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Situando o texto de Lucas 6,20-26
Situando o texto de Lucas 6,20-26

Situando o texto: Contrastes sociais entre pobres e ricos. 

 

Na sociedade do primeiro século, havia duas categorias: os ricos e os pobres. Os ricos (entre 1 e 5% da população) eram aqueles que viviam em abundância sem necessidade de trabalhar para sobreviver. Os pobres, pelo contrário, eram todos os que não podiam manter-se sem trabalhar fisicamente. Ou seja, “trabalhar com as próprias mãos”, diz Paulo. Nesse grupo estavam os agricultores, os comerciantes, os artesãos etc. Havia também os pobres – “indigentes” – que necessitavam mendigar para sobreviver.

 

No último patamar da categoria dos pobres estavam os escravos e as escravas, pessoas sem liberdade, sem direitos e sem dignidade humana e, em certos casos, sujeitos a abusos e espancamentos. De fato, na sociedade do tempo de Lucas existia um abismo descrito na história do pobre Lázaro: “Entre nós e vós existe um grande abismo, a fim de que aqueles que quiserem passar daqui para junto de vós não o possam, nem tampouco atravessem de lá até nós” (Lc 16-26).

 

Por trás da sociedade greco-romana havia um mecanismo de explorar e manter esses pobres em condição de escravidão:

 

1 - Sociedade Patronal: a elite monopolizava informações e usava em proveito próprio os recursos financeiros que o poder central disponibilizava para obras e benfeitorias, manobrando tudo a seu favor. Por exemplo, o imperador, como o grande protetor, beneficiava os administradores e as elites locais com doações de cargos, títulos de honra e títulos de terras. Dessa forma, criava laços de gratidão, submissão e dependência. Esse modelo de administrar era conhecido como patronato, modelo que abrange todas as relações sociais, desde o imperador até os estratos sociais mais pobres.

 

2 - Tributos: por meio de sua política patronal, sabia se beneficiar de todas as atividades econômicas: cobrava, com mão de ferro, taxas e impostos, o que levava pequenos comerciantes e produtores rurais à falência. Os ricos se mantinham, pois eram donos de latifúndios e estavam inseridos na “rede comercial” do sistema patronal. Isso fazia crescer, cada vez mais, a diferença entre ricos e pobres. “Alguns publicanos também vieram para ser batizados e disseram-lhe; ‘Mestre, que devemos fazer?’. Ele disse: ‘Não deveis exigir nada além do que vos foi prescrito’” (Lc 3,13). O texto exclusivo de Lucas descreve o abuso cotidiano da cobrança de tributo no império romano, empobrecendo a população.

 

3 - Exército: havia um poderoso exército para conquistar e sustentar o domínio do Império, composto por 350 mil soldados, dividido em Legião. Cada Legião era composta por 6 mil soldados a pé e 120 montados em cavalos (Mc 5,9-10). Uma de suas funções era controlar o cotidiano da população, frequentemente cometendo abusos. “Os soldados, por sua vez, perguntavam: ‘E nós, que precisamos fazer?’. Disse-lhes: ‘A ninguém molesteis com extorsões; não denuncieis falsamente e contentai-vos com o vosso soldo’ (Lc 3,14). Esse texto, exclusivo do evangelho de Lucas, teria nascido da realidade de violência e de abuso do exército.

 

4 - Religião: outro recurso que o Império utilizava para expandir seu poder e manter o controle social eram a religião: a divinização da imagem do imperador, exibindo-a em moedas, broches, taças, estátuas, altares e fóruns. Promovia cultos, sacrifícios, jogos, festas e festivais em datas significativas da vida do imperador, criando uma “aura” divina em torno de sua imagem.

 

5- Religião oficial dos judeus: além de pagar os impostos civis, os judeus deviam honrar as leis e os tributos religiosos, como o dízimo. Quem não conseguia observar era considerado impuro e endemoninhado. Era excluído da benção de Deus e do Reino de Deus. Após a destruição do templo, os pobres sofriam toda a carga das restrições legais da sinagoga.

 

A sociedade greco-romana, marcada pela competição e ambição de riqueza, de poder e de honra, espoliava e excluía os pobres. A busca desenfreada por poder e a marginalização social dos pobres aconteciam também na convivência cristã. A discriminação contra os pobres atingia até o cerne da vivência cristã: a refeição comunitária em memória de Jesus.

 

A celebração era um dos momentos mais fortes da vivência comunitária. Um convite para experimentar a comunhão fraterna entre ricos e pobres, livres e escravos, judeus gentios, mulheres e homens. No entanto, muitas vezes isso não ocorria no interior das comunidades. “Quando, pois, vos reunis o que fazeis não é comer a Ceia do Senhor; cada um se apressa por comer a sua própria ceia; e, enquanto um passa fome, o outro fica embriagado”, assim afirma Paulo, condenando a divisão criada no momento da ceia (1Cor 11,20-21).

 

No mundo greco-romano, os cristãos pobres sofriam dentro e fora das comunidades. O evangelho de Lucas, provavelmente, foi dirigido a esse grupo sofrido e aflito da Ásia menor e da Grécia. Ele discute e apresenta o caminho de Jesus como caminho que transforma a sociedade injusta e excludente em uma nova sociedade de fraternidade.