que oprime e persegue os judeus fiéis a Javé, pela implantação da cultura greco-romana, também chamada de “helenista”. De forma bastante clara e concreta, são apresentados o espírito, a filosofia e a prática desse grupo em Sb 1,16-2,20. É o ímpio que explora e oprime os pobres e os justos para viver no ócio e no prazer.

 

2.2 -  Comentando o texto: Sb 1,16-2,20 - Busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra

O primeiro discurso dos ímpios (1,16-2,20) se abre com uma frase introdutória e, ao mesmo tempo, temáti­ca: "Os ímpios, porém, com ações e palavras, invocam a morte. Julgaram que ela seria amiga e, tendo feito aliança com ela, a desejaram intensamente. São mesmo dignos de lhe pertencer” (1,16). Os ímpios são apresentados como aqueles que fazem o pacto com a morte (cf. Is 28,15). Suas palavras e ações espalham perseguição, destruição e morte dos justos e dos pobres, que são “amigos” de Deus, que “não fez a morte, nem se alegra com a destruição dos seres vivos” (1,13).

 

O amigo da morte versus o amigo de Deus. No dis­curso, o tema do conflito ímpios (injustos) versus justos já está bem presente no pensamento e na prática, com o julgamento condenatório do autor: “Pensando de forma incorreta”, o discurso apresenta o pensamento “incorreto” do ímpio, influenciado pelas correntes da filosofia grega: “Nossa vida é breve e triste” (2,1). Não há esperança na vida futura. Por quê? Simplesmente porque acredita não existir vida após a morte!

 

Prova disso é que os ímpios anunciam: “Nada se sabe de alguém que tenha voltado do mundo dos mortos” (2,1). Ou: “Nosso tempo é a passagem de uma sombra, e não há retorno após nossa morte, porque o tempo esta­rá selado e ninguém retornará” (2,5). E uma afirmação contrária à fé do justo: “Deus há de resgatar da morada dos mortos a minha vida” (SI 49,16); “O rei do mundo nos fará ressuscitar para uma ressurreição eterna de vida” (2Mc 7,9). Uma das principais diferenças entre o ímpio e o justo gira ao redor da perspectiva sobre a vida após a morte.

 

Para reforçar seu argumento “vida triste e breve”, os ímpios argumentam sobre a casualidade da vida: “Porque nascemos do acaso e depois seremos como se não tivés­semos existido: o sopro de nossas narinas é fumaça, e o pensamento é uma faísca do pulsar de nossos corações. Quando ela se extingue, o corpo se transformará em cinza e o espírito se dissolverá como ar sem consistência” (2,2- 3). "Fumaça”, “faísca”, “cinza”, “ar sem consistência”... A vida é passageira!

 

O argumento dos ímpios atinge até a memória da vida humana: “Com o tempo, nosso nome será esquecido e ninguém se recordará de nossas obras. Nossa vida de­saparecerá como nuvem passageira, e se dissipará como neblina expulsa pelos raios do sol e dissolvida por seu calor” (2,4). O nome da pessoa representa sua lembrança, existência, história: nascimento, família, trabalho, laços, fraternidade, justiça etc. A vida é “breve, triste” e fugaz, passa depressa, e também a sua memória.

 

A visão da casualidade e fugacidade da vida aumenta ainda mais o conflito entre o ímpio e o justo, que acredita e contempla o universo como criatura de Deus. Nele, a humanidade, criada à imagem e semelhança de Deus, deve trabalhar, governar e desfrutar da vida plena com fraternidade e justiça (Gn 1-3). A vida tem sentido, me­mória e história! Não é “acaso”. Se não pensar assim, o que fazer na vida?

 

Após ter apresentado sua visão sobre a vida “breve e triste”, os ímpios declaram: “Vamos então desfrutar dos bens existentes e usar das criaturas com ardor juvenil. Vamos embriagar-nos com o melhor vinho e com perfumes, e não deixar que passe a flor da primavera. Vamos coroar­mos com botões de rosa, antes que murchem. Ninguém de nós fique fora de nossas orgias. Vamos deixar em toda parte sinais de alegria, porque este é o nosso destino e a nossa parte” (2,6-9). “Criaturas com ardor juvenil”, “o melhor vinho e perfume”, "a flor da primavera”, "orgias”... Aproveitar ao máximo os bens existentes, porque não há outra vida!

 

Os sábios do livro de Eclesiastes também concordam com o viver intensamente a vida: “Vá, coma seu pão com alegria e beba contente seu vinho, porque Deus já aceitou suas obras. Use sempre roupas brancas e nunca falte o perfume em sua cabeça. Desfrute a vida com a mulher que você ama, enquanto durar essa sua vida de ilusão” (Ecl 9,7-9a). “Comer, beber, vestir, amar, alegrar-se, festejar”... E a atividade básica de todo ser humano que deve ser desfrutada e festejada. Aproveite a vida para a felicidade.

 

Há uma observação, porém: "Porque essa é a sua porção na vida e no trabalho com que você se cansa de­baixo do sol” (Ecl 9,9b). Trabalhar e usufruir! O trabalho é a necessidade para viver bem. Todo mundo deve usufruir do fruto do seu trabalho para a felicidade. Deve usufruir de sua "porção”, e não da "porção” de outros: "Se Deus concede a um homem riqueza e bens, e a capacidade de comer deles, de receber sua porção e de desfrutar os seus trabalhos, isso é um dom de Deus” (Ecl 5,18; cf. Ecl 2,24; 3,12-13). Isso elimina qualquer ideia de acúmulo, explo­ração e opressão para criar uma situação injusta. O livro de Eclesiastes recomenda ainda a solidariedade e união do povo no trabalho em busca da felicidade (Ecl 4,9-12).

 

Ao contrário, os ímpios insistem em "nosso destino e nossa porção”. Nela, não entra o justo, não entra o pobre, não entram as viúvas, não entra o ancião, como também não entra o Deus dos pobres: “Vamos oprimir o pobre e o justo, e não poupar as viúvas ou respeitar os cabelos brancos do ancião. Nossa força seja a lei da justiça, pois o fraco é inútil, não há dúvida” (2,11). Para aproveitar ao máximo a vida presente, os ímpios oprimem os fracos e o justo, até aplicando a "força” e a violência segundo a "lei do mais forte”, chamada no texto "a lei da justiça”.

 


 

Qual o motivo da opressão contra os fracos? A res­posta dos ímpios é simplesmente “inútil”. A razão deste está no cerne da espiritualidade do helenismo, aplicado pelos governantes e poderosos no mundo greco-romano: a busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra, cerne do helenismo! Quem não produz bens materiais é “inútil”, até impede os ímpios de aproveitarem ao máximo a vida existente. "A lei da justiça” dos ímpios é contrária à lei da vida, é perseguir e eliminar os fracos. É a lei do mais forte!

 

Ou seja, a justiça dos ímpios consiste em “aproveitar” os bens materiais com “orgia” sem limites, eliminando os obstáculos, ou seja, “os fracos e justos”, isto é, a “aliança com a morte”. Opostamente, na cosmovisão dos judeus justos, é através da justiça que Deus manifesta sua von­tade de promover a vida, sobretudo a vida dos fracos. O Deus da vida! Com Ele, o justo faz a aliança para defender os fracos!

 

Os ímpios mesmos confirmam isso, deixando bem claro que o justo deve ser perseguido: “Vamos preparar ciladas para o justo, pois ele nos incomoda e se opõe a nossas ações. Censura nossas transgressões contra a Lei, e denuncia nossas faltas contra a educação que recebe­mos. Ele proclama ter conhecimento de Deus e afirma ser filho do Senhor” (2,13). Fazendo aliança com o Deus da vida na “educação” da tradição judaica, o justo censura e critica as injustiças praticadas contra os fracos, à seme­lhança dos profetas no passado: “Escutem bem, chefes de Jacó, governantes da casa de Israel! Por acaso não é obrigação de vocês conhecer o direito? Inimigos do bem e amantes do mal, vocês arrancam a pele das pessoas e a carne de seus ossos” (Mq 3,1-2). Os ímpios, amigos da morte e amantes do mal (1,16), são criticados pelo "filho do Senhor”, que invoca Deus como “Senhor, pai" (Eclo 23,1-3). Eles não suportam aqueles "filhos de Deus” que praticam a justiça para libertar a todos para a vida.

 

Os ímpios continuam manifestando seus sentimen­tos de reprovação e hostilidade contra o justo: “Tomou-se uma reprovação para nossas intenções. Vê-lo é desagra­dável para nós, porque a vida dele é diferente da vida dos outros, e seus caminhos são contrários. Somos conside­rados por ele como coisa falsa; ele se afasta de nossos caminhos como de impurezas; declara que o destino dos justos é feliz e se alegra em ter Deus como pai” (2,14-16). “Seus caminhos contrários”, "coisa falsa”, “impurezas” para os justos.

 

Mais uma vez, o que são "nossas intenções" no pen­samento dos ímpios? Aproveitar ao máximo a vida presente, eliminando os "obstáculos”. É o caminho contrário da tradição judaica do justo, filho do “Senhor”: “Senhor, pai e Deus da minha vida, não deixes que meu olhar seja arrogante. Afasta de mim os maus desejos. Que a sensua­lidade e a luxúria não me dominem. Não me entregues ao desejo vergonhoso” (Eclo 23,4-6). Orientações que estão na direção contrária da busca desenfreada dos ímpios por bens, prazer, poder...

 

Finalmente, os ímpios, como tiranos de ontem e de hoje, partem para a tortura e a morte do justo, a fim de executar a eliminação decisiva: “Vejamos se as palavras dele são verdadeiras, vamos verificar como será o seu fim. [...] Vamos submetê-lo a insultos e tor­turas, para sabermos de sua serenidade e avaliarmos sua resistência. Vamos condená-lo a morte humilhante, pois, segundo suas palavras, haverá quem olhe por ele” (2,17.19-20).

 

“Insultos”, "torturas”, “morte humilhante” para tantos mártires. São os atos perversos que se repetem ao longo da história. Assim aconteceu com Jesus de Nazaré, com alguns de seus seguidores e seguidoras de ontem e de hoje. Quantos agricultores e sindicalistas que lutaram por um pedaço de terra foram imolados aqui no Brasil? Quantos serão no futuro? A sociedade baseada na intolerância, na injustiça e no mal não suporta que haja pessoas que a critiquem e resistam.

 

“Insultos”, “torturas”, “morte” desafiam também a Deus: “Se realmente o justo é filho de Deus, Deus o ajudará e o libertará da mão de seus adversários” (2,18). Na cosmovisão dos ímpios, o Deus do justo não existe ou eles se colocam no lugar do "Absoluto”, pronunciando e executando sua lei e sua justiça com sua força e violên­cia (2,11). Quem pode se opor? Deus intervém? E nossa missão. Somos chamados a ser, também hoje, filhos de Deus: instrumentos da justiça e da vida.

 

3 .Iluminando a vida. No livro da Sabedoria, lemos: "Nossa vida é breve e triste, e no fim o ser humano não tem cura, e nada se sabe de alguém que tenha voltado do mundo dos mortos. Porque nascemos do acaso e depois seremos como se não tivéssemos existido” (2,1-2a). Essa forma de pensar dos ímpios pode levar a uma busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra, inclusive explorando e eliminando outras pessoas.

 

1- De que forma a pessoa cristã pode reconhecer e resistir às ofertas dos ímpios?

 

2- Como percebemos a filosofia dos ímpios presente em nossa sociedade atual?

 

3- Como apoiamos e valorizamos as pessoas que promovem a vida?

 

4- Como a nossa ação pastoral está a serviço da justiça?

 

4. Celebrando a vida. Rezemos um Pai-Nosso, pelas pessoas que são persegui­das por causa da justiça e por aquelas que trabalham a serviço da justiça.  

E que Deus o abençoe e o guarde. Amém.

Deus lhe mostre o seu rosto brilhante e tenha piedade de você. Amém.

Deus lhe mostre o seu rosto e lhe conceda a paz.

Amém.

 

6- Aprofundando: Paulo, Cristo, a Sabedoria de Deus no mundo do helenismo (greco-romano)

Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo mostra a realidade dos missionários cristãos junto com as pessoas empobrecidas e marginalizadas no mundo greco-romano, marcado pelo helenismo: Até o presente, passamos fome e sede, estamos mal vestidos, somos maltratados, não temos morada certa, e nos cansamos trabalhando com as próprias mãos. Somos amaldiçoados, e bendizemos. Somos persegui­dos, e suportamos. Somos caluniados, e encorajamos. Até agora, nos tomamos como o lixo do mundo, a escória de todos (ICor 4,11-13).

 

Inserido no mundo de trabalho, pobre e escravo, Paulo propagou o Evangelho de Jesus crucificado e res­suscitado, que é "loucura para as nações" (1Cor 1,23). Seu trabalho na evangelização e construção das comunidades cristãs é tão grande que muitos estudiosos atribuem a ele o título de um dos fundadores do cristianismo no mundo helenístico. A influência de Paulo é indiscutível, a ponto de os estudiosos afirmarem que o cristianismo, tal como existe hoje, deve muito a ele.

 

É bastante provável que, por trás desse trabalho mis­sionário, não esteja somente a formação judaica (a Torá, a esperança apocalíptica etc.), mas também a formação helenística de Paulo. Ele viveu em Tarso, na Cilicia, na Diáspora (At 21,39; 22,3). Tarso, capital da província da Cilicia (atual Turquia), era um centro comercial com um grande porto e as estradas que ligavam o interior da Ásia Menor e o Norte da Síria. Era também uma região de terras férteis, com a importante produção de algodão, por exemplo. A exploração e a comercialização de riquezas agrícolas, como também a presença de vários povos, atraídos pelas oportunidades de comércio, trabalho, prazer, etc., movimentavam a capital da Cilicia.

 

Tarso, cidade livre, era ainda um centro importante de cultura grega. Havia, por exemplo, a famosa escola de filosofia estoica, pregando a harmonia com o univer­so. O comércio, a paideia (crianças/educação), ginásios, filosofia, oratório, astronomia, teoria musical, teatros, jogos etc. A cidade de Tarso era marcada fortemente pelo helenismo, no qual Paulo cresceu, recebendo formação helenística (seus termos dos moralistas gregos: F1 4,8; suas notáveis imagens dos jogos: 1Cor 9,24-26).

 

Ao mesmo tempo, porém, Paulo observou e se sen­sibilizou com os males da sociedade escravagista, pelos quais as cidades greco-romanas eram marcadas: o direito do mais forte (2,11), a desigualdade, a injustiça, a miséria, a fome, a opressão e a violência. Outra formação de Paulo no mundo helenístico vinculado ao Império Romano. Após a conversão para o movimento cristão, a sensibilida­de de Paulo pela justiça e a fraternidade teria aumentado enquanto viveu e trabalhou, como um judeu cristão, em Tarso (37-42 d.C.) e em Antioquia (42-44 d.C.), capital da Síria, antes de iniciar suas viagens missionárias.

 

Historicamente, após ter realizado a reunião e o acerto com as autoridades da Igreja de Jerusalém (Tiago, Pedro e João: cf. G1 2), Paulo, um judeu helenista mais aberto para o mundo do que seus irmãos na Palestina, definitivamente empreendeu as viagens missionárias, andando pelo interior da atual Turquia e ao longo da faixa litorânea da Grécia, na região do mar Mediterrâneo. Eram jornadas árduas, feitas a pé ou de navio. Nessas andanças, ele estabeleceu comunidades em quatro províncias do Império: Galácia, Ásia, Macedonia e Acaia. Acompanhou pessoalmente a caminhada delas por meio da convivência, visitas, colaboradores e cartas, vivenciando e divulgando o Evangelho de Jesus de Nazaré no mundo helenístico.

 

Nas cartas, explica-se, em parte, como Paulo con­seguiu formar e animar as comunidades, enfrentando os males do mundo greco-romano. A primeira carta aos Coríntios, por exemplo, descreve os problemas da ga­nância e da imoralidade que tomavam conta até mesmo dos membros da comunidade cristã: "Mas são vocês que cometem injustiça e roubam, e o fazem contra os próprios irmãos” (1Cor 6,8: Tribunais gentios); “Por todo lado se ouve falar de um caso de união ilegítima entre vocês, e uma tal união ilegítima que não se encontra nem mesmo entre as nações: um de vocês convive com a mulher de seu próprio pai” (1Cor 5,1: incesto). Sem perspectiva de vida após a morte (1Cor 15), alguns membros lançaram-se na busca desenfreada de bens e prazer em Corinto, cidade helenística.

 

Outro problema que Paulo debate incansavelmente em suas cartas é a presença dos pobres famintos e sofre­dores: “Então, quando vocês se reúnem, o que fazem não é comer a ceia do Senhor. Porque cada um se apressa em comer a sua própria ceia. E assim, enquanto um passa fome, o outro fica embriagado” (1Cor 11,20-21). “Apenas recomendaram que nos lembrássemos dos pobres, o que, aliás, eu mesmo propusera fazer com todo o cuidado” (G1 2,10); “Irmãos, queremos que vocês conheçam a graça que Deus concedeu às Igrejas da Macedonia. Em meio à grande prova da tribulação, a copiosa alegria e estrema pobreza deles transbordaram em riquezas de generosi­dade” (2Cor 8,1-2; cf. 2Cor 6,10; 9,9).

 

“Um passa fome”, "os pobres”, “a extrema pobreza”... O que se percebe no mundo greco-romano é a realidade desumana dos pobres imigrantes e escravos. Em geral, cerca de dois terços da população da cidade greco-romana eram constituídos de escravos. Estes viviam na miséria, fome e insegurança, com uma média de vida de pouco mais de vinte anos, enquanto os ricos viviam cerca de quarenta anos. Eram pessoas massacradas e engolidas pela helenização promovida pelo Império. Como pregam os ímpios do livro da Sabedoria, os pobres e os fracos devem ser oprimidos e eliminados segundo a "sabedoria e a lei do mais forte”, dos poderosos (2,10-20).

 

Exatamente neste mundo greco-romano, marcado pelo helenismo, Paulo prega “Cristo, o poder de Deus, a sabedoria de Deus” que conduz a uma vida fraterna e justa e à solidariedade: Deus escolheu o que é loucura no mundo para desa­creditar os sábios. E Deus escolheu o que é fraqueza no mundo para desacreditar os fortes. E Deus escolheu o que é insignificante e sem valor no mundo, coisas que nada são, para reduzir a nada as coisas que são. E isso para que nenhuma criatura se glorie diante de Deus. Ora, é por Deus que vocês existem em Cristo Jesus. Pois Cristo Jesus se tomou para nós sabedoria que vem de Deus, justiça, santificação e redenção (1Cor 1,27-30).

 

A sabedoria de Deus, justiça, santificação e redenção se manifestam na prática pastoral de Paulo. Ao inserir-se no mundo greco-romano, Paulo se dedicou a formar a comunidade cristã como a presença do Reino de Deus de forma social - o mundo transformado pela vida digna, justiça, paz e alegria no Espírito do Senhor Jesus Cristo -, criticando e desautorizando a sabedoria da aristocracia imperial romana e sua sociedade, baseada no direito do mais forte. Tudo o que Paulo faz e escreve, para construir as comunidades cristãs de irmãos e de irmãs como o reino antecipado do Deus da vida:

 

  1. “De fato, todos vocês são filhos de Deus, por meio da fé em Cristo Jesus. Pois todos vocês, que foram batizados em Cristo, se revestiram de Cristo. Nãohá judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos são um só em Cristo Jesus” (G1 3,26-28). Ao afirmar a igualdade de todos, como filhos de Deus, na fé em Cristo, Paulo derruba a lei do mais forte do helenismo, que justifica a discriminação, marginalização e injustiça contra os fracos e pequenos. A estrutura hierárquica da sociedade escravagista é desafiada na convivência fraterna da comuni­dade cristã.

 

2. “Quem sabe ele não tenha sido afastado de você por um tempo, para que você o tivesse de volta para sempre. Não mais como escravo, e sim muito mais do que escravo, como irmão amado, especialmente por mim, e tanto mais por você, segundo a carne e segundo o Senhor” (Fm 15-16). Na carta de recomendação em favor de Onésimo, um escravo fugitivo, Paulo apela para o patrão, Filêmon, para que ele receba seu escravo Onési­mo como irmão. E um desafio ou crítica contra a sociedade escravagista, onde a lei romana pre­vê penas severas para os escravos fugitivos. De fato, Paulo declara que todos são irmãos com os mesmos direitos e deveres em Cristo!

 

3. “Ele estava na forma de Deus, mas renunciou ao direito de ser tratado como Deus. Pelo contrá­rio, esvaziou-se a si mesmo e tomou a forma de escravo, tornando-se semelhante aos homens. E encontrado na figura de homem, rebaixou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, a morte de cruz” (Fl 2,6-8). Paulo vivência e prega o Senhor Jesus como “Servo” no lugar do senhorio do Imperador, o ímpio do seu tempo.

 

Enquanto este domina o povo com o poder e a riqueza, Jesus serve ao povo com amor e justiça (Is 42,1-9). A cruz é resultado do seu amor e da sua fidelidade à missão que lhe foi confiada pelo Deus da vida e do compromisso extremo com as pessoas crucificadas.

 

Jesus se despoja de tudo. Total humilhação. Como escravo morto na cruz, Jesus, por amor e justiça, se torna um nada. É esse Jesus crucificado que Paulo prega para anunciar o projeto do Deus da vida no mundo helenista: despojar-se de tudo o que a sociedade greco-romana busca e promove injusta e desumanamente.

 

Inserido no mundo do trabalho, Paulo mesmo se despoja e mergulha na vida dos escravos, pessoas cruci­ficadas, que vivem no mundo violento, pesado e escuro das cidades greco-romanas. Na vivência das comunidades cristãs, elas recuperam a dignidade, sentido e alegria da vida: “Estejam sempre alegres. Rezem sem cessar. Deem graças por tudo. Porque essa é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus” (1Ts 5,16-18).

 

Resumo:

O que é a “sabedoria do mundo”?

A “sabedoria do mundo” é a atitude de quem, fechado no seu orgulho e autosuficiência, resolve prescindir de Deus e dos seus valores, de quem vive para o “ter”, de quem põe em primeiro lugar o dinheiro, o poder, o êxito, a fama, a ambição, os valores efémeros. Trata-se de uma “sabedoria” que, em lugar de conduzir o homem à sua plena realização, o torna vazio, frustrado, deprimido, escravo. Pode apresentar-se com as cores sedutoras da felicidade efémera, com as exigências da filosofia da moda, com a auréola brilhante da intelectualidade, ou com o brilho passageiro dos triunfos humanos; mas nunca dará ao homem uma felicidade duradoura.


• O que é a “sabedoria de Deus”?

A “sabedoria de Deus” é a atitude daqueles que assumiram e interiorizaram as propostas de Deus e se deixam conduzir por elas. Atentos à vontade e aos desafios de Deus, procuram escutá-l’O e seguir os seus caminhos; tendo como modelo de vida Jesus Cristo, vivem a sua existência no amor e no serviço aos irmãos; comprometem-se com a construção de um mundo mais fraterno e lutam pela justiça e pela paz. Trata-se de uma “sabedoria” que nem sempre é entendida pelos homens e que, tantas vezes, é considerada um refúgio para os simples, os incapazes, os pouco ambiciosos, os vencidos, aqueles que nunca moldarão o edifício social. Parece, muitas vezes, apenas gerar sofrimento, perseguição, incompreensão, dor, fracasso. No entanto, trata-se de uma “sabedoria” que leva o homem ao encontro da verdadeira felicidade, da verdadeira realização, da vida plena.


• Quem escolhe a “sabedoria de Deus”, não tem uma vida fácil. Será incompreendido, caluniado, desautorizado, perseguido, torturado… Contudo, o sofrimento não pode desanimar os que escolhem a “sabedoria de Deus”: a perseguição é a consequência natural da sua coerência de vida. Não devemos ficar preocupados quando o mundo nos persegue; devemos ficar preocupados quando somos aplaudidos e adulados por aqueles que escolheram a “sabedoria do mundo”.

 

 

 

 Para ir para a 4ª aula acesse: http://leituraorante.comunidades.net/4-aula-o-exercicio-do-poder-sb-61-11