Translate this Page

Rating: 2.6/5 (763 votos)

ONLINE
4





Partilhe esta Página


13.2 - Formação do Povo de Deus 1250 e 1200 a.C
13.2 - Formação do Povo de Deus 1250 e 1200 a.C

O sonho de um povo que tenha terra, liberdade, cidadania e uma vida abençoada esta no coração da humanidade. Ao longo da história, muitos grupos têm tentado concretizar este sonho. O povo de Israel foi um deles. Mas como esse povo se formou? De onde vieram? Quais os seus sonhos, suas buscas? Onde se localizou? Quem fazia parte desse povo? Quais foram as dificuldades encontradas e como as enfrentaram? E de que maneira esse povo experimentou a presença de Deus?

 

Aqui no Brasil, índios e negros, também tiveram esse mesmo sonho e encontraram um jeito de realizá-lo. Os índios ajudados pelos missionários jesuítas, encontraram, por algum tempo sua forma de resistência nos aldeamentos; os negros no período colonial, se organizaram em quilombos, atraindo o ódio dos senhores de escravos e dos que controlavam o império, assim, do mesmo modo, também os hebreus realizaram, entre os anos 1.200 e 1.000 a.C, uma nova experiência nas montanhas de Canaã. 

 

Segun­do o próprio texto bíblico, a história começa na migra­ção de uma família, a família de Taré, pai de Abraão, que saiu de Ur dos caldeus e se deslocou para Harã. Depois da morte do patriarca Taré, a família, liderada por Abrão, mi­grou para Canaã. Depois de muitas idas e vindas, Abraão se estabelece em Canaã. Devido a um período de seca e de fome, seus descendentes, chamados de hebreus, mi­gram para o Egito. Lá no Egito, os migrantes se transfor­mam num povo grande e numeroso. Os egípcios, temero­sos, escravizam os hebreus, obrigando-os a trabalhar na construção civil. Surge, então, um grande líder, chamado Moisés, que, após muitas peripécias, consegue conduzir o povo pelo deserto em direção a Canaã. Nesta travessia, aqueles hebreus se transformam no povo de Israel. Co­mandados por Josué, os hebreus conquistam todo o país de Canaã, numa campanha rápida e fulminante.

 

Esta é a história que nossos pais e catequistas nos contaram e que encontramos nos livros de Gêne­sis, Êxodo, Números Josué e Juízes. No entanto, vários indícios dentro do próprio texto bíblico mostram que esta narrativa é mais uma visão teológica da história do que propriamen­te um relato histórico moderno. O povo de Deus não esta­va preocupado em transmitir a história tal como a conce­bemos em nosso tempo. Hoje consideramos história uma narrativa linear, fundamentada em fatos, datas, persona­gens e lugares históricos, comprovados pela arqueologia ou por muita documentação escrita. O povo de Deus não tinha esta visão histórica moderna. A preocupação deles era transmitir fatos que comprovassem que Deus era o condutor e o protetor do povo em seu processo histórico.

 

Quer dizer, então, que o texto bíblico está errado? Cer­tamente que não. Nós é que hoje temos um sério problema quando consideramos como verdade apenas aquilo que pode ser comprovado historicamente com dados, fatos e datas. Desta forma, ficamos chocados quando descobrimos que muitos livros bíblicos, considerados como históricos, na verdade são narrativas míticas contando as origens maravi­lhosas do povo de Israel. A história presente na Bíblia não veio de livros didáticos, mas surgiu nas rodas de conversa, à noite, ao pé do fogo, relembrando os feitos antigos de gente que lutou pela liberdade do povo. Nestas rodas não impor­tavam tanto as datas precisas, mesmo porque o calendário naquela época não era muito preciso. O mais importante era que os feitos mais importantes fossem transmitidos de geração em geração, para que não se perdesse a memória dos fatos e dos personagens antigos (cf. Sl 78,1-8). A grande preocupação do povo de Deus era a fidelidade a Deus e aos antepassados chamados por Deus.

 

Assim, quando buscamos na Bíblia fatos históricos den­tro da nossa mentalidade moderna, temos que aprender a ler por trás das palavras. As palavras presentes na Bíblia são frutos de um longo exercício de memória coletiva. Elas não contam tudo! São apenas um começo para lem­brar ao historiador, o narrador ou a narradora de histórias, como as coisas se passaram. A Bíblia, antes de ser escrita, foi vivida, contada, relembrada, narrada, celebrada. Para eles, a presença do Deus da vida, principal personagem nestas histórias, era muito mais importante do que qual­quer exatidão histórica.

 

Por isso mesmo, quando buscamos reconstruir a histó­ria a partir dos dados presentes na Bíblia, temos que ter em mente que o texto não caiu pronto do céu. Ele é fruto de um longo processo de elaboração, passando por muitas mãos e reformas (https://leituraorante.comunidades.net/121-introducao-geral , antes de ficar como está hoje registrado nos livros.

 

Os textos que hoje compõem a Bíblia inicialmente circularam isolados uns dos outros, em forma oral e/ou em forma escrita; em espaços diferentes, como os clãs familiares, os santuários tribais, o templo e a corte de Jerusalém. Funcionavam como fontes de identidade familiar, tribal e monárquica e, ao mesmo tempo, como bases religiosas, jurídicas e políticas de diversas camadas sociais daquela época. Só num momento posterior, entre o ano 600 a.C. (2Rs 22,8-23,3), com a reforma do rei Josias, e os anos 400 a.C., com o sacerdote Esdras, é que estes escritos começam a ser instituídos como “Palavra de Deus” (Esd 7,25-26). É somente nesta época que começa a nascer este livro que hoje é a Bíblia para nós e que os textos serão “canonizados”. (Obs.: por volta do ano 400, deve ter ocorrido a canonização da Torá, o Pentateuco; os textos Proféticos, por sua vez, foram canonizados por volta dos anos 200 a.C., e os Escritos (os Sapienciais) só pelos anos 50 a.C.)

 

É necessário observar que, após a sua canonização, os textos passam a ser vistos como sagrados, caráter que eles não possuíam até este momento. Entretanto, até chegar a ser incluídos no cânone, os textos sofreram uma série de mudanças, como é o caso do Pentateuco, que levou aproximadamente 600 anos até chegar à forma como o conhecemos na atualidade. Ou seja, as tradições orais e os textos vão mudando de acordo com as transformações históricas da sociedade israelita. O que aparece mais facilmente, numa leitura meio rápida e superficial, é o colorido que os textos receberam na sua última redação. Mas, com um pouco mais de cuidado, as outras cores que possuíam antes disso podem também ser percebidas.

Por isso, um segundo modo de apresentar as escrituras é mostrá-las como resultantes de um largo e complexo processo histórico. Esse processo tem suas origens no surgimento das tribos de Israel (1200 a.C.). Ora, naquele período distinguem-se diversos grupos, que se unem com o objetivo de conquistar a liberdade para livremente trabalhar a terra e usufruir do fruto do seu trabalho. Embora o grupo mais numeroso seja constituído pelos habitantes da região de Canaã, não se formou uma unidade completa, pois cada região vai possuir sua autonomia. Isto é importante, pois as tradições orais e os escritos não surgem num único lugar. No Reino do Norte, até por ser maior e comportar um número maior de tribos, esta diversidade permaneceu por mais tempo, enquanto no Sul, pelo fato de ser uma área geográfica menor, menos densamente habitada, e o poder político e religioso concentrar-se na cidade de Jerusalém, muitas tradições e escritos ficaram concentrados ali na cidade ou pelo menos nas suas redondezas.

 

Para que este trabalho de reconstrução da história da Formação do Povo de Deus, seja possível, temos que levar em consideração que há pelo menos três hipóteses ou suposições que tentam explicar a ocupação da Terra Prometida por parte dos hebreus depois que sairam do Egito. 

 

1. Hipótese da formação de Israel

Há pelo menos três hipóteses ou suposições que tentam ex­plicar a ocupação da Terra Prometida por parte dos hebreus no tempo de Josué e dos Juízes.

 

1- Ocupação violenta. A primeira hipótese afirma que a formação de Israel aconteceu através de ocupação violenta, através de três ou quatro campanhas militares, lideradas por Josué.

 

Os que defendem essa hipótese consideram ainda que a união das tribos se deve ao fato de haver parentesco entre elas, como se todas descendessem de um ancestral comum (Abraão). Todos seriam da mesma raça. Os adeptos dessa teoria supõem que o conflito com os cananeus fosse apenas racial e não político, econômico e religioso.

 

Essa hipótese é a mais antiga, a mais conhecida e a mais tradicional. Interpretam desse jeito a formação de Israel aquelas pessoas que fazem uma leitura fundamentalista da Bíblia, isto é, uma leitura ao pé da letra, como se o que está escrito fosse uma filmagem dos fatos e testemunho arqueológico. Nós já vimos, na introdução, que as escrituras não são relatos puramente históricos, embora contenham preciosos elemen­tos históricos. Têm, em primeiro lugar, uma finalidade teológica. São uma forma de descrever, e nesse caso mais de 500 anos depois dos fatos, a presença misteriosa de Deus na história do povo. São testemunhos de fé.

 

Essa hipótese também perde a credibilidade pelas contradições do próprio texto e pelas diferentes versões que aparecem nos livros de Josué e Juízes.

 

Nos próprios textos de Josué e de Juízes, você pode perceber que a conquista não foi tão violenta e tão fácil assim. Nas narrativas do li­vro de Josué há contradições. Vejamos!

 

Lendo Js 11,15ss e 21,43ss, você pode perceber que elas dão a enten­der que todos os reis cananeus já es­tavam derrotados após a ocupação da terra.

 

Já lendo os textos, Js 13,1-6.13; 15,63; 16,10; 17,11-13; Jz l,19ss! você percebe outra realidade. Ao mesmo tempo em que as tribos se articulavam, especialmente nas montanhas, os reinos cananeus continuavam exis­tindo na região.

 

Quando lemos os livros de Juízes e Samuel, percebemos que a pró­pria Bíblia nos mostra que a ocupação da Terra foi um processo longo, lento e difícil, e que só foi concluído no tempo do rei Davi.

 

Como já referimos acima, Jerico é apresentada como a primeira cidade a ser destruída, e por isso mesmo se tornou o exemplo de con­quista para todas as demais cidades (Js 6). Ora, segundo as pesquisas da arqueologia, Jericó era, há muito tempo, apenas um montão de ruínas, como também a cidade de Hai (Js 8).

 

Jerusalém, conforme 2Sm 5,6-12, somente foi conquistada por Davi, mais de 200 anos depois. Isso não confere com o que se diz em Js 10,1-27 e 12,10. Se lemos ao pé da letra, também não temos como explicar o seguinte; se todos os reis do norte foram derrotados (Js 11), como é que ainda no tempo da juíza Débora eles existiam (Jz 4-5)?

 

E se lêssemos o texto como descrição dos fatos, seria difícil acei­tarmos, por exemplo, um Deus que ordena massacres sangrentos como os narrados em Js 6,20s; 8,1 s.20-29; 2Mc 12,16.

 

Antes de lermos esses textos como fatos históricos totalmente reais convém que nos perguntemos a respeito da intenção teológica de quem os produziu. Antes de nos perguntarmos se foi de fato assim como está escrito, convém que busquemos a intenção dos redatores ao des­creverem a realidade daquele jeito.

 

A explicação mais viável para se compreender a razão de tanta violência nos relatos sobre a formação das tribos é a seguinte: todos esses textos foram escritos durante o reinado. Assim sendo, eles já contêm elementos e reinterpretações dos fatos na perspectiva dos reis e seus teólogos do templo de Jerusalém.

 

O rei Davi construiu um verdadeiro império na região. Para isso, organizou um exército forte e conquistou todos os povos vizinhos, exceto os sidônios a noroeste. Nessa situação, os teólogos da corte fizeram uma retroprojeção das conquistas violentas de Davi para a época da formação das tribos. Com essa releitura, seu objetivo era legitimar a prática sanguinária do rei conquistador. Historicamente, portanto, foi o rei Davi que praticou sem piedade a violência contra outros povos, usando indevidamente o nome do Deus tribal, o Deus da vida.

 

2- Ocupação progressiva e pacífica. Os adeptos da segunda hipótese defendem que a formação das tri­bos nas montanhas de Canaã foi através de ocupação pacífica, através de uma lenta e progressiva infiltração e imigração de tribos seminômades, vin­das de regiões semi-áridas ou das estepes, onde apascentavam seus reba­nhos, sempre em busca de pastagens melhores.

 

Esses grupos, aos poucos, teriam se sedentarizado, isto c, se es­tabelecido em terras cultiváveis, passando a ter residência fixa cm meio aos cananeus. Seria um exemplo dessas migrações o caso de Abraão e Sara (Gn 12,1-9; 13,1-4).

 

Essa hipótese surgiu pelo ano de 1900 e, ao contrário da teoria anterior, afirma que a ocupação foi lenta e não de um momento para outro. Essa teoria, contudo, não explica suficientemente a formação de Is­rael como experiência alternativa, no contexto das cidades-estado cananéias. Como também não explica a memória que a Bíblia guarda de que houve dificuldades e lutas.

 

3- Insurreição de excluídos A terceira hipótese propõe a unidade das tribos como resultado de uma rebelião contra os reis de Canaã.

 

Regiões desocupadas, especialmente das montanhas centrais de Canaã, foram ocupadas por camponeses e outros setores excluídos que se revoltaram contra os reis cananeus. Nas montanhas, refugiavam-se organizavam-se para poderem melhor resistir. A esses camponeses fugitivos se juntaram outros grupos empobrecidos, vindos das estepes e de fora de Canaã, inclusive o grupo de escravos fugitivos do Egito.

 

Essa hipótese, também chamada de revolução social, é a mais recente. Parece ser a que melhor explica, combina e respeita os dados todos, tanto da Bíblia como da história universal e da arqueologia.

 

Os textos como os temos hoje fazem referências somente à in­surreição dos hebreus no Egito. Não há relatos de revoltas de campo­neses de Canaã. A explicação para essa ausência é a seguinte: quando a memória da formação de Israel foi redigida, Israel já havia instituído reis. O pessoal da corte não tinha interesse em guardar a memória subversi­va de rebeliões populares contra os reis. Ia contra seus interesses. Terá, portanto, apagado essa memória intencionalmente.

 

A seguir, apresentaremos essa versão dos fatos, buscando descre­ver as diferentes experiências que contribuíram para a formação do povo de Israel sob a forma de tribos, tendo como pano de fundo a formação dos quilombos no Brasil.

 

Assim como a nação brasileira é formada com a contribuição dc várias culturas, povos, etnias, crenças e costumes, assim também o Is­rael tribal, desde a sua origem, faz essa experiência da unidade na di­versidade. E uma experiência muito ecumênica, onde a maioria tem vez.

 

Foi assim também com as comunidades cristãs primitivas. Havia toda uma riqueza, não tanto na uniformidade, mas nas diversas expe­riências, nas diferentes formas de ser fiel ao Evangelho dentro daquilo que é próprio de cada comunidade. E isso nos atestam os próprios escritos do Segundo Testamento. Mas deixemos isso para mais adian­te, quando estudarmos os escritos das primeiras comunidades cristãs.

 

Isso nos faz refletir sobre nossa caminhada hoje, quando busca­mos cada vez mais a comunhão nas diferenças. Podemos ser diferentes sem sermos contrários.

 

Assim como na formação dos quilombos da República dc Palmares havia a presença de diversas culturas, crenças e costumes, assim também terá sido a experiência da formação de Israel nas montanhas de Canaã.

 

2- O PAÍS DE CANAÃ

No mundo de hoje se fala muito no Oriente Médio. Nos jornais, rádios, Tv e internet, aparecem notícias sobre Israel, Líbano, Irã, Iraque, Síria e Egito. Muito antigamente (há uns 5 mil anos atrás) estes povos já existiam. Só tinham nomes diferentes. Onde hoje em dia é Iraque se chamava Babilônia. O irã antigamente era a Pérsia. A Síria era mais ou menos a antiga Assíria e o Egito continua com o mesmo nome.

 

E Israel? Até mais ou menos no ano 1.200 antes de Cristo não existia Israel. A formação do povo de Israel foi acontecendo ao poucos entre os anos 1.200 e 1.000 a.C  numa terra de longa história, chamada Canaã, na verdade, um cobiçado corredor comercial entre duas grandes potências da época, sempre em conflito. Do lado ocidental estava a civilização egípcia no vale do Nilo. Uma civilização antiga exuberante e poderosa. Do lado oriental, a civilização Mesopotâmia, ocupando os vales dos rios Tigre e Eufrates, também ela, uma civilização antiga exuberante e poderosa. A ligação entre estas duas potências eram rotas comerciais que atravessavam uma pequena faixa de terra entre o mar Mediterrâneo e o deserto por onde transitavam soldados e caravanas com mercadorias[1].

 

Nessa terra viviam os cananeus e o nome de Israel começa a ser pronunciado. Antes de 1.200 nem existia no mapa. Depois, passou a ser chamada Terra de Israel, Terra Prometida ou ainda Terra Santa. Em 931 a.C., após a morte o rei Salomão, houve a divisão do reinado. A parte Norte ficou conhecida como Reino de Israel. E a parte Sul foi chamada de Reino de Judá. No tempo de Jesus, os romanos passaram a chamar toda a região de Palestina. As três províncias mais lembradas no Novo Testamento são: Judéia ao sul, Samaria ao centro e Galiléia ao norte.

 

Hoje em dia, existem três Estados nessa região: um é o Estado Árabe da Jordânia (parte ocupada por Israel desde 1967). O outro é o Estado de Israel, formado por judeus e árabes. O terceiro é o Estado Árabe da Palestina, previsto pela ONU desde 1948 e que está sendo implantado com muitas dificuldades desde 1996.

 

Canaã, ou Palestina nos dias de hoje ocupa uma parcela muito pequena do nosso planeta, 25 mil quilômetros quadrados (340 vezes menor que o Brasil) e está localizado em um lugar estratégico, muito importante, porque liga três grandes continentes: África, Ásia e Europa. Tendo uma localização estratégica, era passagem obrigatória, tanto para o comércio como para soldados, desses três continentes. Era a porta para os europeus que vinha do mar e a ligação terrestre entre o Egito e a Mesopotâmia, que foram o berço das mais antigas civilizações. Qualquer desequilíbrio ou conflito entre essas grandes civilizações repercutia necessariamente na Terra de Israel, com consequências muitas vezes trágicas. Por isso sempre foi objeto de disputa entre as grandes potencias. O Egito foi o primeiro a ocupar Canaã durante muito tempo e a considerava uma província.

 

Em Canaã, na época anterior àhttps://img.comunidades.net/lei/leituraorante/Captura_de_Tela_38_.png formação de Israel, as áreas planas e férteis eram dominadas por vários pequenos reinos, entre eles: cananeus, hititas, amorreus, fereseus, heveus, jebuseus e ainda outros (Ex 3,8). Esses pequenos reinos eram  constituídos por uma cidade cercada por uma muralha, para evitar as invasões dos inimigos, onde morava os reis e suas famílias, os chefes do exercito, os sacerdotes do culto oficial e alguns ricos comerciantes. Essa pequena elite controlava um conjunto de vilas de camponeses estabelecidas ao seu redor. Esse conjunto de vilas formava um pequeno Estado. Por isso, são chamados de "cidade-estado"   (pequenos reinados), espalhadas por todo o território e que viviam em contínuas lutas para assegurar sua pró­pria cidade e para conquistar outras.

 

Os reis exerciam seu poder sobre a cidade em que moravam, bem como sobre os camponeses pobres que ficavam nos arredores da cidade, sem a menor proteção e ainda  pagavam  altos impostos pois a terra era do rei e da sua familia.  Nessa época, as cidades de maior renome são Gaza, Meguido, Betsã, Hazor e Jerusalém. O tamanho das cidades não era muito expressivo: Hazor (1100 x 654 m), Meguido (300 x 250 m), Jerusalém (400 x 100 m)

 

O rei tinha poder absoluto, era o chefe do exército e tinha poder sobre os sacerdotes e o templo, sobre os juízes e as terras. Inicialmente, os profissionais das armas, os guerreiros, trocavam seu serviço de proteção por alimentos fornecidos por quem contratava seus serviços, inclusive camponeses.

 

Com o tempo, as cidades foram se fortalecendo com muros mais altos, exércitos maiores e mais poderosos. Aos poucos, a relação de troca tornou-se relação de exploração. Então, os tributos tornaram-se extorsivos, acima do valor justo, para fins de acúmulo de riquezas e de conquista. A dominação a partir da cidade era efetivamente assegurada por uma casta de profissionais das armas. Eram os herdeiros das modernizações introduzidas pelos hicsos, isto é, os carros de guerra com rodas protegidas por bronze e puxados por cavalos, bem como couraças de bronze para os combatentes. Eram os cavaleiros da corte. Faziam parte dos setores dominantes e ao mesmo tempo os defendiam.

 

A dominação citadina era assegurada pelos sacerdotes, os templos, a religião., Entre os cananeus, o Deus supremo era El, divin­dade que não exercia nenhuma ação direta sobre o mundo. As divindades ativas eram Baal (masculino) e Anat (feminina), ligadas ao culto da fertilidade da terra. Sua ação mítica era representada cultualmente com o rito da prostituição sagrada. Embora fosse divindade predominantemente agrícola, Baal era também o protetor da cidade, e aí ficava o seu templo. Essa ambiguidade criava o seguinte panorama reli­gioso: obedecer a Baal significava não só realizar os rituais previstos no culto da fertilidade, mas também ser fiel à cidade, da qual ele era o protetor. Assim, para que o ciclo da natureza se realizasse favora­velmente, era necessário sustentar a cidade, onde morava o rei que, por sua vez, era o guardião do santuário. Também era o rei quem presidia ao ritual da primavera, responsável pela ressurreição da na­tureza após o inverno. Isso lhe assegurava o direito ao produto do campo.

 

A ideologia, isto é, as ideias, os ritos e os símbolos religiosos, explicava o mundo presente como um mundo divino e eterno, consequentemente, imutável. Ao rei estava assegurada uma posição destacada no culto. Era o sacerdote principal. Mais tarde, também no reinado de Israel, os santuários vão ser controlados pelos reis. Veja, por exemplo, Am 7,10-13.

 

Assim, o templo tinha uma função simbólica e ideológica. Além disso, também tinha função decisiva na arrecadação dos tributos. O Estado arrecadava seus tributos e dízimos nas festas de colheita. Já que citamos, há pouco, o profeta Amós, aproveite para olhar em 7,1 e perceba como o tributo devido ao rei era a melhor parte da colheita.

 

No campo, as aldeias não tinham muro e nem burgo ou local fortificado. Situavam-se em torno das cidades, dentro do território de influência e domínio do centro urbano. O campo vivia dependente da cidade, do rei, a quem pagava tributos em troca de promessa de proteção. Com o passar do tempo, a posse e o controle das terras passaram a se concentrar cada vez mais nas mãos de quem morava nas cidades, empobrecendo e diversificando a população camponesa quanto à sua condição social. De pessoas livres, os camponeses passavam a ser meeiros, sem-terra, servos, escravos, isto e, hebreus.

 

Acentuou-se cada vez mais a espoliação da força de trabalho dos camponeses. Para pagar os pesados tributos, precisavam trabalhar dobrado, com muita fadiga e muito suor. As pessoas já não trabalhavam mais para viver, mas viviam para trabalhar.

 

Além dos tributos, havia ainda o trabalho forçado e gratuito nas terras do rei e em obras públicas, como aquedutos, estradas, cidades, armazéns, palácios, templos. É o que conhecemos como "corvéia".

 

Além dos tributos e do trabalho forçado, as aldeias também forneciam os soldados para as guerras e as mulheres eram recrutadas para o trabalho forçado, para a exploração sexual pelos reis e pelo pessoal da corte (Gn 12,10ss; 2Sm 11,1-4; 1Rs 11,1-3; Os 4,14).  Por sua vez os reis tinham que pagar tributos ao império Egipcio que dominava  e controlava toda a região.  Por incrível que pareça existe documentos que contam que um rei de Canaã teve que entregar 40 meninas virgens como tributo ao faraó do Egito. No livro de Samuel temos um texto que nos fala como era o sistema de opressão 1Sm 8, 11s.

 

Tanto a religião do Egito como a religião oficial de Canaã apresentava o Faraó e os reis como os filhos abençoados de Deus aos quais todo o povo deviam obedecer e servir. O Faraó e os reis eram os principais intermediários entre os deuses e as pessoas. Todo o povo devia agradá-los, oferecendo a eles os melhores frutos da sua produção e do seu trabalho.

 

Assim a religião oficial do Egito e de Canaã legitimavam o sistema de opressão das cidades-estados, no império sobre a grande maioria da população,  provocando grito e o clamor do povo oprimido e sua busca de libertação.

 

Essa situação de sofrimento de opressão e de busca de uma vida melhor esta presente na bíblia. No livro do Êxodo, isso aparece na história de Moisés, mas pelo fato que o Êxodo é a principal referência da fé do povo de Israel, essa história do grupo de Moisés carrega dentro de si as experiências de opressão e libertação de muitos outros grupos  que também participaram da formação do povo de Israel. E quais foram esses grupos? Muitos!

 

É claro que a maioria deles já estavam nas terras de Canaã quando os escravos fugitivos do Egito chegram. Mas sem dúvida o grupo mais significativo foi o dos camponeses que aidam tinham terra e os assalariados com trabalhos fixos. Esse pessoal não aguentavam mais serem oprimidos e explorados pelos reis  das cidades-estados. Havia também estrangeiros e pastores nomandes e semi-nomades e até saqueadores chamados de hapirus, mistura de biscateiros, meeiros, escravos, enfim, gente sem terra e sem trabalho fixo. Esse grupo trabalhavam como mercenários para os reis que pagassem melhor.

 

A Bíblia relata o sofrimento e o clamor do grupo de Moisés, que é um espelho da situação de todos esses grupos, Ex 1,13-14.

 

2.2 Mudanças à vista

Por volta do  ano 1200 a.C., a situação mudou de repente. O império egípcio e as cidades-estados de Canaã estavam enfraquecidos por continuas guerras internas e para piorar  mais ainda começam a ser ameaçados. Uma invasão vinda do norte afasta a presença egípcia na Palestina. Eram os “povos do mar”, chamados de filisteus que ocuparam a região do sul de Canaã e conquistaram várias cidades-estados na costa do Mediterrâneo. Eles se instalaram em cidades importantes na planície litorânea e começaram a controlar e cobrar pedágios nas principais estradas, e  rotas comerciais, que ligava Canaã ao Egito. Desse modo conseguiram cortar a passagem do exército egípcio que não pode mais manter o seu domínio sobre as terras de Canaã.

 

Essa invasão funcionou como uma espécie de libertação de Canaã da colonização egípcia, mas por outro lado, criou-se uma confusão geral e um vazio de poder na região. Os reis cananeus rivalizavam entre si, lutando pela liderança regional. A principal consequência dessas guerras foi o aumento do empobrecimento, uma vez que a rivalidade entre os reis não só aumentava a necessidade de tributação, mas ia também dificultando o trabalho no campo, que era, afinal, a fonte onde se abasteciam as cidades e as guerras. Canaã ficou, por assim dizer, entregue à sua própria sorte. Após séculos de exploração os camponeses estavam cansados. Para eles ficava ainda mais difícil plantar e colher, pois, suas terras eram o palco das lutas e ainda tinham suas casas e suas roças queimadas, sua produção saqueada e seus filhos obrigados a lutar no exército do rei.

 

Evidentemente, tal situação de sofrimento e instabilidade geral levou os camponeses a organizarem-se e criar resistência ao sistema das cidades-estados que desestruturava seu modo de vida. Aos poucos vão se agrupando, organizando, resistindo aos reis locais e procurando novo modelo de sociedade. Esse contexto estimulou a possibilidade de fuga de muitos camponeses (1Sm 25,10-11). E para onde eles foram? Alguns grupos ocuparam ou conquistaram cidades enfraquecidas e outros se fixaram sobre as montanhas em áreas pouco habitadas e inacessíveis aos exércitos das cidades, seus carros de combate, muito eficazes em terra plana, não subiam os morros pedregosos. Aos poucos, grupos inconformados com a situação de escravidão e em busca de liberdade, terra, cidadania e uma vida abençoada foram chegando e se unindo a grupos  já existentes, pois nas montanhas.

 

Aproveitando a descoberta e o uso do ferro e a cal eles puderam melhorar as condições de vida nas montanhas. Por exemplo, o ferro permitiu construir ferramentas mais resistentes para o trabalho no desmatamento da floresta e na preparação da terra para o plantio e a criação de gado; o uso da cal no revestimento de cisternas possibilitou armazenar água da chuva; e a técnica de pequenos muros (ou terraços) nas encostas direcionava as enxurradas.

 

Para superar os conflitos internos e protegerem-se dos contínuos ataques das cidades-estados, esses grupos foram criando pequenas associações e assim nas montanhas de Canaã, com a chegada de vários grupos inconformados com a realidade de escravidão dos reis das cidades-estados e do faraó do Egito, um novo sistema social, sem muralhas, sem reis, sem exército, sem donos das terras, formaram um povo livre em uma terra dividida que se chamou Israel. Nesta experiência brota a imagem do Deus da vida.

 

Na formação do Povo de Israel, vários grupos se juntaram. Cada grupo, com a sua cultura, com sua experiência religiosa,viveu uma situação de opressão e fiz sua experiência de saída, de êxodo, de busca de uma vida mais humana. Nessa busca de uma vida mais humana e fraterna baseada na solidariedade, começa a brotar a imagem de um Deus Pai e Mãe que vê a dor dos seus filhos, escuta o seu clamor e responde ao seu grito (Ex 3, 7b- 9). Sem duvida o grupo de Moisés representa todos esses grupos, por isso vamos nos ocupar a conhecer melhor esse grupo.

 

3 O grupo de Moisés

O Egito, graças à fertilidade nas margens do Nilo, era o principal alvo das migrações. Para aí se dirigi­am camponeses em busca de terra fértil e pastores à cata de pastagens. Havia ainda os mercenários que se alistavam nas campanhas militares do faraó, ou se arrolavam nas grandes construções por ele promovidas. Muitos desses migrantes encontravam uma situação melhor e acabavam se instalando no país. O que o livro do Êxodo chama de hebreus são essas levas de migrantes que se estabeleceram principal­mente na terra de Gessen, no leste do delta do Nilo. A história de José (Gn 37-50) é boa ilustração desse fenômeno migratório.

 

O grupo de Moisés estava estabelecidos no delta do rio Nilo, na região de Gessen (Gn 45,10; 46,28-29; Ex 1,11b; 8,18; 9,26) em duras condições de vida e com muito trabalho na fabricação de tijolos (Ex 1,14; Ex 5,6-23; Dt 26,6-7). Alguns que estavam ali, estavam em busca de pastagens para os rebanhos, outros como prisioneiros de guerra, outros ainda eram capturados nos saques e invasões militares efetuados nos territórios de domínio egípcio, como Canaã (Gn 12,10-20; 39,1; 46,1-3). Talvez não tenham chegado todos ao mesmo tempo e nas mesmas condições. Mas no Egito, segundo os textos bíblicos, todos foram congregados para o mesmo trabalho: a construção de silos para armazenar alimentos. De agora em diante a situação de opressão unirá todos esses grupos.

 

Para definir este conjunto de trabalhadores escravizados, a Bíblia usa a palavra hebreu (Ex 1,15), e mais adiante em Ex 1,8-14 a própria Bíblia os designa como um grupo de pessoas da mesma condição social e sem origem definida, desordeiros, subversivos, dependentes, sem-terra, oprimidas que buscavam trabalho em troca de comida. O faraó empregava essas pessoas nas construções públicas, cidades e monumentos, portanto, são trabalhadores forçados que prestam serviços pesados, sob muita opressão em obras do faraó.

 

Até que dava para ir tocando a vida aí na terra de Gessen, contanto que se obedecesse ao sistema do Faraó. A ocupação mais comum era cuidar das plantações junto ao rio Nilo. Na época das cheias, quando não dava para plantar, o faraó ocupava a mão de obra para fazer construções públicas ou de interesse: diques, canais, monumentos, pirâmides, armazéns, palácios, etc. tudo funcionava segundo o sistema tributário, isto é, pagando impostos. Grande parte do que era produzido ia para os depósitos do faraó; aqueles que plantavam e colhiam ficavam mais empobrecidos, e a desigualdade era cada vez maior. Os hebreus não suportavam esse sistema, mas qualquer tentativa de revolta seria desobedecer à religião do Faraó.

 

O faraó era intransigente, e começou a exigir trabalhos cada vez mais forçados desse grupo e isso foi a gota d'água para os hebreus, que não suportando esse sistema de dominação começam a resistir.  As mulheres foram as primeiras. Em êxodo 1 e 2 é muito importante perceber de um lado o grande projeto do faraó que quer conter o nascimento e o crescimento de hebreus porque são uma grande ameaça, mas quem está contando tudo isso de maneira muito sutil quer focalizar a resistência e como se dá o início dos grupos que vão promover a grande fuga do Egito.

 

E aqui nesses primeiros capítulos temos narrativas populares de um lado, o faraó e do outro lado, as parteiras Sefra (Beleza) e Fuá (Esplendor) que, para defender a vida, se negam a promover a morte, pois temem a Deus[2]. Contudo, o faraó não desiste de seu projeto de matar os filhos dos hebreus.

 

Assim termina essa pericope (Ex1,15-22): com a vitória das parteiras e com a prepotência do faraó, que não conseguido controlar o corpo das mulheres, almeja eliminar o corpo das crianças ordenando que os meninos sejam atirados no rio. Essas mulheres são mais poderosas do que o faraó. É até irônico, o faraó com todo o seu poder depender de duas parteiras para realizar seu projeto político. Elas têm mais poder do que ele. Essa maneira de contar é narrativa popular de como os pequenos, os fracos enfrentam o poder dos fortes.

 

E junto a esse contexto de perseguição temos o nascimento de Moisés (Ex 2,1-10), onde podemos perceber com muita esperteza, a resistência da mãe e a irmã que salvam a vida dele obedecendo justamente às ordens do faraó (Ex 1,23). Só que ele não disse como deveriam fazer, de modo que, elas impermeabilizaram o cesto de vime com betume para proteger o menino e assim o salvaram. Mais uma vez, as mulheres hebreias demonstram sabedoria! É mais uma ação política e teológica em favor da vida defendida até mesmo pela filha do faraó!

 

Essa também é uma narrativa popular para poder descrever o nascimento de Moisés como aquele que foi salvo das águas e dizer que toda essa história de Moisés é apresentá-lo como o príncipe dos hebreus aquele que vai trazer a grande libertação.

 

Uma vez crescido, Moisés assumiu a luta em defesa de seus irmãos hebreus que estavam oprimidos pelos capatazes do faraó (Ex 2,11-14). Reagiu de forma individual e violenta. Foi à primeira tentativa de reação diante da violência que Moisés viu sendo praticada contra o seu povo hebreu. Com sua ação violenta, causando uma morte, Moisés não conseguiu nada a não ser a perseguição. Viu-se obrigado a fugir da polícia egípcia. Dirigiu-se para a região de Madiã, a leste do Golfo de Ácaba (Ex 2,15-22).

 

Em Madiã casou com a filha de um sacerdote do Deus cujo nome é YHWH (Ex 2,16; 3,1;18,1-2). Nessa região, se cultuava a Deus sob esse nome. Junto a seu sogro, Moisés recebeu a revelação do Deus YHWH. E aí ficou sempre mais claro para ele que o Deus vivo não é Deus de um lugar ou ligado a forças da natureza. Mas é uma presença misteriosa ligada ao povo e à conquista de vida e liberdade.  

 

A narrativa da sarça ardente Ex 3, 1-10 é a narrativa do Deus que se revela a partir do fraco e junto com o fraco. É aquele que vai promover a elevação do fraco e destituir aquele que está no poder. Essa é a teologia do Êxodo, que começa no capitulo 2,23. É o Deus que vai escutar os clamores, descer para livrar e por isso seu nome é: “Eu serei o que serei” é o Deus acontecendo na história de libertação desse povo.

 

Lendo Ex 3,7-1 se percebe que Moisés acredita num Deus que: vê a opressão de seu povo; ouve os gritos de aflição diante dos opressores; toma conhecimento de seus sofrimentos; desce para libertá-lo das mãos dos egípcios fazendo-o sair desse país para uma terra boa e espaçosa, uma terra onde corre leite e mel; envia Moisés para que liberte seu povo do Egito; está junto (Ex 3,14).

 

O próprio Moisés, que estava livre daquela opressão descobre, de repente, que é necessário deixar além da sua esposa e os seus filhos; aquela vida que construíra com tanto carinho e sacrifício, para se meter de novo naquela fornalha, de onde os próprios filhos de Israel o obrigaram a fugir. Mas é preciso entrar novamente naquela luta, perder a segurança tão duramente conquistada, sacrificar a sua família, a sua paz, a sua vida, pelo risco de libertar um povo, que nem sabia o que era «liberdade», nem o queria saber.

 

Moisés, obediente a Deus e com a união de outros líderes, tentou convencer o Faraó a deixá-los que saíssem, para buscar nova vida em outros lugares. Mas a mão-de-obra era muito importante para o Faraó terminar suas construções. O opressor nunca concede a liberdade. É preciso lutar para consegui-la. Foi o que os hebreus fizeram: forçaram o Faraó de muitas maneiras e realizaram muitos estragos (Ex 7 a 14) para amolecer o coração do Faraó.

 

No nível da fé, essas pragas são, na verdade, uma quebra-de-braço entre o “Deus dos hebreus” e as “divindades do faraó” ou até mesmo entre Deus e o faraó. Não cabe a nós discutir aqui se aconteceu ou não aconteceram esses sinais/milagres do modo como a bíblia narra e sim perceber que quem está produzindo essa narrativa está querendo transmitir e dizer para seus grupos que Deus está com eles. E foi Deus que demarcou o grande confronto com o faraó.

 

Nesse confronto tem três níveis de milagres. No primeiro nível, os sinais são apresentados como magia que cria impacto nos egípcios. É como se Moisés estivesse querendo dizer não mexam conosco, pois, não estamos sozinhos. Temos alguém que pode enfrentar o poder e a força do faraó. Porém eles, os egípcios não se intimidam, não dão o braço a torcer, de modo que os seus magos fazem a mesma coisa. Em primeiro lugar esses sinais querem dizer isso: Nós temos uma força, os outros, os egípcios dizem: nós também temos. Então vamos colocar aqui em público as nossas forças e vença o melhor e o mais forte.

 

No segundo nível temos sinais de oposição, de confronto. E esses sinais vão crescendo. Primeiro criam o incomodo com o aparecimento de sapos, mosquitos, etc... Os magos do faraó vão lá e fazem aparecer muito mais ainda. Em vez de diminuir, aumenta o incomodo mais ainda. Aqui então temos o conflito de estratégias. E nessa descrição dos sinais de incômodos, os magos percebem que a mão de Deus está presente, que ele é poderoso e que o melhor seria deixá-los partir. Os magos querem que o faraó mande os hebreus embora.

 

Nessa segunda parte dos sinais de oposição temos a grande marca dos sinais que mexem na economia do sistema do faraó. São os sinais que estão na outra ponta da narrativa que é a ulcera dos magos, a peste dos animais, a chuva de pedras, o ataque dos gafanhotos. Esses sinais estão criando um grande confronto econômico e, portanto, a destruição do poder político e econômico do faraó, o qual, depois de tudo isso ele virá com negociações: “Eu deixo vocês irem embora”.

 

Esses sinais vão crescendo, ou seja, da contraposição a oposição econômica até que vem o derradeiro sinal, a morte dos primogênitos e a saída do Egito para decretar a derrota, o fim do faraó. Mas essa leitura dos milagres tem um teor teológico por trás e a melhor imagem para mostrar isso é a imagem de uma queda de braços, uma disputa, entre o poder de Deus e o poder do faraó. Por isso o grande tema desses sinais é a mão de Deus que vai aparecendo no texto. E nessa disputa de braço está a grande ação de Deus que coloca o braço do faraó para baixo e o derrota. É a partir dessa imagem que iremos entender a frase que perpassa por todo o texto: “E Deus endureceu o coração do faraó”.

 

É nessa dinâmica de queda de braço onde quanto mais força você faz, mais força se exige que o oponente também faça. A cada sinal que Deus mandava exigia que o faraó também fizesse mais resistência, mais força para não deixar o povo partir. Se uma pessoa entra em uma luta com o braço mole com certeza irá perder a luta. Se não se impuser com força e estratégia certamente se sairá derrotado. Então o povo hebreu com muita estratégia foi aos poucos dominando e minando todo o poder do faraó.

 

A grande derrota do faraó está no seu fracasso econômico. Ele deixa de ter toda a sua produção e armazenamento dessa produção quando a chuva de pedras e os gafanhotos atingi as plantações e os animais destruindo tudo. E o que o Êxodo coloca aí no final desses sinais é de que Deus fez uma distinção entre o lugar onde estão os hebreus e o lugar onde estão os egípcios e o faraó. Por isso, a chuva cai lá e não aqui. Os gafanhotos atacam lá e não aqui.

 

Diante de tudo isso o faraó inconformado, tentou ainda impedir que os hebreus fossem embora, mas eles conseguiram atravessar águas e pântanos e fugir para o deserto. Parece tão simples, mas sabemos como é difícil escapar das garras do opressor! Essa gente um dia havia chegado aí, empurrada pela carestia e fome (Gn 41,50-42.7), mas sempre preservou o ideal de vida livre e igualitária. A escravidão despertou neles esse ideal adormecido: lutaram e escaparam. Isso será lembrado de geração em geração como um fato grandioso.

 

O Egito tinha seus deuses, que mantinham as coisas como o Faraó desejava. Os hebreus não podiam adorar esses deuses, porque não queriam as coisas como estavam. Eles adoravam outro Deus: o Deus dos hebreus (Êx 3,16-20). Ele estava presente e foi o grande vencedor. Nada foi feito sem ele. Realizou coisas maravilhosas, tirando-os da opressão. Tudo foi conseguido com luta, mas essa luta teria dado em nada se o Deus dos hebreus não estendesse seu braço e sua mão forte. Esse Deus é o mesmo que sustentava o ideal de liberdade dos patriarcas. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó é o mesmo que o Deus dos hebreus.

 

Dizer o significado do nome Javé é muito difícil. É um segredo guardado a sete chaves. Existem muitas interpretações: "Aquele que é", "Ó Aquele", "Aquele que sou", "Aquele que faz ser", "Aquele que está ou estará", etc., mas nenhuma delas convence. Javé é um nome enigmático! Ninguém consegue decifrar o nome do Deus que une os grupos que lutam contra todo tipo de opressão e que desejam construir uma sociedade fraterna e justa. O Deus que vai sair da montanha e acompanhar o grupo no deserto para a terra de Canaã, será sempre um desafio para aqueles que querem tê-lo nas mãos, a fim de descobrir ou destruir o segredo dos camponeses e pastores que encontraram força suficiente para lutar e vencer os poderosos. Um segredo que ficou escondido lá na "sarça ardente" (Êx 3,2-15). O segredo do nome divino é o segredo da própria liberdade.

 

Os deuses do Faraó sustentavam e aprovavam a situação que vigorava no Egito. Querer mudar o sistema era ofender esses deuses. Portanto, qualquer outro Deus que defendesse a alguém que não obedecia a Faraó devia ser rejeitado (Êx 5,1-4). Javé, Deus dos hebreus, é para o opressor um Deus subversivo que não pode ser admitido.

 

2.1– Páscoa

Uma das questões mais importantes da tradição do Êxodo está no relato da Páscoa. E páscoa entendida dentro desse confronto entre hebreus e faraó. Porém temos que entender a páscoa como uma festa bem mais antiga do que o próprio Êxodo.

 

Essa festa antiguíssima vem de duas tradições enquanto festa de passagem e da mudança do campo e da fertilidade que é festa de pastores que dura uma noite e de agricultores que dura uma semana.

 

Ao abrirmos a nossa bíblia em Ex 12 encontraremos bem isso. Nessa festa de pastores que dura uma noite eles celebravam a passagem de um acampamento antigo para um novo, de uma pastagem velha e já esgotada par uma nova, dentro de seu ritmo de migração no inverno e no verão. Nessa noite a festa era de despedida do acampamento comendo um cordeiro. Antes da refeição, ungia com o sangue do cordeiro as estacas de suas barracas. Acreditavam os pastores que, com esse rito, prendiam os maus espíritos, de modo que não pudessem prejudicá-los na peregrinação em busca de novas pastagens. Era um rito de proteção.

 

Os agricultores, por sua vez, celebravam a páscoa em uma festa de duração de uma semana. É quando ele celebra em comum com os demais agricultores o que colheu com muita alegria e ao mesmo tempo planeja em comum e organiza o próximo plantio.

 

Então páscoa é essa festa da passagem da colheita para o plantio e passagem de um pasto para outro pasto. Essas duas festas de pastores e agricultores vão ser agora utilizadas por esses grupos na grande memória do êxodo. Festa de pastores no êxodo se tornou a festa do cordeiro. Festa dos agricultores no êxodo foi nada mais simbolizada nos pães ázimos.

 

Então pães ázimos e cordeiro na descrição de Ex 12 nada mais é do que a memória de grupo de pastores e grupos de agricultores na grande festa da páscoa. Eles pegam a páscoa de antigamente e fazem a páscoa a partir de agora. Essa páscoa a partir de agora na tradição do êxodo era antigamente a festa de passagem de pasto de plantio, passagem de pasto. Agora ela ganha um novo aspecto que é a história desses grupos que estão lutando contra o faraó. Essa é a páscoa. Passagem da escravidão para a liberdade, da morte para a vida.

 

Na história da tradição do povo isso vai ganhando novas camadas, novas pinturas de modo que a páscoa até hoje é celebrada por vários grupos. Na tradição judaica ela será sempre memorizada com todo o recontar e contar a história que tem a ver com os dramas da história, com o grande enfretamento com o faraó por isso tem as ervas amargas, o vinho, o cordeiro, os pães sem fermento, isso tudo como um grande memorial. Páscoa então é um grande memorial de libertação.

 

Outros grupos como os cristãos vão celebrar a páscoa e vão colocar outro ingrediente dentro da sua tradição que conduz para a morte e ressurreição de Jesus. São uma mesma conotação e uma mesma festa e de uma mesma páscoa, de uma mesma festa que vai transitando e percorrendo a história e assim a páscoa dos judeus é uma, a páscoa dos cristãos é outra, porém essas duas festas têm lá na sua raiz daquilo dos grupos que produziram o êxodo uma festa de agricultores e uma festa de pastores. Estas páscoas como grandes festas de fertilidades se tornam memoriais da grande libertação.

 

2.2 – Travessia no mar

Temos diversos relatos e testemunhos sobre a saída do Egito, oriundos de diversos grupos que têm lembranças históricas diferentes (Ex 13;14;15). Essa saída se deu em forma de fuga. Mas para onde? Quantas pessoas fugiram? Qual caminho a percorrer?

 

Ex 12,37 informa que foram mais de 600 mil pessoas que participaram da fuga do Egito. Sabemos que os números na Bíblia, na maioria das vezes, são simbólicos. Não podem, portanto, ser interpretados de forma quantitativa como se o número em questão fosse de fato a quantidade de 600 mil pessoas. Se o texto fala em muita gente na saída do Egito, mais do que falar na quantidade de pessoas, quer mostrar o quanto foi significativa a presença de Deus na libertação. Do ponto de vista simbólico, teológico, esse número mostra quão significativa foi a ação de Deus em favor de seu povo.

 

Além do mais, pelo menos até hoje, a arqueologia não descobriu nenhum texto egípcio que se referisse a esse fato enquanto fuga de milhares de pessoas. Somente descobriu textos que falam da fuga de grupos pequenos de escravos. Ao "exagerar" nos números, os autores do texto querem mostrar aos leitores de sua época, e também aos de hoje, o quanto foi central em sua fé todo esse processo libertador e, especialmente, a presença de Deus que faz história com seu povo.

 

Por outro lado, as 600 mil pessoas refletem aproximadamente o número de pessoas do reino unido de Israel na época de Salomão, quando o texto foi escrito. Esse número quer, portanto, incluir todo o povo na experiência de libertação do êxodo.

 

Qual caminho a percorrer? A Bíblia fala em dois caminhos de fuga. O mais conhecido e ensinado pelos nossos catequistas ao longo dos anos é o texto de Ex 13,17, porém quem está fugindo procura o caminho mais curto e não o caminho mais longo. Ex 14,2 nos narra um segundo caminho, o caminho percorrido durante a fuga foi entre Magdol e o mar, defronte de Baal Sefon. Isso significa que a fuga foi pela estrada dos filisteus que passava entre Magdol e o lago Sirbônico, próximo ao mar Mediterrâneo. É o caminho mais curto entre as terras de Canaã e o Egito.

 

https://img.comunidades.net/lei/leituraorante/windows060.jpg

 

Olhando no mapa onde se localiza esses lugares, o mar mediterrâneo e o lago Sirbônico no delta do Rio Nilo se vê que existe um estreito entre o lago e o mar e é justamente por aí que eles passaram. A passagem por esse estreito só se pode ser feito no período da maré baixa. Quando a maré começa a subir e o mar começa a ocupar toda a extensão da praia, ninguém mais passa e quem teima em passar fica atolado e morre afogado. Quando a maré recua aparece novamente um pedaço de praia do estreito e se pode caminhar tranquilamente. Com certeza esses grupos conheciam muito bem essa região e o fenômeno das marés. E é justamente para essa região que eles vão levar as tropas do faraó porque é ali que está a única perspectiva de que, sem poderio militar poderiam fugir do faraó. Entretanto em Ex 15,22s há outra versão para a saída do Egito.

 

Nesse texto temos a descrição de um caminho longo para poder dar toda uma explicação para os 40 anos no deserto. E para o povo ficar 40 anos caminhando no deserto é porque o caminho tem que ser longo.

 

Tanto no texto antigo como no texto recente não descreve qual é o mar, se é o mar vermelho se é o mar dos juncos[3]. Esses dois textos irão dizer simplesmente que houve um confronto no mar e o faraó com seus carros, cavalos e cavaleiros ficaram atolados. Essa teoria pode ser comprovada através das Cartas de El-Amarna que eram antigas cartas dos reis de Canaã para os faraós onde diziam que carros de guerra ficam atolados nessa região e se perdem. Esse lugar era conhecido como o lugar do atoleiro. Se você não tem poder militar e está enfrentando um poderoso exército você tem que levar o inimigo para uma armadilha. Então temos aqui na discrição da saída um caminho curto entre o Egito e as terras de Canaã. O caminho longo é claro vai ter como toda a discrição dos grupos que vão caminhando pelo deserto e isso vai durar 40 anos. Esse caminho é para dar sentido os 40 anos no deserto.

 

Antes de continuar o estudo, leia atentamente o relato da derrota final dos egípcios em Ex 14,15-31 e veja se você conseguiu distinguir três versões sobre o mesmo fato. Consegui? Em caso de resposta negativa, leia novamente e tente descobrir!

 

Estudando as diferentes releituras de épocas diferentes e de diversos contextos, os biblistas descobriram que este texto é como um tecido feito com fios de três cores. Uma delas, porém, é a cor dominante. Ressalta-se sobre as demais. Olhando à distância, só se enxerga essa cor.

 

Algo semelhante acontece com o fato narrado nesse texto. Separando os fios do tecido do texto, podemos perceber como os redatores finais costuram os fios de cores diferentes.

 

1ª versão: historicamente, os fatos aconteceram ao redor de 1200 a.C. A partir de então, essa fascinante fuga foi contada oralmente e celebrada durante uns 250 anos. Só então, sob a opressão do rei Salomão, ao redor de 950 a.C., ela foi escrita pela primeira vez. Essa releitura da fuga junto ao mar é descrita como se fosse facilitada por um vento que fez as águas recuarem. A fuga se dá como que na "maré baixa" (leia somente os versos 21a.26-27). No texto, a cor deste fio, desta releitura, fica por trás dos outros, isto é, não aparece com muita evidência.

 

2ª versão: os biblistas situam a segunda releitura no Reino do Norte pelo ano de 850 a.C.Nessa época, o povo está sob a tirania da dinastia inaugurada pelo rei Amri ou Omri (1Rs 16,2128). Já essa segunda interpretação do mesmo fato dá um colorido diferente. Esta versão afirma que Deus, lá de cima das nuvens, atolou na areia as rodas dos carros de guerra do exército faraônico, facilitando a fuga (leia somente os vv. 24s). É como um segundo fio de um mesmo tecido, mas este também fica em segundo plano.

 

3ª versão: ao redor de 550 a.C., durante o exílio na Babilônia, parte dos israelitas são oprimidos longe de sua terra. Mais do que nunca esperam por um novo êxodo. Fazem, então, uma nova releitura dos acontecimentos do êxodo. Esta terceira reinterpretação, distante mais de 600 anos dos fatos, é a mais espetacular de todas. Agora, as águas se abrem em paredes, formando um grande corredor de passagem da escravidão para a liberdade (Ex 21c-22s.28ss).

 

O que fizeram os redatores finais do livro do Êxodo? Eles teceram os fios desse texto com as três versões do mesmo fato, mas de épocas, lugares e realidades diferentes, dando ao tecido um colorido especial. A cor que mais aparece é a da terceira tradição. A um leitor desatento, passam despercebidas as duas outras versões. Todas as três, contudo, são leituras de fé daqueles fatos do passado. Fazem memória da presença de Deus nos acontecimentos de libertação. Nas diferentes épocas em que são feitas essas releituras, o povo sempre está precisando de um novo êxodo, de uma nova saída de situações de sofrimento, de opressão. A memória do passado quer iluminar o presente sem perspectivas.

 

A festa da vitória é organizada pelas mulheres. Segundo a pesquisa, o canto de Miriam e suas companheiras de luta (Ex 15,20s) é a formulação mais antiga do evento do êxodo. Os cânticos de Moisés (Ex 15,1-18) e Miriam celebram a presença libertadora de Deus na história.

 

Ao se integrar aos demais grupos nas montanhas de Canaã, o grupo de Moisés, com seu êxodo "espetacular", foi capaz de absorver os êxodos dos demais grupos. Isso se dá certamente por ter visto de perto a opressão do faraó, por um lado, e sua derrota, por outro. Foi a experiência mais fantástica entre todas. Ela como que se impôs. Nela, Israel viu sua origem, sua fundação enquanto povo de Deus.

 

2.3 A Caminhada no deserto[4]

A caminhada pelo deserto é dura luta para manter-se livre e não ser de novo oprimido. Tomando como modelo o grupo que escapou do Egito, a Bíblia conta como a insegurança, a pressão dos dominadores e a falta de bens de consumo fazem com que muitos queiram desistir. São aqueles que preferem ter a segurança do opressor, mesmo que para isso continuem escravos. Então criticam e procuram desfigurar o processo de liberação (Ef 14 – 17). Em Ex 15 é o problema da água. Em Ex 16 o problema é comida. Em Ex 17 volta o problema da água e da organização desse povo. Em Ex 18 aparece a questão da mudança, da organização e das estratégias.

 

A longa caminhada do povo no deserto está atrelada a esses problemas e eles têm que buscar uma nova organização. E isso nos dá a dimensão dos 40 anos. Os 40 anos trabalham dentro do êxodo como a teologia do aprendizado. O povo tem que aprender um projeto diferente. Quem está contando a questão dos problemas da água e da comida quer apontar que é preciso que o povo aprenda os novos preceitos para poder caminhar.

 

Em cima desses novos preceitos que eles têm que aprender esta, sobretudo na partilha. Em todos os momentos e instantes eles estão perguntando o que é isso, se referindo ao maná. E junto vem o grande preceito de que ninguém pode acumular para o dia seguinte por que estraga.

 

Aqui está todo o aprendizado que eles querem transmitir de que o novo projeto frente ao projeto do faraó é que eles têm que aprender a partilhar.

 

No último texto que é o conselho de Jetro, sogro de Moisés, o que eles têm que aprender é descentralizar o poder. Moisés tem que aprender isso e o povo também, visto que no fundo o poder que eles conheciam era o poder do rei e o poder do faraó, são os poderes concentrados. Então, o grande projeto que está aqui nesses grupos de resistências é: nós não podemos exercer o poder como aqueles que nos dominavam exerciam o poder.

 

Então o que nós podemos dizer de toda essa leitura do livro do Êxodo? O Êxodo é o grande livro e a grande tradição que ensina para o povo e para as futuras gerações são três coisas.

 

1ª A grande marca da vitória está na resistência. É a história de resistência de hebreus e hebreias que é a resistência de todos os povos frente aos outros projetos de dominação.

 

2º Reconhecer que Deus está presente. É a teologia do Deus atuante que está nessa luta de levar o povo a um novo projeto.

 

3º O povo só vai sobreviver ser houver estratégias. A estratégia de Moisés e Aarão serão a estratégia de Deus e a estratégia do povo. A vitória do povo de hebreus e hebreias ao celebrar suas festas, ao celebrar sua páscoa, ao celebrar sua libertação dependerá de estratégias. Todos os relatos dos sinais e dos milagres são relatos das estratégias. Esses três pontos são fundamentais para a leitura do Êxodo.

 

O livro do Êxodo é conhecido por todas as tradições como o livro dos nomes e o livro dos sinais porque ele traz para as gerações futuras os nomes importantes na história e os sinais primordiais da ação de Deus nessa história.

 

Assim percebemos que o livro do Êxodo é uma grande colcha de retalhos que foi sendo costurada por quase mil anos. Ele preserva trechos muito antigos, como o hino de Miriam (Ex 15,22), que guarda a memória histórica do processo de saída do Egito, redigido por volta do século XII a.C. Alguns textos, como Ex 29-30, devem ser da época de Esdras, no século IV a.C. Os primeiros capítulos devem ter sido redigidos na época da monarquia (entre os séculos X a VI a.C.). Já outros textos foram elaborados durante a crise do exílio (entre 597 e 538 a.C.), tanto em Judá como na Babilônia. Assim, o livro do Êxodo que temos hoje é fruto de muitos anos de caminhada do Povo de Deus.

 

Os acontecimentos do êxodo original foram guardados e cultivados na memória do povo e recordado nos momentos de crises e sofrimentos. Quando se corria o perigo de perder a missão de povo escolhido por Deus, eles se agarravam à lembranças deste êxodo original, que era recordado e reinterpretado para trazer as luzes e forças necessárias para resistir e retomar a caminhada.

 

Hoje não podemos falar de um só êxodo e sim de vários êxodos, ou seja, saída de vários grupos. E em cada um desses êxodos os grupos foram paulatinamente buscando alternativas diante do domínio tributário e explorador dos reis de Canaã que estavam a serviço do faraó do Egito.

 

O pano de fundo dessas saídas é o inconformismo diante do sistema de arrecadação de tributos e armazenamento de produtos, por parte dos reis e dos faraós, que vai trazer grandes conflitos a um povo faminto e que vive na miséria. Diante desse fato esses vários grupos saem em busca de outros refúgios, outras perspectivas. A grande saída desses grupos é buscar a sobrevivência em espaços distantes do controle do poderio das cidades, dos exércitos, dos faraós e dos reis. Esses grupos vão promover as saídas do controle das cidades e viver nas montanhas de Canaã e formar uma nova sociedade, uma sociedade alternativa (período dos Juízes).

 

Na tradição egípcia esses grupos são chamados de hapirus, fugitivos que se contrapõe ao controle político do faraó e procuram escapar dos tributos (impostos) e à corvéia (trabalho forçado) exigidos pelos reis e pelos faraós. Eram camponeses marginalizados que viviam nas aldeias das cidades-estados de Canaã e não se submetiam ao controle dos reis nem dos faraós egípcios. Eram identificados como bandidos armados, que saqueavam os territórios dos reis. Entre as cartas dirigidas ao faraó de Tell el-Amarna, encontra-se uma do rei de Jerusalém, dizendo: “O hapiru rouba a terra do rei”. Isso mostra que os hapirus constituíam uma ameaça à tranquilidade e o controle econômico do estado dos reis.

 

Na tradição bíblica esses hapirus são nada mais nada menos do que os hebreus, os excluídos aqueles que fizeram enfreamento político e econômico a todo poder dos reis, das cidades-estados e dos faraós.  

 

Temos aqui uma grande história que condensa vários êxodos e vários grupos que viviam as mesmas condições de opressão e o desejo de uma vida nova, o êxodo e os êxodos! Moisés e os outros grupos, os hebreus e as hebreias, formando um grande contingente de pessoas que se rebelam contra as autoridades opressoras.

 

Na pesquisa bíblica em termos de questão sociológica se fala de que a história do êxodo tem a ver com as grandes migrações de grupos de pastores ligados a Abraão, Jacó que foram parar no Egito em busca de novas pastagens para seus rebanhos. Mas temos outra teoria que vai apontar muito mais para a história de resistência e de revolução de grupos que se contrapõem ao regime do faraó. Assim o êxodo não é só a história de migrações, mas sim, história de resistência e revolução. É a história de grupos que se contrapõe ao poderio do faraó.

 

A luta dos hebreus escravizados foi o fator de aglutinação dos vários grupos que formaram Israel. Afinal, todos os grupos sabiam que tinham que enfrentar e vencer o sistema do faraó. Todos tinham que “sair do Egito”! Mesmo os que nunca tinham sido levados como escravos para lá. “Sair do Egito” significava resistir, enfrentar e vencer o sistema opressor que escravizava e matava. Egito passa a ser mais do que uma questão geográfica.

 

Na verdade, representa o sistema opressor contra o qual todos devem lutar e vencer. O grupo de escravos fugitivos ensinava que liberdade não se ganha, mas se conquista! O opressor nunca concede liberdade. É preciso lutar para alcançar a liberdade. Desta forma, “sair do Egito”, ou seja, vencer o sistema opressor, passou a ser a condição básica para se “israelita”.

 

AUTOAVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM

  1. Quais são as principais consequências para Canaã pelo fato de ser o corredor entre os grandes impérios estrangeiros da época
  2. Cite as principais características das cidades na época do surgimento de Israel!
  3. Qual era a situação das aldeias camponesas sob a dependência das cidades?
  4. O texto 1Sm 8,11-17 é conhecido como o "direito do rei". Certamente, ele descreve a prática dos reis em toda a região. Em que consiste essa prática?
  5. Quais as principais razões que levaram os camponeses a fugir das terras sob o controle dos reis?
  6. Quem são hoje os hapirus/hebreus? Como resistem e se organizam?

 

Assista o seguinte vídeo:

                                Tera Prometida I = https://www.youtube.com/watch?v=wrWIRTB3-0Y&feature=youtu.be

 

                                      Terra Prometida II = https://www.youtube.com/watch?v=x-GInVqQuwU&feature=youtu.be

 

                                      

 

Notas:

[1] A rota mais importante é a que segue pela planície litorânea. “Carninho do Mar". Há ainda uma estrada pela serra central, passando por Hebron, Jerusalém e Betel, e outra rota na Transjordânia, ligando o porto de Etsion-Gaber ao sul no Golfo de Ácaba, passando por Edom, Moab e Amon, seguindo até Damasco na Síria. É a "Estrada Real".

 

[2] O nome Fuá lembra, em hebraico, a raiz verbal brilhar e o substantive brilho, esplendor. De fato, Beleza e Esplendor, descobrem o rosto de Deus no contexto de dar à luz a uma nova vida. Ou seja: entendem seu projeto de vida e se colocam a serviço dele.

 

[3] Saiba que a Bíblia Sagrada Edição Pastoral e a Bíblia traduzida por João Ferreira de Almeida denominam o mar dos Juncos de mar Vermelho (Ex 13,18;13,4). Mas o texto primitivo menciona apenas que o grupo de Moisés tomou o caminho do deserto para o leste ou sudeste. A denominação do mar é um acréscimo. Portanto, sua designação e localização são incertas. Em todo caso a passagem pelo mar se transforma em um dos emblemas da saída do Egito. Segundo interpretação bíblica a passagem no mar é uma narrativa simbólica. Mar, nesse contexto literário, significa caos, mistério, susto, medo. Sendo assim a passagem pelo Mar pode sinalizar que os hebreus estão vivendo um momento caótico. Contudo acreditam no poder de Javé e na liderança de Moisés (EX 14,31).

 

[4] Futuramente um dos nossos estudos de aprofundamento será: “A caminhada no deserto” Entendendo o livro do Êxodo 15,22-18,27.