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2 - O CEGO DE NASCENÇA JOAO 9,1-41
2 - O CEGO DE NASCENÇA JOAO 9,1-41

Situando o texto: De acordo com o ensinamento oficial do Antigo Tes­tamento, as doenças e as desgraças eram consideradas como castigo de Deus por causa do pecado. O fato de as pessoas nascerem com algum tipo de doença era atribuí­do ao pecado dos pais (Ex 20,5; 34,7; Nm 14,18; Jo 9,2.34).

 

No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, essa crença continuava existindo através das leis dos fariseus e escribas que excluíam os pobres e os doen­tes. Conforme a Lei, interpretada pelos dirigentes da co­munidade judaica, uma pessoa doente era pecadora, con­siderada impura (Mc 7,14-30; 15,25-34) e sua participação na sociedade era limitada; por exemplo, não tinha acesso ao culto. Naquele tempo, havia grande nú­mero de pessoas à margem da sociedade, muitos viviam como mendigos. Vamos ver como esse problema apare­ce na comunidade joanina e responder as seguintes perguntas:

 

-Por que o cego foi expulso da sinagoga?

 

-Quais os problemas que a comunidade de João estava vivendo?

 

Atualização: O cego é uma figura representativa da comunidade joanina. As pessoas que começaram a enxergar aceita­ram a proposta de Jesus. Começaram a viver de um jeito novo. A Lei passou a ser vista e vivida em função da vida. A comunidade cristã tentou não criar divisões entre as pessoas e viver a solidariedade, que se manifesta através dos gestos de Jesus com o cego. Para os cristãos, a vida era maior que a Lei. Isso incomodou as autoridades judai­cas e os cristãos acabaram sendo expulsos da sinagoga.

 

  • Hoje, quais são os preconceitos que nos separam uns dos outros, como, por exemplo, o preconcei­to contra as mulheres?

 

  • De que cegueira precisamos nos libertar para ser­mos verdadeira comunidade de irmãos e irmãs?

 

  • O que fazemos em favor dos deficientes em nos­sa casa e em nossa comunidade?

 

Situando o texto no contexto: o cego de nascença é figura que representa o gru­po de pessoas que começaram a enxergar, na proposta cristã, um novo jeito de viver: um projeto de vida ba­seado no amor e na solidariedade. Isso provocou uma ruptura no esquema proposto pelos judeus fariseus, que exigiam o cumprimento da Lei. Os judeus fariseus, acusaram os judeus cristãos de ser infiéis às exigên­cias da Lei de Moisés, interpretadas pelos escribas. A vivência dos cristãos acaba afirmando: a vida vale mais do que a lei. E isso provoca uma reviravolta: tira a sus­tentação ideológico-religiosa do cumprimento da Lei e da cobrança de tributos. Por isso, os judeus cristãos passam a ser perseguidos por todos aqueles que viviam do Templo e dos cultos e viam diminuir suas fontes de renda.

 

Os conflitos aumentaram, culminando com a expul­são dos judeus cristãos da sinagoga. Isso aconteceu por volta do ano 85 d.C. Separados da comunidade judaica, os cristãos ficaram sem proteção, sem trabalho, sem re­lações sociais e comerciais, separados de sua tradição religiosa, dos serviços e ritos religiosos. Portanto, sem a religião judaica farisaica, permitida pela lei do império, os judeus cristãos deveriam assumir outra religião que fosse reconhecida pelos romanos, caso contrário seriam vistos como inimigos.

 

Roma impunha a sua religião: o culto ao imperador. Não aceitar a religião do Estado significava ir contra ele e ser tachado de subversivo. O culto ao imperador se chocava com a consciência cristã. Os cristãos eram con­siderados inimigos do Estado havia muito tempo. Por isso eram vigiados e tidos como responsáveis por todas as desgraças que aconteciam na cidade. Em Roma, os cristãos estavam fichados nos registros da polícia.

 

A situação da comunidade era de muita inseguran­ça. De um lado, as autoridades religiosas e do império mantinham sobre ela uma contínua vigilância. O me­nor deslize seria motivo para denúncia, prisão, tortura e apedrejamento. De outro lado, a multidão passou a ver os cristãos como pessoas suspeitas, gente perigosa e imoral.

 

Naquele tempo, era o Estado que concedia às pes­soas o direito de se reunir em associações. Os cristãos não tinham esse direito. O simples fato de se reunir era motivo de denúncia por perturbar a ordem e a seguran­ça da nação. As pessoas mais pobres tinham o direito de se reunir para ajuntar fundos para os funerais. É possí­vel que muitos cristãos tenham se reunido através des­sas associações, daí o nome de cristãos das catacumbas.

 

Essa situação de dor e exclusão obrigou o grupo dos judeus cristãos a definir qual era a sua verdadeira identidade, a reconhecer Jesus como o Filho do Homem (9,35-38).

 

Comentando o texto: Na festa das Tendas, Jesus sobe a Jerusalém e ensi­na no Templo (7,14); entra em choque com os fariseus e escribas e se vê obrigado a se retirar às escondidas (8,59).

 

Ao sair do Templo, vê um cego de nascença e se aproxi­ma. Além da doença física, o cego sofria de outro mal: o isolamento e a solidão. Com o gesto de se aproximar, Je­sus ultrapassa a Lei e privilegia a vida.

 

A cura do cego é um dos sinais escolhidos pela co­munidade joanina para mostrar que Jesus é o Filho de Deus (9,1-7). O cego representa a comunidade. Ele não se encontra no Templo, mas no caminho. Conforme a Lei de Moisés, interpretada pelas autoridades judaicas, a doença era conseqüência do pecado. A comunidade cris­tã apresenta uma nova visão: não, a doença não está re­lacionada ao pecado, mas pode servir para a manifesta­ção da obra de Deus (9,3). E a obra de Deus é que o ser humano tenha vida e uma vida saudável, que as pessoas tenham casa, comida, integração social, enfim, que elas vivam plenamente (10,10).

 

Os vizinhos, acostumados com o cego vivendo na mendicância, estranham. As pessoas dentro do esquema oficial não conseguem entender a transformação daque­les que vivem uma nova proposta de vida (9,8-12). Dian­te dos questionamentos e do conflito, o cego se define e assume a sua própria identidade (9,9). Ele conta como foi a sua cura e o fato de Jesus mandá-lo à piscina de Siloé para se purificar, único local oficial de cura: "Fui, lavei-me e recobrei a vista" (9,11).

 

As pessoas que vivem o sistema estabelecido pelo judaísmo farisaico e pelo império romano, inconforma­das diante desse novo fato, levam o cego para as autori­dades judaicas (9,13-17). Os mestres e os doutores da Lei não aceitam que a salvação aconteça fora do domínio deles. Isso prejudica sua organização e sua fonte de renda. Como o cego insiste em sua versão sobre a cura, as autoridades convocam os seus pais para um interro­gatório (9,18-23). Os pais não tomam partido, não ex­pressam nem mesmo a alegria diante da cura, porque  aqueles que reconhecessem Jesus como o Cristo seriam expulsos da sinagoga (9,22).

 

E o julgamento continua. Novamente o cego é con­vocado para um interrogatório (9,24-34). Neste interro­gatório, o cego tem maior autonomia: ele desafia, de maneira irônica, as autoridades: "Por que quereis ouvir novamente? Por acaso quereis tornar-vos seus discípu­los?" (9,27). Tem a ousadia de questionar o conceito de pecador imposto pelos fariseus: "Sabemos que Deus não ouve os pecadores, mas se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a este Deus escuta" (9,31). O cego vai além, ao afirmar que, se aquele homem não fosse de Deus, nada poderia fazer (9,33). A conseqüência de ter sido curado, de abrir os olhos, é uma maior conscien­tização e não-aceitação da opressão. Isto leva à expul­são (9,34).

 

A comunidade experimentou, através de Jesus, a gratuidade do amor de Deus, por isso conseguiu perma­necer fiel diante da pressão do sistema dominante: o império romano e os judeus fariseus. Ao ser expulso da sinagoga, o cego reconhece Jesus como o Filho do Ho­mem: "Eu acredito, Senhor" (9,38). É somente após a aceitação e a fidelidade das pessoas que Jesus se revela como o Messias (4,26; 9,37).

 

Neste Evangelho temos dois grupos bem definidos (9,40-41): de um lado está o ex-cego - o grupo dos ju­deus cristãos. De outro, estão os judeus fariseus, os que se julgam esclarecidos (9,16.22.24.29.34), mas que na realidade são incapazes de reconhecer Jesus presente e vivo na comunidade. Eles permanecem em sua ceguei­ra porque recusam o projeto da partilha e da solidarie­dade. É como diz o povo: "O pior cego é aquele que não quer ver".

 

Aprofundamento: Quem se opõe à comunidade e a perse­gue?

No Evangelho de João a palavra mundo aparece 78 vezes, com os, seguintes sentidos: planeta como espaço físico (1,10; 3,16), humanidade (3,17) e os inimigos (8,23; 15,18-19; 16,11; 17,6.14.16). O uso mais comum da pala­vra mundo, neste Evangelho, é o de nomear as pessoas que faziam oposição à comunidade: os judeus fariseus e o império romano. O grupo dos fariseus tem sua origem no grupo dos piedosos, homens fiéis à Lei de Moisés. A preocupação deles era com o estudo e o ensino da Lei. Após a destruição do Templo (70 d.C.), os judeus fariseus se tornaram o grupo dominante, aliado dos romanos e perseguidor dos cristãos.

 

O domínio do império romano, vigente desde 63 a.C. até o século III, foi um período de muita crueldade, tira­nia e opressão. Nesse período, os saques às cidades e as guerras eram constantes. Após o ano 70 d.C., com os im­peradores Tito e Domiciano, seguiu-se um tempo marca­do por perseguições às doutrinas e religiões diferentes da religião do império, caracterizada pelo culto aos impera­dores. No fim do século I, sob o governo de Domiciano, o culto dos cristãos foi declarado como religião ilícita e eles foram perseguidos como inimigos do império. Os cristãos eram torturados, muitos foram mortos.

 

O medo e a insegurança faziam parte do cotidiano da co­munidade cristã. Muitas pessoas eram simpáticas ao pro­jeto cristão, mas, devido ao estilo de vida dos cristãos, ou por medo das autoridades judaicas, não assumiam essa nova proposta de vida. Nesse grupo encontramos:

 

Membros do grupo de João Batista: os primeiros discípulos de Jesus vieram do grupo do Batista. Porém, alguns seguidores desse grupo não acei­taram a comunidade cristã, porque eram apegados à mentalidade judaica e preservavam o con­ceito de judeu como povo escolhido. No Evange­lho de João há muitas descrições que realçam a superioridade de Jesus em relação a João Batis­ta (1,8.15; 3,30-31; 5,33-36; 10,40-42).

 

Pais do cego: experimentam a gratuidade e o amor de Deus, mas, por medo dos judeus fariseus, não se comprometem (9,20-22).

 

Nicodemos e José de Arimatéia: representam pes­soas importantes da comunidade judaica. São simpáticos à comunidade cristã, mas não o sufi­ciente para abrir mão de seus privilégios e status social (3,1; 7,50; 19,38). Nicodemos, por exem­plo, não aceita o batismo na água (3,5-7). Naque­le tempo, ser batizado na água tinha o sentido de uma confissão pública e social da própria fé.

 

Assumir a proposta cristã nos dias de hoje continua sendo um desafio. Não vivemos num contexto de perse­guição religiosa, mas estamos inseridos e inseri das numa realidade onde impera a morte. A cada dia que passa au­menta o número de excluídos e excluídas, cresce o desem­prego, a exploração e as injustiças. Nosso compromisso como seguidores e seguidoras de Jesus é ouvir e assumir a causa dos pobres, dos oprimidos e oprimidas (Ex 3,7).

 

A comunidade joanina nasceu com pessoas que es­tavam sofrendo com o império romano e com o judaís­mo farisaico. Elas começaram a buscar uma forma al­ternativa de viver, experimentaram a solidariedade e a partilha. Mas quem eram essas pessoas? A que grupo pertenciam? Quais os conflitos que enfrentaram para le­var avante o projeto cristão? Certamente você tem as suas respostas para essas questões! Que bom, vamos dialogar sobre isto no próximo encontro.  Até lá!