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17.6 COMENTÁRIO DO LIVRO DO APOCALIPSE
17.6 COMENTÁRIO DO LIVRO DO APOCALIPSE

COMENTÁRIO DO LIVRO DO APOCALIPSE

 

1,1-3 Introdução. A palavra grega Apokalipsis se traduz para o latim como Revelatio, em nossa língua "Revelação". Com estes dois nomes (Apocalipse e Revelação) é conhecido o último livro do NT. O estilo apocalíptico compreendia uma maneira de pensar, de es­crever e de interpretar os acontecimentos da história, em um período em que os crentes estavam ameaçados pelos poderes do mal, no meio de perseguições e tribulações. O autor do Apocalipse quer animar e fortalecer a fé de seus leitores porque Deus tem a seu cuidado a história, e os poderes do mal não podem prevalecer contra sua Igreja. O imenso poder do Império Romano - perseguidor da Igreja - vai ruir como ruíram no passado os inimigos do povo de Deus. Esse João é constituído testemunha de tudo o que viu e ouviu: visões e anúncios. Desde o princípio afirma solenemente que seu escrito é "Palavra de Deus", isto é, profecia e testemunho de Jesus Cristo. Com o mesmo tema fechará o livro (22,20).

1,4-8 Mensagem às sete Igrejas: saudação. O livro começa e acaba como se fosse uma  carta; considera-se como uma profecia, embora na realidade visasse ao presente da Igreja perseguida muito mais que a um futuro distante. Os títulos que se dão a Jesus nesta introdução apresentam-no como o glorioso vencedor da morte que assegura o  triunfo dos cristãos perseguidos. Jesus é o Alfa e o Omega - a primeira e a última letra do alfabeto grego - porque abrange tudo. Nada escapa a sua ação e poder.

1,9-20 Visão de Jesus Cristo. Esta visão serve de introdução a todo o livro. Jesus é o Se­nhor da glória e da história, como aparecerá em cada capítulo. A grandeza de Cristo é descrita com alusões ao Êxodo (Ex 19,16) e a Daniel (Dn 7,13s). Jesus é o Messias sacer­dotal- túnica -, com a franja ou cinturão real (13); é sábio e eterno - cabelos brancos -, juiz - olhar penetrante, espada -, estável e seguro - firmeza nos pés -, que tem em suas mãos a sorte dos povos - sete estrelas. Jesus está no meio de sua comunidade, as Igrejas, representadas pelos sete candelabros que nos recordam a menorah ou grande candelabro de sete braços usado na liturgia judaica.

2,1-3,22 Mensagem às sete Igrejas: conteúdo. As sete Igrejas não são especiais nem simbólicas. Eram as Igrejas pelas quais o autor se sentia responsável. As sete situavam-se ao longo da via romana que as comunicava entre si. Não eram únicas; seus problemas eram os mesmos das outras muitas igrejas. Cada carta é um chamado a conversão. O número pode indicar que são Igrejas que representam a Igreja universal, com suas virtudes e defeitos no meio dos desafios criados pela religião imperial. As Igrejas de Éfeso, Pérgamo e Tiatira achavam-se em confronto com os nicolaítas, que provavelmente eram um grupo de cristãos que buscava se adaptar as normas sociais e religiosas do império, com um relaxamento de costumes que ia contra o espírito cristão (2,1-14).

Éfeso era uma cidade famosa por seus ritos religiosos em homenagem a deusa Artemis, cujo templo era uma das maravilhas do mundo antigo (At 19,23-40). Com seus trezen­tos mil habitantes, Éfeso era a "luz da Ásia", grande centro comercial e religioso; uma tradição temporã associou-a com o apóstolo João.

Esmirna, que se gloriava de sua fidelidade a Roma, havia recebido muitos judeus que tinham sobrevivido a destruição de Jerusalém pelos romanos; esses judeus haviam se convertido em inimigos dos cristãos que formavam o novo Israel de Deus.

Pérgamo, residência do governador romano que promovia o culto ao imperador tinha uma florescente indústria de pergaminhos, com uma grande biblioteca e centro cultural. Tiatira tinha uma nova Jezabel; como a esposa malvada do rei Acab que foi inimiga pessoal do profeta Elias e levou o povo a idolatria, tentava os cristãos a aceitarem os ritos religiosos pagãos, uma verdadeira prostituição religiosa.

Sardes encontrava-se em uma situação de coma espiritual. Seus habitantes tinham fama de comodistas e luxuriosos. Duas vezes havia caído nas mãos de seus inimigos por falta de vigi­lância. Tinha uma florescente indústria de lã branca a qual parece referir-se o texto da carta. Filadélfia recebe um tratamento mais pessoal, cheio de ternura. Permaneceu fiel no meio de dificuldades e perseguições; e não misturou a fé com outras doutrinas e práticas incompatíveis com ela. Agora deve preparar-se para uma tribulação geral.

Laodiceia tinha uma florescente escola de medicina e farmácia para o tratamento dos olhos; sua fama havia chegado até Roma. A cidade se considerava auto-suficiente (3,17). Laodiceia recebia águas procedentes de fontes termais de Hierápolis, a seis quilômetros de distancia; as águas chegavam já mornas. O "amém" inspira-se em Is 65,16 e talvez em 2Cor 1,20; diz o categórico e definitivo, sem mistura ambígua de sim e não. O amém categórico opõe-se frontalmente a mistura e confusão de quente e frio, os conchavos de paganismo e cristianismo (cf. 2Cor 6,14-16), que provocam a náusea de Deus (cf. Jr 14,19).

4,1-11 Liturgia celeste. Com símbolos poéticos tomados das profecias de Isaías e Ezequiel apresenta-se o mistério de Deus que é grandeza, firmeza, estabilidade, tranquilidade e claridade. O autor parece ter em mente a corte imperial, romana ou persa, com o senado e conselheiros que compartilhavam o imperador como parte de seu séquito. Os romanos costumavam saudar o imperador proclamando-o digno, senhor e deus de seu povo. O cristão só pode aclamar desse nodo o único Deus do céu e da terra. Deus não vive isolado em sua glória. O céu é vida, luz e adoração; é como um espetáculo de luz e som que agradará os santos por toda a eternidade.

5,1-14 O Cordeiro e o rolo. O cordeiro é uma figura bíblica com múltiplos simbolismos. É a vítima pascal da libertação do povo; é o cordeiro sacrificado pelo pecado (Jo 1,29), o leão de Judá e a raiz de Davi, que triunfa sobre as forças do mal. Os sete cornos e os sete olhos indicam que a plenitude do poder e do conhecimento pertencem a Cristo glorificado (Mt 28,16-20). Os sete atributos do Cordeiro pertencem a Deus no AT. Os imperadores romanos pretendiam atribuir a si mesmos essas perfeições. O rolo que só o Cordeiro pode abrir e ler contém os segredos da história que Jesus tem em sua mão (1,16). O Império Romano podia dominar e matar; só Jesus pode libertar e dar a vida.

6,1-17 Os Sete selos: Os selos eram usados na antiguidade para identificar a propriedade, para dar validade aos documentos e para proteger coisas preciosas ou secretas. O livro selado é propriedade exclusiva de Deus e contém os grandes segredos de seu plano salvífico. O rolo vai se desdobrando gradualmente, revelando seu conteúdo, não para satisfazer a curiosidade humana, mas sim para cumprir os planos de Deus: Os selos recordam aos cristãos que as calamidades da história e da natureza devem servir para despertar as consciências diante da caducidade do humano. Os quatro cavalos do Apocalipse, inspirados em Zc 1,8-11 e 6,1-8, foram muito populares nos tempos, de guerra, espe­cialmente durante a Primeira Guerra Mundial. Guerra, sangue, fome, peste e morte seguem se confraternizando. Em cada período da história voltam a cavalgar. Os quatro cavaleiros, criados pela perverso e pelo egoísmo humano. Os últimos selos voltam a recordar que o Poder de Deus esta na base de tudo o que acontece. As orações dos santos condicionam o que sucede na terra. Diante das calamidades, os maus endurecem e assustam; os crentes vivem confiantes em uma expectativa gloriosa porque sabem que Deus dirige a história e cuidará dos seus.

7,1-16  Os que se salvam. Quando se destrói a natureza acaba-se a humanidade. Antes  que seja destruída pelos anjos, deve-se selar e identificar os servos de Deus; 144 mil é  o número perfeito (12 x 12 x 1.000); É o número dos escolhidos do Novo Israel, muito  mais numeroso que o Israel antigo das doze tribos. Além do mais, Deus aceita todos os povos, raças e línguas, uma multidão imensa e incontável, para seu serviço. Os mártires são os membros mais destacados do novo Povo de Deus; compartilharam já a morte e o sacrifício de Jesus e por isso reinam com ele na glória.

8,1-6 O sétimo selo e o turíbulo. O sétimo selo abre a porta para a revelação das sete trombetas. As fontes bíblicas falam de sete anjos especiais que estão na presença de Deus (Tb 12,15) que revelam as ações especiais de Deus; Miguel, Gabriel e Rafael são bem conhecidos pela Bíblia; Uriel, Raguel, Sariel e Remiel aparecem nos livros apócrifos. Estes anjos são intermediários das orações dos santos e da resposta de Deus para seus eleitos.

8,7-9,21 As sete trombetas. A trombeta era o instrumento musical cujo som chegava mais longe; ninguém podia ignorá-la. A trombeta tocava como sinal de alarme, para reunir o povo; anunciava as festas e os triunfos do povo; nas batalhas dirigia o curso dos combates. Logo se transformou em instrumento escatológico tradicional (lTs 4,16); as trombetas do Apocalipse são chamados prementes e alarmantes para a conversão porque o final está próximo. As pragas provocadas pelas trombetas recordam as pragas do Egito (Ex 7-10). Os objetos relacionados com as trombetas recordam os elementos empregados na liturgia do templo de Jerusalém: trombetas, carvões, taças, perfumes e o altar. Toda a natureza é como um grande templo de Deus. As pragas contêm alusões a fenômenos naturais e acontecimentos históricos da época do autor. Estão descritas em estilo poético e épico para estimular os leitores à conversão. Os fenômenos naturais e as catástrofes da história são sinais dos tempos, sinais divinos da limitação do humano. Jesus proclamou que a chuva não é só um fenômeno natu­ral; é um dom divino do Pai sobre justos e pecadores (Mt 5,45). Como os sete selos, as trombetas estão dispostas em duas séries de 4 + 3, As três primeiras, como os selos, estão intimamente relacionadas entre si e não afetam as pessoas, mas sim os lugares onde essas pessoas vivem e trabalham; são pragas parciais porque ainda resta tempo e espaço para a conversão. As duas últimas pragas recordam as invasões dos partos que já antes haviam derrotado as legiões romanas e tomado Jerusalém; eram um sinal da caducidade do Império Romano. No final constata-se que o poder de Deus pode vencer tudo, menos o endurecimento voluntário das pessoas.

10,1-11 0 pequeno livro. Como o profeta Ezequiel (Ez 3,1-3), o autor apresenta sua missão profética de estimular o bem e denunciar o mal. Antes de se pôr a falar, o profeta deve comer e digerir livros. Esse livrinho que contém o Evangelho de Jesus está aberto, não encerra segredos, e contém uma mensagem agridoce. O chamado de Deus e o anún­cio de salvação são doce, mas as denúncias e as resistências que o profeta encontram podem enche-lo de amargura. As confissões do profeta Jeremias dão testemunho dis­so (Jr 20,7-18). O mundo resistirá a crer na mensagem de Jesus e se voltará contra os mensageiros.

11,1-14 As duas testemunhas. A medida do templo é sinal da proteção divina da qual goza o lugar sagrado (Ez 40-43; Zc 2,5-9). As duas testemunhas têm os traços de várias figuras bíblicas: como Moisés, transformam a água em sangue (Ex 7,14-25); como Elias, fazem , descer fogo do céu (2Rs 1,9-16); como Zorobabel e Josué (Zc 4), são duas testemunhas e ungidos que representam a missão sacerdotal e régia da Igreja; como Eliás e Henoc, são dois personagens que se acreditava terem subido ao céu sem morrer, pelo que se esperava que voltariam no fim dos tempos e sofreriam a morte. Existem os que veem nas duas testemunhas uma referência aos apóstolos Pedro e Paulo, cuja pregação havia ressoado por todo o império, os quais já haviam compartilhado a morte e o triunfo de Cristo.

11,15-19 A sétima trombeta. A sétima trombeta, no centro do Apocalipse, anuncia a chegada do Reino de Deus, com uma mensagem paralela que encontramos na paixão  do evangelho de João (Jo 18.,13-19,15). O reino Chega com a revelação de Jesus como rei e senhor da criação. O santuário e templo de Deus, a nova "arca da aliança", na qual reside a glória de Deus, de agora em diante se encontra em Jesus.

12,1-18 A mulher e o dragão. Muitos católicos quiseram ver nesta mulher simbólica a Virgem Maria, a Mãe do Messias, vestida com o sol como uma virgem de Guadalupe. O texto sugere antes que a mulher pode ser a sinagoga judaica da qual nascem Jesus e sua mensagem. É mais provável que a mulher seja uma imagem da Igreja que dá vida a Jesus e que tem muitos outros filhos que sofrem a sorte de Jesus e são perseguidos pelo dragão.  O dragão representa as forças do mal, encarnadas no Império Romano com seu imenso poder. A morte de Jesus no Calvário foi um momento decisivo da luta entre o bem e  o mal. Ali, o Príncipe deste mundo foi lançado abaixo (Jo 18,6; 12,31s) e realizou-se o julgamento definitivo. Jesus, levantado na cruz, foi exaltado ao céu (FI 2,8-10). A luta decidiu-se no Calvário, mas ainda restam batalhas individuais e coletivas pelas quais a Igreja deve passar até conseguir a vitória contra os poderes do mal.

13,1-18 As duas feras. O dragão começa a atuar mediante seus agentes delegados: são poderes políticos absolutos, com suas ideologias, divinizados, empenhados em impor sua soberania como rivais de Deus. São figuras emblemáticas. Alguns exibem ferimentos misteriosamente curados, isto é, derrotas amplamente compensadas; outros reali­zam obras portentosas, convincentes (Dt 13,2); proclamam infundir vida no inerte, como demiurgos copiando Deus (Gn 2,7). Sua blasfêmia consiste em apresentar-se como deuses (Ez 28,9; Is 48,8.10). Mas os cristãos, "registrados no livro da vida" especial, o de um morto que estão vivo, resistir o com sua "perseverante".  A primeira fera que vem do mar refere-se ao poder de Roma, cujos decretos e leis eram trazidos em barcos para a ilha de Patmos e para toda a região próxima; essas leis impunham o culto blasfemo ao imperador que dedicava a si mesmo tributos divinos. Diante do perigo de perseguição, o cristão tinha de estar disposto a ir para o cárcere e para a morte sem hesitação (10). A segunda fera parece referir-se ao governador romano e a um sacerdote - os dois cornos-, agentes do império, que obrigavam os habitantes a adorar o imperador, recorrendo a todo gênero de estratagemas (cf. At 8,9s). No fim do século I e início do II na região das sete Igrejas do Apocalipse, chegou-se a exigir dos habitantes a apresentando de uma cédula que provava que haviam participado dos sacrifícios ao imperador. As cédulas chegaram a fazer, por algum tempo, parte da vida social e religiosa do povo. O número 666 é a soma dos valores das letras do nome (Nero César). Para os romanos, cada letra do alfabeto tinha um valor numérico. O número 6, um menos que 7, é número de imperfeição; a tríplice repetição é a forma do superlativo hebraico: "santo; santo, santo", três vezes, equivale a "santíssimo"; a besta é totalmente imperfeita, destinada ao fracasso. O leitor é convidado a pensar e a adivinhar esta mensagem consoladora do autor (18).

14,1-5 Os salvos. A visão do Cordeiro com os escolhidos no Monte Sião recorda a descrição da comunidade cristã na Carta aos Hebreus (Hb 12,22-24). Os 144 mil são os membros do novo Israel de Deus (12 x 12 x 1.000), uma multidão imensa. A idolatria é vista na Bíblia como uma infidelidade à relação matrimonial que o povo tem com seu Deus. Esses 144 mil são os fiéis cristãos que permaneceram fiéis a Cristo sem adorar os ídolos. No Apocalipse, todo mundo recebe um selo, os que adoram a besta recebem sua imagem em suas mãos; os eleitos recebem um sinal do Cordeiro, a cruz, em suas frontes.

14,6-20 A hora do juízo. Os poderes do mal, com o dragão, foram derrotados no confronto com Miguel e os anjos (12,7-12). Os cristãos não se deixam assustar pelas bestas (13,16s; 14,9s). Uma vez mais, no versículo 12, .como o fez anteriormente (13,9.18), o autor pensa em algo que os leitores podem ver que está acontecendo. A fidelidade a Cristo pode passar pelo martírio (12s). A ceifa e a vindima são imagens tradicionais do juízo (Mc 4,29).

15,1-8 As sete últimas chagas. Sucede um novo centenário de pragas, que em certo modo repete e renova os sete selos e as sete trombetas. Só que é o último centenário, no qual se está consumando juízo. Os eleitos, como povo redimido do Egito depois de cruzar o mar Vermelho, estão junto de um mar de cristal e de fogo; cantam o cântico de Moisés e do Cordeiro, com um texto tomado de vários salmos. Enquanto os eleitos cantam, o mundo deve preparar-se para receber o pagamento de suas injustiças.

16,1-21 As taças da ira. As taças, como antes os selos, são os últimos chamados urgentes à penitência e à conversão. As pragas das taças não têm limitações de quantidade ou espaço, e afetam todo o universo; sua finalidade é tirar os obstáculos para o estabelecimento do reinado de Deus. Todas elas são uma reinterpretação escatológica das pragas do Egito de Ex 7-10. As quatro primeiras pragas afetam os elementos principais da natureza e da criação: terra, mar, água potável e o sol; as três últimas pragas contêm alusões a fatos históricos e políticos que estavam acontecendo ou que se esperava que fossem acontecer logo. A sétima praga das três séries é idêntica: visa ao futuro (8,1-5; 11,15-19; 16,17-21). Desde os dias do Êxodo, o povo oprimido vê um poder libertador nas calamidades da história; depois delas se espera um futuro de liberdade e felicidade. Os maus que não têm nada a esperar desesperam; o que devia lhes servir de remédio se lhes transforma em castigo. Har-Maggedon (16) é literalmente o Monte de Magedo; era uma cidade fortificada do norte de Israel próxima do Monte Carmelo, que guardava a entrada da fértil planície de Esdrelon. Por sua localização estratégica transformou-se em campo de batalha obrigatório e em lugar de desastres históricos (2Rs 9,21; 23,29; Zc 12,11). Os maus sofrerão um desastre definitivo.

17,1-18 Julgamento da grande prostituta Por sua, abertura à idolatria, o Império Romano era a grande prostituta religiosa que tudo contaminava. Os romanos acreditavam serem os salvadores do mundo. Para o autor do Apocalipse eram os opressores e seus pervertedores. Roma, cabeça e encarnação do império, era conhecida como a cidade das sete colinas (9), e gozava de um poderio, imenso. Os sete reis parecem ser os sete primeiros imperadores: Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Vespasiano e Tito; o oitavo, que se diz que é um dos sete, designa o imperador Domiciano, um novo Nero que perseguiu os cristãos com grande crueldade. O autor escreve nos tempos de Domiciano, mas aparenta viverem tempos de Vespasiano, o sexto imperador; assim pode anunciar a brevidade do reinado de Tito - dois anos-, e dar mais credibilidade às suas predições. Algo semelhante fez o autor do livro de Daniel aparentando viver durante o cativeiro de Babilônia. No Apocalipse, o autor anuncia com segurança a queda do poderoso Império Romano porque sabe pela história bíblica que os poderes e os impérios que oprimem o povo de Deus acabam se arruinando.

18,1-19,4 Queda de Babilônia. O anúncio da queda de Roma do final das perseguições­ narrado em estilo épico. As portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja.  O autor canta a queda de Roma com uma lamentação semelhante as que se usavam nas tragédias gregas da antiguidade; os amigos de Roma - reis, príncipes, comerciantes, rie pilotos, navegantes e marinheiros, cada qual por sua vez, pronunciam uma estrofe de lamentação. Roma permanecerá como a Jerusalém destruída cantada nas Lamentações de Jeremias (Jr 25,10). O Apocalipse contrasta o pranto dos ricos e poderosos com a alegria dos pobres, santos, apóstolos e profetas. Os cristãos com sua oração podem acelerar a queda dos poderes do mal.

19,5-10  As bodas do Cordeiro. Uma vez mais se anuncia o estabelecimento do Reino de Deus como uma realidade na história (11,17; 19,5). O símbolo matrimonial do senhor com Jerusalém (comunidade) é freqüente no AT. Dois textos nos interessam de maneira especial porque cantam as bodas do casamento de um rei vencedor: Is 62,1-9 e Sl 44: este é o esquema que o autor do Apocalipse segue. Mt 22,1 propõe a parábola "um rei celebrava as bodas de seu filho"; Lc 15,1 chama bem-aventurados os convidados ao banquete do reino. Na Igreja, todos são convidados à alegria porque fazem parte do cortejo das bodas de Jesus, o Cordeiro de Deus.

19,11-21 O cavaleiro vitorioso. Deixando pendente a celebração das bodas, passa a descrever a guerra da qual só nos apresenta o exército vencedor e as conseqüências da derrota. A guerra desse parágrafo é transposição metafórica com a qual o autor quer conjurar a violência da perseguição e a certeza da vitória. Essa colossal batalha de valores e projetos, travada no mais profundo dos homens e sociedades, no cenário da história, torna na superfície política a figura de uma vitória militar. A vitória de Cristo ao longo e no final da história está assegurada; os poderes do mal serão eliminados. O cavaleiro é descrito em detalhes que fazem ressaltar o poder e a glória do Cristo triunfante. Descrevem-se primeiro suas qualidades internas (lI) e depois sua figura exterior (l2-16). O nome que ele só conhece (12) é o nome sobre todo nome (FI 2,9). É o rei dos reis e Senhor dos senhores, com um título cujas letras somam 777, o número perfeito que proclama a grandeza de Cristo a todas as nações. Em sua primeira vinda, Jesus chegou como incógnito, quase como um estrangeiro sem documentos, fraco e humilde; poucos o reconheceram e nele acreditaram. Sua segunda vinda, que na teologia joanina continua acontecendo no longo da história, não pode ser ignorada. Cristo é o vencedor do pecado e da morte que assegura o triunfo dos que colocam nele sua fé.

20, 1-10 O milênio. Agora toca no principal responsável, o dragão com seus diversos nomes ou títulos. Mas aqui o autor realiza uma difícil operação, separando em segmentos temporais o que nós separaríamos em planos espaciais ou em "dimensões". O autor diz que, durante mil anos, o dragão estará acorrentado e que depois terá liberdade de ação por um tempo (segmentos temporais simbólicos); nós diríamos que em um plano é im­potente e em outro plano é poderoso. Qualquer tentativa de milenarismo, que procure interpretar os mil anos como um período concreto da história, fica imediatamente sem apoio. Além do mais, tudo se contempla em uma visão celeste, de caráter parabólico. O diabo tem poder sobre os que se deixam seduzir (Gn 3; 2Cor 11,3). Todos os que são fiéis a Cristo reduzem o diabo à impotência. Os fiéis perseguidos e martirizados pelas forças do mal sonham com o dia no qual o poder de Deus se manifeste reprimindo as forças do mal. O império perseguidor e as forças do mal simbolizadas em Og e Magog, depois de um breve tempo, acabarão na ruína. A Igreja perseguida terá uma ressurreição e vida nova, gozando da paz de Deus por um tempo ilimitado.

20,11-15 O juízo. Os textos bíblicos que falam do juízo final ou do julgamento das nações inimigas do povo de Deus estão escritos em estilo apocalíptico, com símbolos tomados dos profetas e do êxodo. Os inimigos do povo de Deus terão de dar conta de suas obras. O juízo de Deus se refere tradicionalmente à derrota das nações pagãs inimigas do povo escolhido; à história está repleta dos juízos de Deus. O juízo final já foi anunciando em 14,14-20 sob a dupla imagem da ceifa e da vindima. Aqui, o juízo é o triunfo definitivo de Cristo e dos cristãos, a vitória aberta do bem sem que os maus possam impedi-lo. O julgamento de Deus é a impotência do mal. O juízo final de Mt 25,31-46 deve se in­terpretar como uma parábola de prêmio para quem aceita e de castigo para os que se negam a aceitar as exigências do Reino de Deus.

21,1-8 Novo céu e nova terra. Diante da malvada Babilônia, Deus faz uma nova criação, uma nova humanidade, congregada em sua Igreja. Suas origens são divinas. A Nova Jerusalém é apresentada neste texto em seu aspecto exterior, como uma noiva enfei­tada, uma virgem fiel, o contrário da grande prostituta romana do Capítulo 17. Está se dando uma nova criação que traz à memória o capítulo 1 do Gênesis: criou-se o mundo novo que Deus quer que exista. Os pecadores ficam excluídos desse novo mundo, mas terão sempre a porta aberta para crer e converter-se nos novos filhos de Deus, o Israel de Deus.

21,9-22,5 A Nova Jerusalém. Uma vez mais apresentada a noiva e esposa do Cordeiro com seus adornos. A Cidade Santa tem figura de cubo de dois quilômetros lado, por ser essa uma figura geométrica perfeita. A muralha de 72 metros de altura parece despro­porcionada, pelas dimensões da cidade. Por estar protegida por Deus, não necessita de defesas humanas; a muralha serve mais como adorno. Esta é a Cidade de Deus edificada sobre os Doze apóstolos de Jesus. Cada porta é feita de uma só pérola (21,21). São portas de pérolas. Tudo o que tem de melhor, o mais precioso e belo passa a fazer parte dela Dentro dessa cidade encontra-se um novo paraíso com árvores da vida que asseguram uma vida eterna para seus moradores (22,2). Suas portas estão sempre abertas para todo aquele que queira aceitar a salvação de Deus pela fé em Jesus (21,25-27).