1- Acolhida: Nesta seção, com base na realidade observada no capítulo anterior, interpretamos e avaliamos os dados à luz da doutrina social da Igreja. Utilizamos as Sagradas Escrituras, ensinamentos dos Papas e documentos da Igreja para oferecer uma compreensão ética e moral da situação. Este é um momento de reflexão profunda e crítica para identificar causas e consequências dos problemas detectados.
2- Oração da Campanha da Fraternidade: Ó Deus, nosso Pai, ao contemplar o trabalho de tuas mãos, viste que tudo era muito bom!
O nosso pecado, porém, feriu a beleza de tua obra, e hoje experimentamos suas consequências. Por Jesus, teu Filho e nosso irmão, humildemente te pedimos: dá-nos, nesta Quaresma, a graça do sincero arrependimento e da conversão de nossas atitudes.
Que o teu Espírito Santo reacenda em nós a consciência da missão que de ti recebemos: cultivar e guardar a Criação, no cuidado e no respeito à vida. Faz de nós, ó Deus, promotores da solidariedade e da justiça. Enquanto peregrinos, habitamos e construímos nossa Casa Comum, na esperança de um dia sermos acolhidos na Casa que preparaste para nós no Céu.
4- A Palavra de Deus é Luz para o nosso caminho: Se você ler com atenção os dois primeiros capítulos do Genesis, perceberá que a criação é narrada duas vezes. A primeira em Gn 1,1-2,4a, e a segunda em Gn 2,4b-3,24 (o versiculo 4 do capítulo dois é o final da primeira narração sobre a criação e também o começo da segunda. Por isso ele é divido em 4a e 4b, porque fala de coisas diferentes).
1- Gênesis 1,1-2,4a: é conhecida como a narrativa da criação em sete dias. Deus cria o mundo em seis dias e descansa no sétimo. Cada dia traz uma nova fase da criação, culminando na criação do homem e da mulher no sexto dia. Este relato tem uma estrutura bem ordenada e repetitiva, enfatizando o poder e a ordem de Deus.
2- Gênesis 2,4b-3,24: é uma narrativa mais detalhada e se concentra na criação do homem e da mulher, bem como no Jardim do Éden. Aqui, Deus cria o homem do pó da terra e depois cria a mulher a partir da costela do homem. Este relato também aborda a tentação e a queda do homem, resultando na expulsão do Jardim do Éden.
As duas narrativas lidas em perspectiva ecológica afirmam que:
A palavra de Deus tem o poder de criar e trazer a vida à existência. Em contrapartida, as ações humanas muitas vezes destroem e eliminam a vida de inúmeros animais, plantas e outros seres vivos.
A expressão "submeter e dominar a terra", quando interpretada dessa forma, enfatiza uma perspectiva de responsabilidade e cuidado. Em vez de uma ideia de exploração ou imposição, o significado está ligado à função humana de ser um guardião da criação. Isso envolve:
Cuidar: Garantir que os recursos naturais sejam utilizados de maneira sustentável, respeitando os limites do planeta.
Cultivar: Trabalhar a terra com sabedoria e ética, promovendo o crescimento e o desenvolvimento harmonioso de plantas e alimentos.
Pastorear: Proteger e guiar os seres vivos que fazem parte da criação, como animais e outros ecossistemas, com compaixão.
Proteger: Agir como guardiões, evitando danos e promovendo a conservação do meio ambiente para as gerações futuras.
Essa visão propõe que a terra seja tratada como um jardim ou paraíso, ou seja, um espaço de harmonia, equilíbrio e beleza que deve ser valorizado e preservado. É um chamado à reconciliação com a natureza e à construção de uma relação mais respeitosa com ela.
A centralidade do ser humano, formado a partir da terra (Adão), reflete sua ligação intrínseca com a casa comum, da qual ele também faz parte. Deus declarou que tudo era bom, conferindo ao homem a missão de reconhecer e valorizar a bondade e a beleza presentes na criação.
E oferecem perspectivas complementares sobre a criação e o relacionamento entre Deus, o homem e a natureza. Em ambas as narrativas, Deus é o Criador de todas as coisas. Ele é a fonte de vida e de toda a criação, destacando seu poder e soberania. Ambas as narrativas enfatizam que a criação é boa.
No primeiro relato, Deus declara que tudo o que criou é bom, enquanto no segundo, o jardim do Éden é descrito como um lugar belo e próspero. As narrativas mostram que há uma relação especial entre Deus e os seres humanos. Deus dá ao homem e à mulher responsabilidades sobre a criação e lhes fornece um ambiente ideal para viver (se você tiver interesse em estudar Gênesis de 1 a 11, fique atento para participar do nosso próximo Curso Bíblico em que iremos explorar, os pontos específicos desses onze primeiros capítulos de Gênesis).
As narrativas da criação no livro do Gênesis nos levam a compreender que a bênção e a aliança não são destinadas apenas ao ser humano, mas a toda criatura. Todos os seres criados gozam de uma dignidade inegável devido à sua origem divina. Deus atribui ao ser humano uma tarefa especial: "cultivar e guardar" a Terra, para que ela seja sempre um jardim, juntamente com tudo o que nela habita. Não se trata de exercer poder sem limites sobre os demais seres, pois não faria sentido destruir o que Deus, repetidamente, avaliou como "bom".
Essa perspectiva bíblica nos convida a refletir sobre nossa responsabilidade ecológica. Em um mundo onde desastres naturais, poluição e a extinção de espécies se tornaram preocupações constantes, lembrar que temos a tarefa divina de cuidar da Terra e de todos os seus habitantes é de extrema importância. O domínio sobre a criação não implica exploração desenfreada, mas um cuidado amoroso e sábio, refletindo a própria natureza de Deus, que é amor e justiça.
Em uma sociedade marcada por ganância e violência, a mensagem do Gênesis nos chama a um compromisso renovado com a harmonia e a sustentabilidade. Somos co-criadores com Deus, responsáveis por manter a integridade e a beleza da criação. Ao cultivarmos e guardarmos a Terra, promovemos não apenas nosso bem-estar, mas também o de todas as criaturas que compartilham este planeta conosco.
O Livro Sagrado também nos alerta para os riscos da maldade do ser humano, que resultam no pecado. No entanto, mantém viva a esperança na aliança que Deus estabeleceu com Seu povo. Aprendemos da Escritura sobre a existência de políticas opressivas, violentas e contraditórias, que resultam em catástrofes ambientais, como na escravidão do povo hebreu nas mãos do faraó do Egito. Porém, na travessia libertadora pelo deserto, a natureza favorece a sobrevivência do ser humano: a água, o maná e as codornizes — obras de Deus Criador.
No Pentateuco, a partir do Decálogo, encontramos "leis ambientais" e recomendações que unem a fé ao cuidado com a fauna e a flora. Um destaque pode ser dado ao descanso sabático, previsto não apenas para o ser humano, mas também para os animais. O ano sabático e o ano jubilar, presentes na Bíblia, preveem o repouso da terra, para que continue generosa, o perdão das dívidas e a libertação dos escravos. Esses preceitos representam um "não" à exploração sem limites. O Jubileu de 2025 é uma oportunidade para vivermos essa experiência.
Deus criou a mulher e o homem à Sua imagem e semelhança. No entanto, a miséria, fome, desemprego, analfabetismo, falta de moradia adequada, violência e grandes desigualdades sociais são parte da realidade de milhões de pessoas. Muitas pessoas são destituídas de sua dignidade como filhos e filhas de Deus. O projeto de Deus não está se realizando. É o que denuncia o poema escrito por Manuel Bandeira em 27 de dezembro de 1947.
O que sentimos quando lemos ou ouvimos esse poema? Como estamos cuidando das pessoas? E da vida do planeta? Há muitas pessoas destituídas de sua dignidade de filhos de Deus.
5- Na tradição dos padres da Igreja: a ecologia, como a entendemos hoje, ainda não era uma pauta presente ou uma preocupação explícita. No entanto, os primeiros teólogos cristãos reconheciam a importância da natureza como um meio de ensino e reflexão moral, utilizando a chamada “função pedagógica do cosmos”.
Essa expressão refere-se à ideia de que a criação divina, com sua ordem, beleza e harmonia, oferece lições valiosas para orientar o comportamento humano. Através da observação da natureza, os fiéis poderiam encontrar inspiração e exemplos para viver de forma alinhada aos princípios espirituais e éticos.
6- A doutrina social da Igreja: Com as enciclicas Rerum Novarum (Leão XIII) e Mater Magistra (João XXIII), Populorum Progessio (Paulo VI), Centesimus annus (João Paulo II) e Caritas in veritate (Bento XVI), a Doutrina Social da Igreja (DSI) aborda a ecologia sob a perspectiva da responsabilidade humana de cuidar da criação, entendendo o meio ambiente como uma dádiva divina confiada à humanidade. Esse cuidado é profundamente ligado à dignidade da pessoa humana, à justiça social e ao bem comum. Alguns pontos centrais relacionados à ecologia na DSI incluem:
Cuidado com a Criação: A Igreja ensina que o ser humano é chamado a ser um guardião da criação, cuidando do meio ambiente com respeito e responsabilidade, para que ele possa sustentar todas as formas de vida.
Dimensão Ética e Solidária: O cuidado ambiental não pode ser separado da justiça social. A degradação ambiental atinge, principalmente, os mais pobres e vulneráveis, e o uso responsável dos recursos naturais deve levar em conta as necessidades de todos.Co
Conversão Ecológica: Esse termo, destacado no magistério recente, especialmente em documentos como Laudato Si’, refere-se à necessidade de mudança de atitudes e comportamentos em relação ao meio ambiente, com base nos valores cristãos.
Bem Comum e Sustentabilidade: A Doutrina Social da Igreja enfatiza a importância de garantir o uso dos recursos naturais de forma sustentável, pensando não apenas na geração atual, mas também nas futuras.
Criação como Reflexo de Deus: A natureza, enquanto obra de Deus, reflete Sua bondade e beleza. Desse modo, proteger o meio ambiente é também uma forma de louvor ao Criador.
Ampliando essa reflexão, é crucial reconhecermos que, assim como no passado, as ações humanas continuam a impactar negativamente o meio ambiente. A ganância, a busca pelo lucro a qualquer custo e a falta de consideração pela sustentabilidade resultam em devastação ecológica. Portanto, a mensagem bíblica é extremamente relevante hoje. Devemos adotar práticas que promovam a justiça social e ambiental, assegurando um futuro melhor para todas as criaturas.
Em Jesus e na sua forma de anunciar, a Boa-Nova do Reino de Deus traz várias conotações socioambientais. Isso se expressa nas parábolas, com sementes, árvores e seus frutos, como imagens do Reino. Os pães ázimos da Última Ceia, frutos da terra e do trabalho humano, são expressão do uso moderado dos bens da terra e da opressão e miséria sofrida pelos escravizados. Jesus toma esses pães, consagra-os ao Pai e os entrega aos seus discípulos. Assim, somos convidados a deixar de lado todo fermento, ou seja, tudo o que é excesso, e abraçar a simplicidade do necessário.
Ao longo das Escrituras Sagradas, vemos que a ação do Espírito é o sopro que dá vida a toda criatura. É Deus quem cria, dá a vida e a renova constantemente, recordando-nos de que sua força tudo abraça e transforma.
9- A Igreja, a cada Quaresma, reafirma o convite à conversão ao Evangelho vivo, que é Jesus Cristo. Essa mudança de vida deve se desenvolver em diversos setores da nossa vida pessoal e eclesial, abrangendo o cuidado com a Casa Comum em que habitamos.
Ampliando esse pensamento, é importante reconhecer que a mensagem socioambiental de Jesus nos chama a uma responsabilidade ecológica. Em um mundo onde a degradação ambiental é uma preocupação constante, somos chamados a agir com sabedoria e amor pela criação. O respeito e o cuidado com a natureza são expressões da nossa fé e do nosso compromisso com o Reino de Deus.
11- A urgência dessa mensagem é evidente em tempos de crise climática. Devemos adotar práticas sustentáveis e promover a justiça ambiental, garantindo um futuro melhor para todas as gerações. A conversão ao Evangelho vivo implica não só uma transformação interior, mas também ações concretas em prol do meio ambiente e da dignidade de todas as criaturas.
12- Os Padres da Igreja, vivendo as necessidades de seu tempo, tomam a natureza e o cosmos, com seus ciclos e organização, como uma referência para o ser humano refletir sobre si mesmo e suas relações sociais. Utilizando exemplos das interações entre os seres vivos, eles nos apresentam lições sobre equilíbrio e limites. Essa é a função pedagógica do cosmos.
13- O Magistério dos Papas, que forma o tesouro da Doutrina Social da Igreja, nos tem ensinado muito sobre esse tema. Desde Leão XIII, passando por São João XXIII, São Paulo VI, São João Paulo II e Bento XVI, esse Magistério nos chama a atenção para o princípio da destinação universal dos bens da terra, o desenvolvimento dos povos, os perigos da exploração e da crescente ruptura entre sociedade e natureza, os princípios da ética ambiental e a urgência de educar para a responsabilidade ecológica. Ele também destaca a interligação entre o zelo pelo ser humano e pela natureza, expressando uma ampla tarefa eclesial que decorre da fé.
14- No pontificado do Papa Francisco, recebemos a Carta Encíclica Laudato Si '(2015) o primeiro documento do Magistério da Igreja plenamente dedicado ao tema socioambiental. Traz a noção de ecologia integral para dentro do magistério e a integra na fé da Igreja. Seu ponto de partida é a "convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo" (LS, n. 16). Nós e nosso planeta existimos em comunhão.
Outro documeto foi Querida Amazônia" (2020), fruto de um sínodo especial – o primeiro dedicado a um bioma –, representa o sonho do Papa de uma Igreja mais aberta, renovada e profundamente comprometida com a ecologia nesta região tão rica e única do planeta.
Fratelli Tutti (2021) - no auge da pandemia, o Papa convoca a humanidade a se unir em fraternidade e amizade superando as lógicas de exploração e degradação da vida humana e da vida do Planeta.
Laudate Deum (2023) - exortação de tom profético que denuncia a falta de avanços reais no combate à urgência climática atualizando alguns pontos da Laudato Si’.
O pecado mais perigoso de nosso tempo talvez seja a ruptura que estabelecemos entre humanidade e natureza, como se fôssemos superiores às demais criaturas, como se cada uma delas não tivesse valor intrínseco e não fosse capaz de louvar a Deus por si mesma. Não podemos nos deixar levar pelas falsas promessas do paradigma tecnocrático, pois nem sempre o que parece progresso representa as melhores condições de vida para todos. Por isso, a atuação social e política dos cristãos é essencial.
As ciências da Terra têm muito a nos ensinar sobre o que está acontecendo ao nosso planeta. Estudos apontam, desde o final dos anos 1980, que nosso planeta vem se aquecendo cada vez mais como resultado do nosso modo de vida. A Terra passa por mudanças e seus efeitos afetam todas as formas de vida de maneira imprevisível.
17- A sabedoria ancestral dos povos originários também tem muito a nos ensinar. Como disse o Cacique Seattle, em 1855, "Ensinai a [seus filhos] o que ensinamos aos nossos: que a terra é a nossa mãe. (...) Tudo está associado. O que fere a terra fere também aos filhos da terra. O homem não tece a teia da vida: ele é apenas um de seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio."
18- Não podemos ficar paralisados! Isso nos compromete, no seguimento de Jesus de Nazaré, neste tempo quaresmal, a aprofundar o percurso de penitência e conversão integral. Devemos agir com responsabilidade ecológica, cuidando da nossa Casa Comum e promovendo a justiça socioambiental.
O sopro de Deus continua anunciando a sua presença criadora na nossa história individual e comunitária. O poema da criação é uma resposta às questões do ser humano sobre a origem da vida. Numa perspectiva de fé, acreditamos que a origem da vida está em Deus.
1º Video: Laudato Si’ é uma declaração de amor pelo planeta terra e um compreensivo tratado sobre os mais variados temas que envolvem o cuidado de nossa Casa Comum.
2º Video: TUDO ESTÁ INTERLIGADO é baseada na Carta Encíclica Laudato Si' - sobre o cuidado da casa comum, do Papa Francisco.
3º Vídeo: Você sabe o que é o Ano Jubilar e por que ele é tão importante para a Igreja Católica? 🤔 Neste vídeo, vamos explorar a história do Ano Jubilar, sua origem bíblica, e como ele se tornou uma tradição central no catolicismo. Descubra como o Jubileu é um tempo especial de graça, perdão e renovação espiritual para os fiéis. Falaremos também sobre a simbologia das indulgências, os rituais realizados e como cada Jubileu marca um momento único na vida da Igreja e dos cristãos ao redor do mundo.
4º Vídeo: O sopro de Deus continua anunciando a sua presença criadora na nossa história individual e comunitária. O poema da criação (Gn 1,1-2,4ª) é uma resposta às questões do ser humano sobre a origem da vida. Numa perspectiva de fé, acreditamos que a origem da vida está em Deus.
As perguntas a seguir podem ajudar a aprofundar a compreensão e a aplicação prática dos conceitos discutidos neste capítulo 2. Compartilhe suas descobertas com o grupo.
1- Como assumimos o compromisso de defender condições dignas de vida para todas as pessoas?
2- Como a releitura de textos bíblicos sob a perspectiva ecológica pode influenciar a nossa compreensão da Ecologia Integral?
3- De que maneira os ensinamentos dos Santos Padres da Igreja (sécs. I-V) sobre Ecologia Integral permanecem relevantes nos dias de hoje?
4- Como a Ecologia Integral pode ser incorporada nos diferentes estilos de vida, promovendo mudanças sustentáveis e justas?
5- De acordo com o poema, Deus cria o mundo em seis dias e no sétimo descansa. Como respeitamos a criação de Deus e o ritmo dos nossos dias? Criamos espaços para o descanso e os momentos de celebração?
6- Qual é a sua opinião a respeito do Ano Jubilar e sua origem na Bíblia?
7 - Tem algo a dizer sobre o conteúdo desta página? Escreva nos comentários!
Para aprofundamento: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-02/sexto-dia-criacao-campanha-fraternidade-2025.html
Pe.Ray: https://leituraorante.comunidades.net/