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1ª aula: Os destinatários e sua situação
1ª aula: Os destinatários e sua situação

 Jo

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A Primeira Carta de João faz parte das cartas chamadas “católicas”, que são a Primeira e a Segunda Cartas de Pedro; a Primeira, Segunda e Terceira Cartas de João, a Carta de Tiago e de Judas. A palavra “católica” é de origem grega e significa “para todos”, “universal”. Essas cartas foram denomina­das “católicas” porque são dirigidas a todos os cristãos ou provavelmente porque não tiveram dificuldades em ser acolhidas no cânone dos livros considerados inspirados para cristoas comunidades cristãs.

 

Essa carta também pertence à tradição “joanina”, por sua relação com o Evangelho segundo João, por trazer uma teologia parecida e, além disso, pelo uso de frases e pala­vras semelhantes aos escritos joaninos. Porém, há algumas diferenças, dado a problemática que o evangelista tenta res­ponder por meio do Evangelho, por ser diversa da realidade e das dificuldades com que o autor de 1Jo se defronta nas comunidades para as quais ele escreve.

 

A partir de agora, vamos conhecer a Primeira carta de João e um pouco da vida das comunidades onde esta carta circulou.


Quando alguém escreve alguma coisa, sempre tem na frente algum destinatário. Não se escreve sem pensar em destinatários. E quem escreve, quer comunicar algo. Isso faz parte da natureza da linguagem escrita. Para quem não escreveu o texto e quer entender melhor o recado do autor, é fundamental entender a situação dos destinatários. Portanto, entrando na 1ª Carta de João, a gente deve se perguntar.  Quem são os destinatários da carta? Onde viviam? Em que situação viviam? Quais problemas e desafios estavam enfrentando? Quais os recados que o autor quer passar? Por que esses recados? Como eles são passados? Onde está a Palavra de Deus em tudo isso?


 

1- Quem é o autor? Desde o II século d.C., a Primeira Carta de João foi atri­buída ao discípulo e ao apóstolo João, que era considerado o autor do quarto Evangelho, por causa das semelhanças literárias e teológicas existentes entre esses dois escritos (Jo e l Jo). Porém, ao ler Ato 4,13 percebemos que tanto João como Pedro eram analfabetos, iletrados, portanto o autor só poderia ser um membro da comunidade  joanina, talvez um discípulo de João.

 

2- Onde foi escrita e quando?   Essa carta, e as outras duas, foram escritas no início do século I ou início do II século e enviada de Éfeso para todas as comunidades da Ásia Menor.  O Apocalipse (capítulos 2 e 3) fala de sete comunidades concretas, mas certamente as comunidades eram muito mais numerosas, convocando-as para acreditarem que o Verbo da Vida se encarnou a serviço da vida em abundância. Alegremo-nos, pois o amor de Deus por nós é incondicional. Éfeso, provavel­mente, era a comunidade mais velha, ponto de partida para toda a irradiação posterior da mensagem cristã.

 

3- Elementos introdutórios A Primeira Carta de João (lJo), no Novo Testamen­to, faz parte das cartas chamadas “católicas”, que são a Primeira e a Segunda Cartas de Pedro; a Primeira, Segunda e Terceira Cartas de João, a Carta de Tiago e de Judas. A palavra “católica” é de origem grega e significa “para todos”, “universal”. Essas cartas foram denomina­das “católicas” porque são dirigidas a todos os cristãos ou provavelmente porque não tiveram dificuldades em ser acolhidas no cânone dos livros considerados inspirados para as comunidades cristãs. Essa carta também pertence à tradição “joanina”, por sua relação com o Evangelho segundo João, por trazer uma teologia parecida e, além disso, pelo uso de frases e pala­vras semelhantes aos escritos joaninos. Porém, há algumas diferenças, dado a problemática que o evangelista tenta res­ponder por meio do Evangelho, por ser diversa da realidade e das dificuldades com que o autor de 1Jo se defronta nas comunidades para as quais ele escreve.

 

 A preocupação do autor parece ser a de transmitir aos seus “amados” filhos aquilo que ele recebeu desde o princípio (1Jo, l;2,7.13.24;3,11). Assim, l Jo apresenta o testemunho de um líder dian­te de conflitos no interior da comunidade. Esses conflitos foram provocados por alguns membros que interpretavam de forma errônea aspectos fundamentais do seguimento de Jesus. Existem, portanto, dois grupos que se contrapõem: aquele que é fiel ao ensina­mento e à tradição joanina, e o grupo que é acusado de ter abandonado a fé autêntica e criado uma ruptura na unidade da comunidade por pensarem e viverem de modo errado. O autor joga duro contra esses e os chama de Anticristos.

 

Na fase que se refere à formação do Evangelho de João (até o ano 100), as comunidades do Discípulo Amado tinham sérios problemas e conflitos com grupos de fora. Elas, porém, mantinham-se unidas. Na época das cartas, os problemas eram internos. Na história da paixão, a túnica de Jesus, que não havia sido rasgada, representava a unidade interna das comunidades. Agora, no entanto, essa "túnica" se rasga, ou seja, os conflitos internos dividem as comunidades. A rede, que, sem rupturas, continha os 153 peixes grandes (capítulo 21 do Evangelho de João), agora se rompe, causando dispersão.

 

 No capítulo 17 do Evangelho de João, Jesus reza ao Pai para que seus seguidores sejam um, isto é, unidos como ele e o Pai são unidos. Essa grande corrente, que parte de Deus Pai, prolonga-se em seu Filho e continua em cada um dos seus seguidores, também se rompeu.

 

Quais foram os motivos de tal ruptura? Podemos assi­nalar quatro. Em primeiro lugar, uma visão diferente acerca de quem é Jesus. O conflito se dá, portanto, no campo da cristologia. Em segundo lugar, desentendimentos quanto ao tema do julgamento final. Em terceiro lugar, uma questão de ética, ligada ao mandamento do amor a Deus, que se expres­sa e se traduz no amor às pessoas. Finalmente, uma questão discutida acerca dá presença e da ação do Espírito Santo nas pessoas.

 

a) quem é Jesus? O primeiro conflito interno se dá no campo da cristologia, ou seja, na compreensão de quem é Jesus. O Evangelho de João, desde o início, havia deixado muito claro que Jesus é a Palavra encarnada do Pai. Essa Palavra esteve, desde sempre, junto de Deus, e ela própria é Deus. Tudo foi feito por meio dela, pois nela está a vida. Historicamente, ela se encarnou, assumindo a condição humana e revelando plena e perfeitamente quem é o Pai, a ponto de dizer "Eu e o Pai somos um", e "Quem me vê vê o Pai". E também: "Eu estou no Pai e o Pai está em mim". No capítulo 8 deste Evangelho, Jesus disse várias vezes "Eu sou", expressão que resume o nome de Javé Deus. Com isso ele se igualou ao Pai.

 

Algumas pessoas, dentro das comunidades do Discípulo Amado, começaram a negar essa visão profunda acerca de quem é Jesus. Era o começo do docetismo.

 

 b) haverá julgamento final? O segundo conflito interno das comunidades do Discí­pulo Amado diz respeito à escatologia, ou seja, ao final dos tempos. O Evangelho de João tem uma visão muito particular a respeito daquilo que conhecemos como julgamento final. Ele diz, no capítulo 3, que o julgamento foi trazido à ter­ra por Jesus. Em outras palavras, sua vinda é um divisor de águas. Diante dele, de suas palavras e ações, as pessoas têm duas opções: aceitá-lo e aceitar a vida, ou rejeitá-lo e rejeitar a vida. Quem o aceita e se compromete com ele não será jul­gado. Mas quem o rejeita atrai sobre si a condenação, pois rejeita a vida e seu autor. Dessa forma, pode-se, tranquilamente, dispensar o juízo final, pois ele acontece aqui e agora, segundo a opção que cada um faz a favor da vida, com Jesus, ou contra a vida sem Jesus. No final dos tempos, não haverá surpresa alguma, pois aqui na terra as pessoas vão construindo sua salvação ou sua perdição a partir do confronto com as palavras e ações de Jesus. É ele quem o afirma: "O julgamento é isto: a luz veio ao mundo, mas as pessoas preferiram as trevas à luz, pois suas obras eram más" (Jo 3,19). A luz, evidentemente, é Jesus.

 

Nas comunidades do Discípulo Amado, havia pessoas que não se importavam com a luz, ou seja, viviam nas trevas e diziam: "Tudo bem! Não haverá julgamento final". Apoiavam- -se nas próprias palavras de Jesus, que havia dito: "Quem es­cuta a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vai ser julgado, mas passa da morte para a vida" (Jo 5,24). A primeira carta de João bate de frente com essas pessoas e afirma que haverá um julgamento final, apresentan­do também as condições para chegar, com serenidade, a esse momento. Veja, por exemplo, 2,28: "Agora, portanto, filhinhos, permaneçam em Cristo. Assim, quando ele se manifestar, tere­mos confiança total e não seremos confundidos por estarmos longe dele em sua Vinda". Veja também 4,17: "A perfeição do amor em nós é isto: que tenhamos confiança total no dia do Julga­mento. De fato, neste mundo nós somos tal como ele é".

 

c) o que é amar? O terceiro conflito toca a "menina dos olhos" das comuni­dades do Discípulo Amado, o mandamento do amor. Nos três primeiros evangelhos, Jesus fala do mandamento número 1 e do segundo, semelhante ao primeiro: "O primeiro é... ame ao Senhor seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento, e com toda a sua força. O segun­do é este: Ame seu próximo como a si mesmo" (Mc 12,29-31; veja Mateus 22,34 e seguintes; Lucas 10,25 e seguintes).

 

No Evangelho de João não existem mandamentos prin­cipais e secundários. Existe apenas um Novo Mandamento: "Amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês", disse Jesus (veja 13,34). E mais: "Como o Pai me amou, assim tam­bém eu amei vocês. Permaneçam no meu amor" (15,9). E como Jesus amou? "Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até as últimas consequências" (13,1), isto é, até dar a vida, pois "ninguém tem maior amor do que aque­le que dá a vida por seus amigos" (15,13).

 

No capítulo 21, Jesus pergunta três vezes a Simão Pedro se o ama. Pedro responde sim, e Jesus lhe ordena que manifeste esse amor dando a vida pelas ovelhas, isto é, pelas pessoas.

 

 Nas comunidades do Discípulo Amado, havia pessoas de­clarando que era possível conhecer e amar a Deus sem que isso implicasse amar as pessoas. Esse gesto representava a morte do mandamento do amor. Era o começo de um movi­mento chamado gnosticismo.

 

d) quem possui o Espírito? Desde o Antigo Testamento, Espírito Santo e profetas an­dam juntos, estes falando movidos por aquele. No Evangelho de João, Jesus declara que o Espírito é o Mestre dos discípu­los, suscitando neles a memória das palavras e ações de Jesus: "O Espírito Santo, que o Pai vai enviar em meu nome, ensinará a vocês e lhes recordará tudo aquilo que eu disse" (Jo 14,26). E também: "Quando vier, o Espírito da Verdade conduzirá vo­cês à verdade plena, pois não irá falar de si mesmo, mas dirá tudo aquilo que tiver escutado, anunciando a vocês as coisas futuras" (Jo 16,13).

 

Portanto, a fidelidade dos cristãos a Jesus depende da escuta atenta do Espírito Santo. Aqui reside o quarto desen­tendimento nas comunidades do Discípulo Amado, um confli­to no campo da pneumatologia, ou seja, referente ao Espírito Santo, que move os profetas.

 

Mas, desde o Antigo Testamento, há uma tensão entre verdadeira e falsa profecia. Como saber quando uma profecia é verdadeira e quando é falsa, sendo que o falso profeta é muito hábil em imitar o verdadeiro? De fato, nada se pare­ce mais com um verdadeiro profeta do que um falso profeta (veja, por exemplo, Apocalipse 13,11-18).

 

Nas comunidades do Discípulo Amado, todos se diziam movidos pelo Espírito. Como, então, discernir? A primeira car­ta de João oferece uma chave importante: para saber se uma profecia é verdadeira ou falsa, observe a serviço de quem está o profeta. Assim: "Amados, não acreditem em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se são de Deus. De fato, muitos profetas falsos vieram ao mundo. Eis o critério para reco­nhecer o espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus se encarnou vem de Deus. Mas todo espírito que não confessa a encarnação de Jesus não é de Deus... Eles são do mundo; por isso falam conforme o mundo, e o mundo lhes dá atenção. Nós somos de Deus. Quem conhece a Deus é que nos escuta, mas quem não é de Deus não nos escuta. É assim que reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro" (4,1-3.5-6).

 

 Os resultados foram dois. O grupo que discordava foi obrigado a se retirar. É o que se lê em 1 João 2,19: "Eles foram embora do meio de nós, mas não eram dos nossos. Se tives­sem sido dos nossos, teriam ficado conosco". Esse grupo foi para o gnosticismo. 

 

4-  A finalidade.  Testemunhar que Jesus se fez carne e assim combater o docetismo que estava se infiltrando nas comunidades. Docetismo palavra que vem de um verbo grego que significa parecer. Os docetistas afirmam que Jesus não se encarnou e que toda a vida dele – inclusive a sua morte na cruz- foi um “perfeito faz de conta”. 

 

Assim: nas novelas da Tv, bem como no teatro e no cinema, os atores  assumem papéis que não têm nada a ver com a vida deles. A vida e os sofrimentos de Jesus não teriam sido coisas reais, mas pura representação. Je­sus, portanto, não teria sido senão um grande ator. É supérfluo dizer que isso implodia os evangelhos e induzia os cristãos a "fazer de conta" que eram cristãos. Em síntese, uma religião de aparências.

 

Ao ler a primeira carta de João podemos  anotar com quanta insistência o autor tenta ajudar as comunidades a superarem esse conflito. Por exemplo: Logo na abertura da carta temos os verbos: ouvir, ver, contemplar, apalpar, ou seja, Jesus não era uma miragem. Note como os sentidos das pessoas que estiveram com ele estão envolvidos em 1,1: audição, visão, tato. O testemunho que elas dão não é algo banal que se possa pôr em dúvida. Há um acento especial nos sentidos para comprovar a manifestação da Palavra da Vida. Testemunhar que Jesus se fez carne é o tema principal da primeira carta de João, e é também o ponto crucial de desentendimentos e conflitos em algumas comunidades.

 

5 - Abrindo a Carta Logo na abertura da carta temos os verbos: ouvir, ver, contemplar, apalpar com as nossas mãos o Cristo, a Palavra da Vida. Dar testemunhar que Jesus se fez carne é o tema principal da primeira carta de João, e é também o ponto crucial de desentendimentos e conflitos nas comunidades. Porque alguns membros dessas comunidades não reconhecem o Jesus da história, o Messias encarnado. Eles são chamados de “anticristos” (1Jo 2,18; 4,2-3; 2Jo 7) falso profetas (4,1), enganosos (2,26; 3,7), mentirosos (2,22), por não viverem como Jesus Cristo e por ser do mundo da injustiça.

 

Esse grupo propõe um ensinamento gnóstico (gnosis em grego, conhecimento), afirmando que a pessoa se salva graças a um conhecimento religioso e pessoal de Cristo Jesus, que é Espírito e portador da gnose, o conhecimento que salva. Pelo conhecimento, sem a prática, eles afirmam estar em íntima comunhão com Deus, ser iluminados , livres do pecado. Por isso, não estão empenhados no amor ao próximo e na prática da justiça (4,20-21).

 

Conforme a  primeira carta de João, não é possível amar a Deus (Pai) sem amar o próximo (os filhos de Deus). Os dissidentes “espirituais” são acusados de “anticristos” não viverem como Jesus Cristo feito carne e por seguirem os valores do mundo, ou seja, do império romano: “Eles são do mundo, e por isso falam a linguagem do mundo, e o mundo os ouve” (4,5). O autor da carta ainda faz o seguinte alerta: “Não amem o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não  está  nele” (2,15).

 

Qual o mundo a que eles pertencem e seguem? A primeira carta de João foi escrita provavelmente pouco depois do evangelho de João, no final do século I e início do século II, em Éfeso, na Ásia Menor, onde provavelmente havia uma comunidade cristã signifi­ca. Esta era uma das maiores cidades do mundo greco-romano.

Um olhar para a comunidade de Éfeso.

A primeira carta de João foi escritEfesoa provavelmente no fim do séc. I e início do II século d.C, ou seja, entre os anos 100 e 130, e possivelmente, por alguém que viva  na Ásia menor, provavelmente na cidade de Éfeso, atualmente Selçuk, na Turquia. Éfeso era uma das cinco maiores cidades do império romano (ao lado de Roma, Alexandria, Antioquia e Corinto).

 

Na época do Novo Testamento, Éfeso contava com cerca de 250 mil habitantes, dos quais 2/3 eram pessoas escravizadas. Quer dizer, em cada três pessoas duas eram escravas. A cidade possuía um teatro para mais de 20 mil pessoas e um grande porto. Era o centro comercial mais importante da Ásia Menor. Uma metrópole com muita riqueza, luxo e glória, que atraía multidões em busca de poder, riqueza e prazer.

 

No aspecto religioso destacava-se o impressionante templo dedicado à Deusa Ártemis, que possuía mais de 100 colunas de mármore, com 20 metros de altura cada uma. Ele tinha 115 m de comprimento e 55 m de largura. Sua construção durou 120 anos.

 

 

 

Na época do Novo Testamento, Éfeso,  com cerca de 250 mil habitantes era uma das cinco principais cidades pode­rosas  e mais prospera no mundo greco-romano.

 

A grandeza e a  prosperidade de Éfeso transparecem nas  construções nos nos movimento da cidade. A metrópole ostentava muitos prédios e espaços importantes, como , templos, teatros, mercados, biblioteca e um arco do triunfo.  

 

As escavações arqueológicas apontam os monumentos  esplêndidos das épocas grega e romana:

 

a) o  Templo de Ártemis uma das sete maravilhas do mundo antigo; 

b) O grande teatro com capacidade de cerca de 24 mil  pessoas em suas arquibancadas;

 

c) A praça do mercado (ágora, em grego), com inúmeras lojas e grande movimento. Éfeso era uma das cidades mais movimentadas e  próspera do império romano, atraindo pessoas de todas as partes do  mediterrâneo. Uma população mista: egípcios , gregos, ítalos, sírios, judeus, entre outros. Essa diversidade  se refletia também em sua multiplicidade cultural e religiosa. Além do templo de Ártemis, vários outros templos  e santuários da era romana foram descobertos  ali, como o santuário dedicado a Serápis deus egípcio. As evidências indicam que Éfeso era uma variedade de cultos de diversas religiões, sem mencionar a a presença de diferentes escolas  filosóficas e de magos.

 

Prosperidade,  grandeza, beleza, poder e diversidade  faziam de Éfeso uma verdadeira cidade cosmopolita. Nela circulavam muitas  pessoas e muitas mercadorias por via terrestre e marítima, em uma busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra (helenização Cf Sb 2). Esse era o espírito mundo-grego romano dos poderosos, chamado de Maligno em 1Jo 2,13. Ao mesmo tempo  a cidade presentava também os males da ganância , da exploração, corrupção, violência, imoralidade, desigualdade, miséria, fome e morte  em seu seio: “ Pois tudo o que há no mundo – os  maus desejos vindos da carne e dos olhos, a arrogância provocada pelo dinheiro - são coisas que não vêm do Pai,  mas do mundo” (2,16).

 

A grande massa de “imigrantes pobres e escravos vindo do Oriente Médio e das margens do Mediterrâneo chegou a Éfeso para ganhar a vida e sobreviver na cidade cosmopolita. Eram pessoas pobres e desenraizadas! Elas sofriam com a insegurança e a violência na periferia.  Nessa cidade, a Boa-Nova de Jesus Cristo foi semeada e espalhada, enfatizando o amor ao próximo (2,3-11).

 

Éfeso era uma típica sociedade escravagista! A ri­queza era produzida a partir do trabalho escravo. Cerca de dois terços da população era constituída por  pessoas pobres e escravizadas, vivendo à margem da sociedade! Os escravos, considerados como mercadoria e proprieda­de, sofriam muitas vezes injustiça, violência e crueldade. Nessa sociedade,  pairam sofrimento, desespero, revolta dos pobres!

imperio romanoUm dos meios de o império romano controlar os habitantes em uma cidade como Éfeso é a rede (sistema) de patronato ou clientelismo, caracterizada pela troca de favores entre as pessoas, criando uma verdadeira teia de submissão, dependência, influência e poder.


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A prática de um patrono rico favorecer o cliente pobre cria depen­dência e submissão, porque a pessoa pobre deve sentir-se grata e devedora de favores ao poderoso. No topo estava Cesar, o Imperador, patrono de todos, os últimos não se contavam, eram simples clientes ou dependentes de outros, que também eram clientes de outros até se chega ao Imperador. A grandeza estava em estar no topo da pirâmide ou bem próximo dele

 

O império romano, tendo o imperador como “pa­trono supremo”, organiza a sociedade hierárquica pelo sistema piramidal/patronal para controlar e subjugar o povo. O patronato está presente em todas as dimensões da so­ciedade, especialmente nas associações, um fenômeno muito comum no mundo greco-romano, e é quase im­possível viver à sua margem. A hierarquia da sociedade de patronato e clientelismo dificulta o surgimento de movimentos de resistência e de protesto contra os po­derosos patrocinadores. Abafa e engole a exploração, a violência e a humilhação, sofrimento, desespero, divide os pobres e dificulta a revolta dos explorados no mundo greco-romano opressor.

 

Nesse contexto, a associação “Cristã” está na contra­mão do patronato. No seguimento do evangelho de Jesus, o Messias encarnado, a associação cristã tenta promover a solidariedade com os pobres, buscando propiciar a eles espaço de liberdade e dignidade, sem criar dependências, não se deixando corromper pelas estruturas injustas de patronato ou clientela. Procura não fazer distinção de pessoas, como age o mundo greco-romano, que pratica a injustiça, privilegiando os ricos e os detentores do poder. Daí o princípio fundamental que orienta a ação cristã: o amor ao próximo que é manifestado na vida concreta de Jesus, o Messias encarnado (3,11-24).

 

Na comunidade cristã, com a rede de solidariedade, constatam-se várias ações concretas: a) partilha de ali­mento com os pobres; b) acolhimento dos forasteiros, estrangeiros e perseguidos; c) atendimento a viúvas e crianças órfãs; d) sepultamento digno para os pobres es­cravos. O grupo social menos favorecido recebe a atenção especial da caridade praticada pela comunidade cristã, o contrário do mundo escravagista.

 

Porém, como testemunham a carta de Judas e a segunda carta de Pedro, as comunidades cristãs da Ásia Menor (século I ou início do II) sofrem com divisões internas e conflitos, provocados pelos falsos profetas ou mestres mestres (1Jo 8-19; 2Pd 2,1-3). Eles renegam Jesus como o Messias encarnado, sua vida terrestre, morte, ressurrei­ção, e a promessa da sua volta gloriosa. Como não haverá “parusia” (a vinda do Senhor), nem julgamento, tudo é permitido, podem realizar, até com extravagância, todos os desejos - “imundícies” (1 Jo 16; 2Pd 2,13-14).

 

Esses ensinamentos e práticas se enquadram no movimento gnóstico, que se desenvolveu mais forte­mente no século II. Para os profetas e mestres gnósticos, a salvação está no conhecimento ou “gnosis”, em grego, desligado da vida prática. Através somente do esclarecimento mental e espiritual, a pessoa entra em comunhão com o Deus verdadeiro. Dessa forma, a fé cristã é substituída pelas buscas espirituais sem o se­guimento do evangelho de Jesus Cristo. Como estando na união com Deus, na vida moral, não há pecado nem julgamento de Deus, portanto justifica libertinagem, corrupção e imundícies.

 

As cartas (segunda de Pedro e Judas) mostram ur­gência em seus propósitos de advertir as comunidades cristãs contra os falsos profetas ou mestres. Repreendem e rejeitam os pensamentos e as práticas dos falsos profe­tas, que estão atuando dentro das comunidades, os quais buscam destruir a fé alimentada pela prática do evangelho de Jesus Cristo, transmitida pelos apóstolos (1Jo 3).

 

Assim como as duas cartas católicas (Jd e 2Pd), a primeira carta de João, uma carta católica do fim do século I ou começo do século II, tem o mesmo problema e o objetivo de advertir as comunidades contra os falsos profetas ou anticristos, que brotam do seio das comuni­dades (2,19):

 

a) Mundo e libertinagem: “Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo - os maus desejos vindos da carne e os olhos, a arrogância provocada pelo dinheiro - são coisas que não vêm do Pai, mas do mundo" (2,15b-16).

 

b) Renegar Jesus como o Messias: “Quem é o men­tiroso, senão quem nega que Jesus é o Messias? Esse tal é o Anticristo, aquele que nega o Pai e o Filho” (2,22);

 

c) Conhecer a Deus: “Quem diz que conhece a Deus, mas não trata de guardar os mandamentos dele, é mentiroso; nesse não está a verdade” (Jo 2,4).

 

Alguns membros se afastam da comunidade porque pretendem viver a vida que vem do mundo do Maligno: desejos desenfreados de riqueza e de prazer, por isso, rejeitam Jesus Cristo, o Messias encarnado, e não pra­ticam os mandamentos do amor ao próximo. Mas eles dizem que têm o conhecimento de Deus, por isso, estão em comunhão com Deus sem pecado e julgamento. Com seus pensamentos e práticas, eles provocam conflito e divisão na comunidade.

 

Diante do conflito desordenado com os inimigos ou rivais, o autor de 1 Jo, o representante da comunidade, reage energicamente, condenando e declarando que eles são "anticristos”, que têm aparecido na comunidade. Aler­ta a comunidade para que fique atenta e saiba discernir quem são os anticristos ou os falsos profetas.

 

Estrutura da primeira carta de João

 

A comunhão com Deus e com o seu Filho Jesus Cris­to é o tema principal da primeira carta de João: "Quem confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus” (4,15). Essa confissão implica assu­mir o mandamento do amor: “Que acreditemos no nome do seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, conforme o mandamento que ele nos deu” (3,23b; cf. Jo 13,34; 15,17). É no amor fraterno que cada pessoa se torna morada de Deus e de Jesus Cristo.

 

Abrindo a primeira carta de João, deparamo-nos com um texto que nos coloca no chão das primeiras comunidades cristãs. Em toda a carta, o autor evidencia a importância da encarnação de Jesus Cristo. É possível que as comunidades estivessem influenciadas por outras formas de compreender Jesus Cristo, acolhendo ensina­mentos que distinguiam entre Jesus, o homem, e o Cristo, o enviado de Deus, negando a dimensão e a importância de Jesus e sua morte na cruz.

 

Há diferentes formas de entender como está dividida a primeira carta de João. Alguns afirmam ser a reunião de 5 a 9 trechos de homilias; há também a proposta que sustenta ser a reunião de duas cartas; outros observam que a carta possui a mesma estrutura do evangelho de João (prólogo, epílogo e duas partes). Aqui, vamos utilizar a estrutura proposta que divide a carta em três partes (1,5- 2,28; 2,29-4,6 e 4,7-5,13), contendo um prólogo (1,1-4) e um epílogo (5,14-21).

 

Prólogo (1,1-4): Vimos, escutamos, contemplamos e tocamos o Verbo da Vida! O prólogo apresenta uma síntese da carta testemunhando, com todos os sentidos, a Encarnação, reforçando a comunhão com o Pai, o Fi­lho e a comunidade. Jesus Cristo é a Palavra encarnada!

 

Primeira parte (1,5-2,28): Deus é luz. Luz é sinônimo de vida, de realidade do bem; Trevas é tudo que se opõe à vida, indica as realidades contrárias ao projeto de Deus. Caminhar na luz é aceitar o projeto de Deus realizado na vida e morte de Jesus Cristo (1,5-7). Esse caminho tem quatro condições: a) reconhecer-se pecador (1,8-2,2), b) o amor (2,3-11), c) não amar o mundo (2,12-17), d) preservar-se dos anticristos (2,18-28). Para essa comunidade, pecado é adesão às realidades de injustiças. Caminhar na luz exige vivenciar o mandamento do amor, base das relações humanas. "Quem diz que permanece em Deus deve caminhar como Jesus caminhou” (2,6). As pessoas são orientadas para não aceitar as realidades de injus­tiças, denominadas pelo autor de “mundo”. Finalizando essa parte, o autor faz um apelo para que a comunidade reconheça e saiba se preservar do Anticristo: aquele que nega que Jesus é o Messias (cf. 2,22).

 

Segunda parte (2,29-4,6): É a partir de Jesus que podemos ser chamados de filhas e filhos de Deus, cuja exigência é viver a prática da justiça. Há três condições para caminhar na justiça: a) romper com o pecado (3,3- 10); b) observar o mandamento do amor (3,11-24); c) discernir o verdadeiro Espírito (4,1-6). Nessa parte, há um forte contraste entre a justiça e o pecado. O amor e a solidariedade comprovam a nossa identidade de filhas e filhos de Deus. A marca da vida cristã é o amor frater­no: “Jesus entregou sua vida por nós; portanto, também nós devemos entregar a vida pelos irmãos” (3,16b). A comunidade é desafiada a examinar os espíritos para ver se vêm de Deus e o critério é acreditar que “Jesus Cristo veio na carne” (cf. 4,2).

 

Terceira parte (4,7-5,13): Amor e fé são os temas da terceira parte. Ao abordar o tema do amor, por duas vezes o autor afirma que Deus é Amor (4,8.16). Amar é fazer a experiência da essência divina presente em nós. O amor de Deus é concreto: “Deus enviou seu Filho único ao mundo, para podermos viver por meio dele” (4,9). E o amor fraterno que nos possibilita conhecer a Deus. A única forma de permanecer em Deus é no amor. O amor toma a pessoa livre: “No amor não existe medo” (4,18a). E fazendo a experiência de amar e ser amado que a pessoa pode vencer o mundo, as realidades de injustiça. Assim, o autor anuncia o último tema: a fé (5,4-13). É capaz de vencer o mundo quem acredita que Jesus é o Filho de Deus, ele é o Messias Encarnado, o amor de Deus feito carne. Ele é a fonte da vida eterna (5,11-12). A carta con­clui reforçando que a comunidade que acredita no nome do Filho de Deus tem a vida eterna (5,13).

 

Epílogo (5,14-21): Oração pelos pecadores e a fé em Jesus Cristo. E a oração que nos coloca em contato com o projeto de Deus e com as pessoas. A comunidade é cha­mada a rezar pelas pessoas sujeitas à fraqueza humana, “o pecado que não leva à morte”. A rejeição do projeto que Deus realiza por meio de Jesus Cristo encarnado é um pecado que leva à morte. O texto finaliza com uma advertência: “Filhinhos, fiquem longe dos ídolos” (5,21). É preciso afastar-se de qualquer tipo de idolatria. Deus quer vida plena para todas e todos.

 

A primeira carta de João é um texto para ser lido e meditado muitas vezes. É preciso acreditar que a Pala­vra da Vida continua se encarnando entre nós para ser Caminho, Verdade e Vida nos inspirando novas práticas de amor ao próximo. É o que acontece na organização dessa carta, vemos os mesmos temas serem retomados e aprofundados com enfoques diferentes.

 

Atos dos apóstolos nos informa que lá havia sinagoga, ou sinagogas (At 18,19; 19,6), e além da comunidade Joanina haviam outros grupos de seguidores de Jesus na cidade. As comunidades joaninas, através de 1ª João nos apresentam uma proposta de como seguir Jesus, como enfrentar o Maligno, o espírito do mal, nessa cidade que por trás do esplendor escondia os males do mundo do Império, como: ganância, desigualdades sociais, corrupção, violência, fome, miséria e imoralidade.

 

Alguns membros, chamados de anticristos e falsos profetas, se afastam da comunidade porque pretendem viver a vida que vem do mundo do Maligno: desejos desenfreados de riqueza, de poder e de prazer, por isso, rejeitam Jesus Cristo, o Messias encarnado, e não praticam os mandamentos do amor ao próximo. Mas, eles dizem que têm o conhecimento (gnosis em grego) de Deus, por isso, estão em comunhão com Deus sem pecado e julgamento. Separam a fé em Deus da prática do evangelho de Jesus Cristo, abrindo e justificando, assim, o espaço para sua atuação no mundo. Com seus pensamentos e práticas, os anticristos seduzem os fieis e provocam conflitos e divisões na comunidade.

 

Diante do conflito desordenado com os dissidentes ou inimigos, o autor da primeira carta de Jo, o representante da comunidade, reage energicamente, condenando e declarando que eles são “anticristos”, que têm aparecido no seio das comunidades. Alerta as comunidades para que fiquem atentas e saibam discernir quem são os anticristos ou os falsos profetas que dizem que conhecem a Deus, mas não observam os mandamentos dele: o amor ao próximo.

 

A primeira carta de João é um texto para ser lido e meditado muitas vezes. É preciso acreditar que a Palavra da Vida continua se encarnando entre nós para ser Caminho, Verdade e Vida nos inspirando novas práticas de amor ao próximo. É o que acontece na organização desta carta, vemos os mesmos temas serem retomados e aprofundados com enfoques diferentes. Vejamos a estrutura da carta.

 

Prólogo (1,1-4): Palavra (Verbo) encarnada e comunhão.

Primeira parte (1,5-2,28): Caminhar na luz

Introdução (1,5-7)

a) Primeira condição (1,8-2,2): Confessar o pecado, purificado pelo sangue de Jesus

b) Segunda condição (2,3-11): Observar o mandamento do amor

c) Terceira condição (2,12-17): Não amar o mundo

d) Quarta condição (2,18-28): Preservar-se dos anticristos

Segunda parte (2,29-4,6): Viver como filhos de Deus

Introdução (2,29-3,2):

a) Primeira condição (3,3-10): Romper com o pecado

b) Segunda condição (3,11-24): Observar o mandamento do amor

c) Terceira condição (4,1-6): Discernir entre quem vem de Deus e quem não vem de Deus.

Terceira parte (4,7-5,13): Amor e fé

a) O amor (4,7-5,4); Deus é Amor

b) A fé (5,5-13): Crer em Jesus, Filho de Deus

Epílogo (5,14-21): A oração pelos pecadores e a fé em Jesus Cristo.

 

 

A primeira carta de João apresenta para seus leitores e leitoras o convite para romper com o pecado, com o mundo e com os anticristos. Há um acento especial para observar o mandamento do Amor, porque Deus é amor.  Que a leitura e a meditação dessa carta possam reavivar em cada pessoa o sentido de uma autêntica vivência cristã. Que novamente possamos ver, ouvir, contemplar, tocar e testemunhar a Palavra da Vida!

 

Perguntas para avaliar seu conhecimento

1- Qual é o tema principal dessa carta?

2- O que motivou o seu surgimento?

3- Em que cidade da Ásia Menor surgiu esta carta e quais as suas características

4- Qual era o meio de o império romano controlar os habitantes das cidades dominadas?

5- Em que as comunidades cristãs estão na contramão daquilo que prega o império romano?

6- Quem são os anticristos?

7- Qual o mundo a que eles pertencem e seguem?

 

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Para ir para a introdução: carta-de-joao3

Para ir para a 2ª Aula: 2ª aula jesus o-messias-encarnado

Para ir para a 3ª Aula: 3ª aula   preservar se do mundo - maligno

 

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